Como fica a questão da saúde na escola?

Docentes que são máquinas de ensinar e alunos formatados em linha de montagem são vítimas de um sistema que impede seu desenvolvimento

POR:
Luis Carlos de Menezes
Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes
Físico e educador da 
Universidade de São Paulo (USP).

A Educação, em casa e no convívio social, é uma relação entre pessoas com nervos e sentimentos, e não somente intelecto. Em escolas onde só conta a "transmissão" de conhecimento, porém, as emoções são tratadas como estorvo e o corpo é mero suporte do cérebro. Esse tipo de instituição sacrifica crianças e jovens que não se adaptam à sua linha de montagem e expõe professores e alunos a situações de crescente tensão.

A instrução baseada num discurso de autoridade vem do tempo em que lecture ("palestra", em inglês) era a leitura de manuscritos. Tão antiga quanto essa concepção, a Pedagogia do discurso presidiu a escolarização da era industrial, resistiu à chegada da televisão e se sustenta com dificuldade em tempos de internet, mas continua fazendo vítimas.

Os alunos do tempo em que só se viam filmes no silêncio do cinema, antes dos DVDs, foram os últimos a aceitar a passividade enfileirada das aulas-monólogo. A velha fórmula que estigmatiza estudantes por "transtornos de aprendizagem" também custa a muitos professores nada menos que a saúde, inclusive a perda da voz. O médico Sandro Mendonça e a pedagoga Leila Fantini, leitores desta coluna, fazem advertências válidas para qualquer escola: o suporte psicológico e emocional evita medicação danosa a alunos com "déficit de atenção" e treinamento específico impede danos vocais a mestres cada vez mais tensos.

No entanto, estudantes que revelam na escola distúrbios que não têm fora dela e educadores com males numa proporção só compreensível em atividades desgastantes sinalizam um problema sistêmico. E não é difícil entender. Especialistas, que discursam diariamente para centenas de alunos e têm de avaliar o progresso de cada um, de cujo nome nem lembram, precisariam de preparo físico atlético. Os que lecionam para as séries iniciais, que se submetem a duras jornadas de trabalho, tampouco têm uma vida saudável. E os alunos aos quais se atribuem transtornos, reais ou não, são uma parcela considerável dos que abandonam definitivamente os estudos.

Difícil é saber de fato quantos professores adoecem, pois muitos mudam de profissão quando podem. Além disso, em algumas áreas, como a Física e a Arte, nem metade dos licenciados continua em sala de aula. A percentagem dos incapacitados é mais perceptível em redes públicas, onde é rara a escola de porte que não tenha, cuidando de biblioteca ou em função burocrática, algum "readaptado", eufemismo para a condição de quem não pode mais exercer sua função. Quem ainda trabalha sob projeto pedagógico imposto perguntará então: o que fazer? Pode-se começar por tomar consciência e denunciar o ensino alienado, que se explicita, por exemplo, quando as propostas de formação já são desprezadas na própria sala dos professores. Se não for possível fazer isso, é necessário admitir que se exerce um trabalho de alto risco e agir de acordo. No nosso caso, são dispensáaveis máscaras e capacetes de proteção, mas não se deve abrir mão de alguns recursos, como um check-up frequente. Mais que tudo, é indispensável a proteção de uma couraça moral.

Por fim, acrescentaria ainda a importância de cada docente buscar o pertencimento à sua unidade escolar, enfrentar com vontade seus desafios e se envolver com seus alunos em atividades estimulantes - o que fará com que eles também se dediquem aos estudos com mais afinco. Há exemplos de profissionais que vivem isso. Quando adoecem, como qualquer mortal, não é de desgosto por seu trabalho. Se cada escola brasileira garantisse essa condição, resolveríamos o problema sistêmico, mas ainda há muitos fatores que conspiram contra essa melhoria - assunto do autor desta coluna há mais de quatro anos.

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