Projetos para saber mais sobre um tema no início da alfabetização1

Artigo | Claudia Molinari

POR:
Claudia Molinari
Claudia Molinari. Foto: Manuela Novais
Claudia Molinari Professora de Didática de Leitura e Escrita da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, e coordenadora do Programa Provincial Leitura e Escrita na Alfabetização Inicial de Buenos Aires

Para comunicar as práticas sociais da linguagem acerca da leitura, da escrita e da oralidade, é necessário que elas funcionem na sala de aula de maneira similar a que ocorre na prática social (LERNER, 2001). Preservar o funcionamento delas supõe, portanto, não abordá-las de maneira desarticulada ou fragmentada, mas de forma interdependente ou relacionada, segundo os propósitos que as orientam. Emilia Ferreiro nos convida a pensar sobre esta questão: "Quando pensamos nas atividades que efetivamente se fazem com os textos (textos já produzidos ou em processo de construção), veremos que essas atividades constituem, na maioria dos casos, interfaces entre ler e escrever. (…) Se pensamos em todos os tipos de atividades que podem ser desenvolvidas com os textos, em torno dos textos, levando em conta os textos e a propósito dos textos, veremos que passamos da fala à leitura, da leitura à escrita, da escrita à fala e voltamos a ler, de maneira natural, circulando pela língua escrita (…)" (FERREIRO, 2010, p. 145-146).

As práticas de linguagem exercidas em contextos de estudo são um bom exemplo dessa circulação para a língua escrita. Desde o início da alfabetização, os projetos de leitura e escrita que são desenvolvidos com o propósito de saber mais sobre um tema e compartilhar esse saber com os outros nos permitem recriar o funcionamento dessas práticas (CASTEDO e MOLINARI, 2000; MOLINARI, 2003). Eles oferecem oportunidades para comunicar as particularidades desse trânsito entre leituras/escritas e advertir sobre seus sinais quando os alunos são capazes de deixar marcas de leituras em suas escritas, quando escrever os impele a fazer outras leituras ou releituras - inclusive quando (ao falar) em uma breve exposição oral, esta aparece impregnada da linguagem das leituras ou dos próprios textos escritos.

Nesse tipo de projeto, as propostas didáticas se articulam desde o início em função dos propósitos que dão sentido a toda tarefa, segundo o produto que se quer alcançar - como uma publicação escrita e/ou uma exposição oral para difundir o que foi aprendido -, e seus destinatários.

A necessidade de saber mais impulsiona a busca e a exploração - por exemplo, em pesquisas de campo, vídeos, análises de imagens, consultas a um especialista, exploração e/ou leitura de materiais bibliográficos e de sites. Nesse processo de consulta e discussão sobre o tema abordado - com base em observações, exposições orais e/ou leitura de materiais pelas crianças e pelo docente -, a produção escrita é indispensável. As anotações, a elaboração de esquemas e inclusive o registro por ilustração são produções necessárias para conservar aspectos centrais, comparar informações, fazer relações e avançar na compreensão.

Em alguns projetos, a publicação de textos para compartilhar o que foi aprendido oferece oportunidades para transitar por um complexo processo de produção. Para a elaboração desse texto final, apontamentos ou notas e certos materiais lidos podem ser objeto de consulta, a fim de decidir o que e como comunicar. Nesse processo, as crianças têm a oportunidade de seguir aprendendo acerca do que escrevem e sobre o escrever (MIRÁS, 2000), pois a necessidade de selecionar aspectos do conteúdo e decidir sua formulação por escrito frequentemente as leva a questionar certos conceitos que parecem inconsistentes, ampliá-los para torná-los mais interessantes pensando no leitor, experimentar outras formas de apresentar ou hierarquizar ideias segundo o objetivo etc. Pequenos escritores que, com base na intervenção do professor, têm oportunidades de duvidar, reler seu texto, riscar, adicionar informações, consultar outro texto, reformular, experimentar uma edição melhor ou deixá-lo tal qual está.


1 Com colaboração de Andrea Ocampo.

Análise de produções de crianças

Analisemos produções de crianças de 5 anos. A professora propõe que estabeleçam relações entre características físicas e comportamentos de animais que vivem em lugares frios, selecionados segundo traços que podem ser contrastantes para os pequenos (ursos polares, focas, krill, pinguins, albatrozes…). A produção final será um livro com seções sobre cada animal, escritas em grupos, e uma síntese comparativa feita pelo grupo.

O texto abaixo2 corresponde a uma anotação que as crianças ditam de forma coletiva à professora, com base na leitura e no comentário sobre a informação encontrada em uma enciclopédia. Ao finalizar a produção, elas marcam com cor as partes importantes para destacar conteúdos e facilitar - caso necessário - sua localização. Trata-se de uma lista de conceitos importantes sobre o tema de estudo que é elaborado com base na leitura e em releituras sucessivas da enciclopédia, que recupera e sintetiza informação3.

Albatroz
- vive na Antártida.
- maior pássaro marinho.
- come krill, lulas e peixes.
- se junta em colônias.
- a fêmea põe um ovo.
- o filhote se chama pintinho.
- faz o ninho com barro e grama.
- tem bico longo, forte, com forma de gancho.
- asas longas com penas para voar.
- o macho se aproxima da fêmea movendo as asas.
- quando se forma um par não se separam mais.

