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Reflexões sobre as tendências no ensino de Educação Física

As novas tendências metodológicas e as possibilidades de aprendizagem mostram a importância dos jogos e das práticas corporais na formação dos alunos. Neste artigo, o professor da Escola da Vila Marcos Santos Mourão estimula os educadores a superarem as primeiras adversidades para buscar a aprendizagem de todos

por:
MM
Marcos Santos Mourão
Junho de 2014

1. Desafios do professor iniciante: superar as primeiras adversidades

No Rio de Janeiro, corredores participando da Corrida ao redor do Cristo Redentor. Foto: Divulgação
No Rio de Janeiro, corredores participando de corrida ao redor do Cristo Redentor. Foto: Divulgação
Palavra de Especialista. Marcos Santos Mour�o (Marcola), selecionador do Pr�mio Educador Nota 10 na disciplina Educa��o F�sica. Foto: Manuela Novais/Victor Malta
Marcos Santos Mourão, professor de Educacão Física
na Escola da Vila, em São Paulo,
e selecionador do Prêmio Educador Nota 10

As atividades corporais sempre estiveram presentes em minha vida. Era do tipo de criança que até quando estava doente não parava quieto. Lembro-me de quando, com apenas sete anos, acompanhei um amigo dos meus pais, corredor de rua, por toda a orla do Arpoador até o Leme, num dia de sol forte no município do Rio de Janeiro. A sensação de superar obstáculos e resistir à pressão de situações adversas sempre me fascinou desde pequeno. Hoje realizo provas de corrida de grandes distâncias e considero que esses desafios têm muito em comum com a atividade de professor.

Em primeiro lugar, para ser professor é necessário ter muita disposição e clareza de sua escolha. Ninguém se torna um bom professor na primeira tentativa. É preciso muita dedicação na formação inicial e um constante aprimoramento no desenvolvimento de didáticas específicas para a realização de um bom trabalho docente. O mesmo ocorre na preparação para uma grande corrida: é necessário começar aos poucos, com pequenas distâncias, para depois conquistar as maiores. Começar a correr não é fácil e também não traz resultados imediatos. É necessário desenvolver primeiramente uma base segura.

Durante a preparação, haverá momentos difíceis e obstáculos o colocarão à prova: falta de ar, dias frios, possíveis lesões, descrença por parte daqueles que acham desnecessário fazer atividade física... Alguns corredores poderão até se questionar: será que vale mesmo a pena tanto esforço? Mas, à medida que os resultados aparecem, a sensação de satisfação supera todas as dificuldades encontradas no começo da corrida.

De forma parecida, o trabalho docente também encontra diversos obstáculos. A começar pela preparação para ser professor. Dados do Censo da Educação Básica 2012 mostram que, apesar de formação ter melhorado no país, há docentes sem diploma de graduação em todas as etapas escolares. A procura pelas licenciaturas foi muito pequena nos últimos anos. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2011, no período de 2010 a 2011, a matrícula nos cursos de licenciatura aumentou apenas 0,1%.

Para poder atuar em escolas como professor de Educação Física, é preciso cursar de um a dois anos de licenciatura após concluir a graduação. Em geral, ao começarem a trabalhar, esses professores encontram um cenário bastante desafiador nas escolas, com falta de espaço e material adequados. Além disso, encontrarão diversos desafios para o ensino da disciplina, que não está ligado à ideia de performance e de seleção dos mais aptos. Como atrair a participação dos alunos considerados menos habilidosos ou com baixa auto-estima? Como sair da prática de atividades sem reflexão? Como ensinar aos alunos que a aula de Educação Física não é apenas um momento de diversão e lazer frente às exigências escolares de outras disciplinas? Como valorizar a Educação Física na escola?

2. Professor de Educação Física precisa ser visto como parte da equipe pedagógica

Marcos Santos Mourão, educador da Escola da Vila, entre o professor Fabrício Cunha Melo e a coordenadora pedagógica Aparecida Bertolucci, na EMEF Luiz Olinto Tortorello. Foto: Marcos Rosa
Marcos Santos Mourão, educador da Escola da Vila, entre o professor Fabrício Cunha Melo e a coordenadora pedagógica Aparecida Bertolucci, na EMEF Luiz Olinto Tortorello. Foto: Marcos Rosa

Ainda hoje, em muitos lugares, o professor de Educação Física é visto como alguém à parte do processo pedagógico e institucional. Um profissional que, apesar de muito querido por todos, tem invariavelmente sua atuação restrita às quatro linhas da quadra poliesportiva e à ajuda na organização de alguns eventos. Porém, muitas vezes esse profissional passa despercebido quando se trata de contribuir efetivamente para a construção do currículo escolar e do corpo pedagógico.

