O aprendizado nosso de cada dia

Nem só de cursos se faz a formação do gestor. Do diálogo com a comunidade e com outros diretores, surgem maneiras de se aperfeiçoar.

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Fernando José de Almeida
Foto: Marcos Rosa
"Seja qual for a modalidade da formação em serviço, uma coisa é certa: a prática é o conteúdo que temos de estudar." Foto: Marcos Rosa

À primeira vista, o que mais chama a atenção nas atribuições do gestor escolar são as dimensões administrativas. Organizar, manter, prover, prestar contas, fazer reformas e uma infinidade de outras tarefas chamadas - muitas vezes impropriamente - de burocráticas. Mas, com uma escola que cresce em complexidade e é cada vez mais cobrada pela sociedade, uma série de funções também ganham importância na pauta de trabalho. Assim, esperam-se respostas para uma montanha de questões que interferem no dia a dia da escola e em seu sentido futuro, envolvendo áreas como aprendizagem, espaço e equipe. Sem muito exagero, é como se as demandas do gestor fossem da crise à crase.

Em geral, ele tem consciência dessas reivindicações e pode encaminhar diversas delas - é inegável que sua função carrega um potencial ambicioso, abarcando ações que vão desde orientar os rumos da aprendizagem até auxiliar o nascimento e o crescimento de projetos com que alunos, professores e funcionários sonham. A dificuldade óbvia é saber como dar conta de tanta coisa. Frente ao tamanho do desafio, já ouvi muitos colegas desabafarem sem esconder a frustração: "Não consigo fazer tudo o que esperam de mim. O que deu errado em minha formação? O que não aprendi direito? O que não me ensinaram?"

Não faz muito sentido despejar a culpa de todos os males do cotidiano na formação inicial. Sem dúvida, os conhecimentos obtidos nos cursos de Pedagogia são um ponto de partida para a atuação profissional. Mas todos sabemos que a graduação não garante a ninguém a competência plena para o exercício imediato da função. Engana-se quem pensa que esse é um problema específico da área de Educação: ele se dá em todas as carreiras. O arquiteto, por exemplo, não sai da faculdade completo. Ele é "construído" por sua obra e não por seu diploma, que no máximo atesta que ele pode vir a se tornar um arquiteto no futuro.

O mesmo ocorre com o pedagogo recém-formado, que sai (ou deveria sair) da graduação munido de referenciais e de conhecimentos para partir em busca da própria construção. Entretanto, é apenas pelo acompanhamento dos processos de aprendizagem, pela realização de experimentos, pelo gerenciamento de grupos e pela direção de programas ou instituições educativas que ele, de fato, se estabelece. Ou seja, parte enorme da formação do gestor se dá em serviço.

Esse processo, porém, não ocorre na base da mera tentativa e erro pelo acúmulo de experiências. Também não deveria ser simplesmente um voluntarismo pessoal ou o anseio de ascender na carreira. Muito embora o desejo individual dos educadores seja a mola que desperta a necessidade da formação em serviço, ela precisa ser objeto de um planejamento de Estado que ultrapasse os períodos dos governos desse ou daquele partido e que se estenda como um projeto nacional de melhoria da Educação. Felizmente, na última década, as políticas públicas têm dedicado mais atenção ao tema.

Há muitos tipos de formação. Ela pode ser realizada fora ou dentro da escola, ser de curta ou longa duração, abordar temas clássicos ou questões contemporâneas, basear-se no pensamento de autores consagrados ou em problemas concretos, conceder titulação ou implantar processos numa escola ou numa rede.

A terceira edição da revista NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, que chega às bancas no dia 21 de agosto, contempla o assunto em uma reportagem que auxilia o gestor a avaliar se os cursos oferecidos estão atendendo às suas necessidades. Fica clara, por exemplo, a importância de um planejamento da rede de ensino para transformar a formação em serviço em atividade permanente. Merece destaque a iniciativa de municípios e estados que, com base no diagnóstico de problemas comuns a várias escolas, realizam seus programas. Por meio deles, diretores de diferentes instituições analisam problemas concretos e se unem para buscar soluções. Além de incentivar o diálogo entre os pares, essa costuma ser uma alternativa mais produtiva do que apostar em palestras ou cursos esporádicos, muitas vezes desvinculados do que ocorre em aula. Se a sua secretaria ainda não dispõe desse tipo de formação, vale insistir.

Porém as iniciativas oficiais de formação em serviço não são tudo. Existe ainda outra importante fonte de aprendizado, mais difusa e enfronhada no cotidiano do profissional, que exige sobretudo sensibilidade e olhos abertos para o mundo à sua volta. É o lado mais humanista da gestão, um interesse genuíno em aproximar-se da comunidade, compreender seus anseios e suas necessidades e conhecer o papel da escola dentro dela.

Trata-se de estar atento às necessidades do entorno e de se colocar (e à escola) à disposição da comunidade. De estar antenado com as mudanças sociais que, mais cedo ou mais tarde, entrarão pelos portões - e todo gestor deve estar preparado para recebê-las. De trazer para o lado de dentro dos muros escolares a produção de cultura de nossa época.

Para isso, não existem cursos de formação. O profissional precisa ler, frequentar cinemas, museus e centros culturais e andar pela cidade em busca de referências. Sempre com o olhar atento de educador, a postura aberta de quem quer aprender e a disponibilidade de compartilhar tudo o que viu com a equipe.

Seja qual for a modalidade da formação em serviço, uma coisa é certa: a prática é o conteúdo do que nós devemos estudar. Essa reflexão baseada em casos reais oferece horizontes mais sólidos para a formação não apenas dos gestores mas também de uma política de gestão da própria escola, sem a qual não há forma de cumprir as metas de Educação de qualidade para um país. Apostando nessa atuação, calcada tanto na reflexão individual como na busca de novos espaços coletivos de formação, o gestor consegue ir além dos próprios limites.

Fernando José de Almeida

É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.

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