Em uma das produções (versão final publicada no livro), de um grupo que escreveu sobre o albatroz, os textos têm sinais discursivos próprios de um gênero explorado em situações de interpretação e com base na leitura do professor. A página tem dados sobre o animal, descrições e explicações com uma linguagem próxima de materiais de divulgação, e apresenta o texto abaixo, elaborado pela classe e ditado ao professor:

Albatroz 
É uma ave que pode voar e se deixa levar pelo ar, plana. É a maior ave marinha do mundo, põe um ovo só.
Se alimenta de peixes, lulas e krill. Busca o alimento no mar.
O albatroz é como o pinguim, encontra uma fêmea e não se separam mais. O macho se aproxima da fêmea, faz um som, move as asas para cortejá-la.
Alimenta os filhotes com um óleo que tem no estômago e o mistura com o alimento que dá para a cria.

Na mesma página, há uma foto com legenda escrita pelas crianças, que descreve imagens e divulga a informação LOS ALBATRSO OM PCADO ("los albatros comen pescado", em português, "os albatrozes comem peixes"). Ao pé da página, mais legendas com base em fotos e ilustrações. Os autores fonetizam a escrita e produzem com base em distintos níveis de conceitualização do sistema. Textos silábicos com letras pertinentes: AEAOEEOENEIO ("la hembra pone huevo en el nido", em português, "a fêmea põe ovo no ninho"). Silábico-alfabéticos: CIDAALUEO ("cuida al huevo", em português, "cuida do ovo"). Alfabéticos: NACELEPOSOILEMAHILAEDALOGIDAN ("nace el pollo y el macho y la hembra lo cuidan", em português, "nasce o pintinho e o macho e a fêmea cuidam dele").4 Nessas produções, vemos referências claras aos conteúdos enunciados na lista anterior - dados sobre a alimentação, a reprodução e o cuidado com os filhotes. No processo de construção do texto final, o retorno às anotações, por meio da releitura do professor, permite às crianças recuperar informações, dessa vez para um novo texto. A professora orientou a turma a recorrer às anotações a fim de recuperar dados, maneiras de dizer algo por escrito ou consultar como estão escritas algumas palavras.

Albatroz. Reprodução

O texto anterior pode ser registrado só por quem fonetiza a escrita? A produção de outra criança feita em um projeto similar (imagem abaixo) revela que não. Ainda sem fonetizar a escrita (trata-se de uma produção pré-silábica), as leituras e escritas realizadas por ela para saber mais sobre a vida dos albatrozes também deixaram marcas claras. O texto abaixo consegue expor mudanças nos bicos no decorrer da vida dos albatrozes e faz referências ao macho e à fêmea nos cuidados com o filhote ("TIENEN PICO NARANJA CUANDO ES GRANDE TIENE PICO NEGRO CUANDO ES PICHÓN LE HEMBRA LE DA DE COMER A LA CRÍA CON EL PICO EL MACHO TAMBIÉN CUIDA A LA CRÍA". Em português, "Têm bico laranja quando é grande tem bico preto quando é filhote a fêmea dá de comer para a cria com o bico o macho também cuida da cria").


2 Professores responsáveis pelas situações apresentadas: A. Romano e M. Benitez. Coordenadora: Andrea Ocampo.

3 Em outros projetos, o grupo elabora esquemas ou notas, escrevendo individualmente ou em grupos.

4 Apesar de não ser objeto de análise neste artigo, vale esclarecer que, nas situações didáticas analisadas, há momentos em que são colocados e discutidos com as crianças problemas específicos de leitura e escrita focalizados no sistema de escrita.

Considerações finais

Com os exemplos apresentados, destacamos a importância de as crianças, desde a alfabetização inicial, terem chances de participar de projetos como esse que, de acordo com a prática social, propicia um trabalho articulado entre leitura e escrita para saber mais sobre um tema com limites difusos e interações entre ler e escrever.

Mesmo se tratando de crianças em processo de construção do sistema de escrita, escrever de forma não convencional não é um obstáculo para que elas possam participar e aprender com situações didáticas que envolvam leitura e escrita. Observamos tais aprendizagens desde produções pré-silábicas até alfabéticas. Embora não tenham sido analisados nos exemplos apresentados, cabe esclarecer que os pequenos nessas situações, com intervenções dos professores, têm oportunidade de avançar nos conhecimentos sobre o sistema de escrita. Ainda é válido destacar que eles estão autorizados a ler e a produzir textos com extensões diversas e razoáveis para eles (não escrevem só palavras): eles têm direito de publicar, por se tratar das melhores produções que puderam fazer.

Resumo

Elaborar projetos articulados às práticas sociais comunicativas para que, na alfabetização inicial, as crianças se deparem com desafios que impliquem escrever mesmo sem saber escrever e ler sem saber ler. É com essa prática - aberta às ideias dos pequenos - que a escola ajuda a turma a avançar no processo de construção do sistema de escrita.

Referências

- CASTEDO, M., MOLINARI, C. Ler e escrever por projetos. In: Revista Projeto. Ano III, nº 4. 2000.

- FERREIRO, E. Sobre as não previstas, porém lamentáveis, consequências de pensar apenas na leitura e esquecer a escrita quando se pretende formar o leitor. In: 30 olhares para o futuro. São Paulo: Escola da Vila. 2010. p. 145-149. Disponível aqui.

- LERNER, D. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed. 2001.

- MIRÁS, M. La escritura reflexiva. Aprender a escribir y aprender acerca de lo que se escribe. In: Revista Infancia y Aprendizaje. nº 89. 2000. p. 65-80.

- MOLINARI, C. Preservar el sentido de la lectura y la escritura en la aulas de los más pequeños. In: Quehacer Educativo. Revista de la Federación Uruguaya de Magisterio. Ano XII, nº 57. 2003. p. 74-83.
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