Chegou, enfim, a vez dos professores

Mas projetos para rever a formação docente devem ser acompanhados com atenção para não ser abandonados como tantos outros

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Luis Carlos de Menezes

 

Luis Carlos de Menezes. Foto: Daniel Aratangy
Luis Carlos de Menezes

Esta revista sempre mostra professoras e professores que não deixam nenhum aluno sem aprender e que se realizam em seu trabalho mesmo sem estar na Educação da elite. E não são só os premiados como Educadores Nota 10. Todos fazem o que precisa ser feito mesmo em condições difíceis e são festejados por se destacarem em relação à média. É justo desejar que esse bom desempenho vire cada vez mais a regra - mas não há consenso sobre o que fazer para alcançar isso.

A pesquisa que NOVA ESCOLA publicou na edição de novembro revela que muitos professores acreditam ter sido bem formados mas confessam estar despreparados para os desafios da sala de aula, especialmente ensinar. Em defesa própria, atribuem esse insucesso à condição familiar dos alunos ou ao regime de progressão continuada, por exemplo, que só permite a retenção no fim de um ciclo. Conhecendo as médias dos exames nacionais e aceitando essas explicações, deveríamos excluir metade dos estudantes (reprovando-os até se evadirem) ou "trocá-los" por outros que valesse a pena educar, junto com suas famílias? Não.

Ao mesmo tempo, de nada serve culpar esses professores, que trabalham em situações adversas e (apesar de não se darem conta disso) fizeram cursos ruins e inadequados à realidade, sem supervisão prática das atividades em sala de aula. Aliás, como não são exceção, e sim a maioria, nem haveria como substituílos. Por isso, só nos resta compreender os problemas e tratar de superá-los. Como? Revendo a formação inicial e a continuada. Em minha opinião, essa é a chave.

"Como fazer para entender e tratar de superar os problemas? Revendo a formação inicial e a continuada"

Como existem mais de 2 milhões de pessoas nessa situação em todo o país, quem pode ajudá-los não são os mesmos responsáveis por sua precária graduação. Combater a displicência das licenciaturas em tantas instituições de ensino superior é fundamental, ainda que isso só venha a ter resultados de médio prazo que não alcançarão os 50 milhões de alunos hoje na escola. Por isso, precisamos urgentemente oferecer programas de apoio pedagógico e de formação em serviço na própria Educação pública. Ou seja, reforçar imediatamente a capacitação e as práticas escolares, enquanto se reformulam os cursos de graduação.

A boa notícia é que há vários estados e municípios cujas Secretarias de Educação oferecem orientações práticas e conteúdos formativos aos docentes, com avaliações periódicas da aprendizagem e apoio logístico à gestão escolar. Além disso, o próprio Ministério da Educação promete investir no aprimoramento do professor, com programas de capacitação e bolsas. É só um começo, que precisa ser reforçado com instrumentos de formação continuada. E justamente por isso precisamos estar atentos para que esses programas não sejam descontinuados, como tantas vezes ocorre em nosso país de tantas resistências conservadoras de interesses econômicos ou corporativos.

Nós, professores, enquanto fazemos nossa parte, devemos ficar de olhos abertos para que essas iniciativas reforcem nosso trabalho - e não fiquem só na intenção, no anúncio, na festa inicial... e depois no esquecimento.

Luis Carlos de Menezes, físico e educador da Universidade de São Paulo, sabe que os professores ainda não desistiram de promover uma Educação de qualidade em nosso país e que, para essa esperança não ser frustrada mais uma vez, é preciso investir na formação docente.

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