Com todas essas dificuldades, voltamos à pergunta do corredor: "será que vale a pena tanto esforço?". O que leva o professor a querer lidar e superar tantos obstáculos?

Acredito que é a certeza de seu papel como educador e a vontade de alcançar resultados, de influenciar e transformar pessoas, que faz com que o professor persista e mantenha o brilho nos olhos.

Essa resiliência está presente em muitos trabalhos enviados por professores de todo o país para o processo de seleção do Prêmio Educador Nota 10. Fui selecionador do prêmio em 2013 e destaco a seguir alguns pontos observados em minhas leituras.

3. Valorizar a dimensão atitudinal para transformar competição em cooperação

Marcos Santos Mourão, educador da Escola da Vila, ensinando os alunos do professor Fabrício Melo a pular duas cordas, na EMEF Luiz Olinto Tortorello. Foto: Marcos Rosa
Marcos Santos Mourão, educador da Escola da Vila, ensinando os alunos do professor Fabrício Melo a pular duas cordas, na EMEF Luiz Olinto Tortorello. Foto: Marcos Rosa

Muitos professores têm ressaltado em seus trabalhos a valorização da dimensão atitudinal dos conteúdos, ou seja, para muitos professores de Educação Física, é cada vez mais clara a importância de, por meio do movimento, oferecer situações positivas de convivência e solidariedade.

Nesse aspecto, as atividades competitivas em aula precisam ser revistas para que não se tornem meras reproduções de situações de desrespeito, violência e discriminação tão veiculadas pela mídia, principalmente nas notícias sobre esporte. Quando apresentamos a competição como uma cooperação de competências - quer dizer, todos têm o direito e o dever de contribuir com o que sabem fazer de melhor -, passamos a olhar para o processo de competir sob outro ponto de vista, reconhecendo a importância do outro, inclusive a do adversário.

Esse tipo de abordagem traz uma visível mudança na relação entre os alunos durante a aula mas, assim como na preparação para uma corrida, não há resultados imediatos e requer bastante esforço do professor.

4. Trabalhar apenas os esportes tradicionais com os alunos é coisa do passado

Aluno do professor Lindinalvo Natividade treinando capoeira, na EM Aureliano Portuga. Foto: Fernando Frazão
Aluno do professor Lindinalvo Natividade treinando capoeira, na EM Aureliano Portuga. Foto: Fernando Frazão

Outro tema bastante presente nos trabalhos enviados pelos professores é a diversificação e ampliação dos conteúdos oferecidos aos alunos de Educação Física. Aquele professor que apenas ministra temporadas esportivas de futebol, basquete, vôlei e handebol a cada bimestre, infelizmente parou no tempo.

Hoje, além dos esportes tradicionais, há outras modalidades esportivas que atraem cada vez mais os alunos: corrida de orientação, esportes de aventura (rapel, escalada, canoagem), esportes de ação (skate, surf, parkour), ginásticas (ioga, massagem, ginástica artística).

As lutas, que sempre estiveram à parte das aulas, por receio ou preconceito, também foram adaptadas para um contexto lúdico e regrado. Dançar na aula de Educação Física? Por que não? A ampliação de propostas para corpo e movimento possibilitou a participação de alunos que até então não eram vistos como competentes ou habilidosos. E isso é muito bom! Afinal, é importante que todos os alunos descubram alguma competência motora no âmbito da cultura corporal.

5. Planejamento contribui para superação das dificuldades materiais

Alunos do professor Alessandro Cohen praticando slackline, na EM Professora Lacy Luiza da Cruz Flores. Foto: Marcelo Almeida
Alunos do professor Alessandro Cohen praticando slackline, na EM Professora Lacy Luiza da Cruz Flores. Foto: Marcelo Almeida

Quando falamos de todos, queremos dizer realmente TODOS os alunos e aí incluímos os com deficiências físicas e motoras, os com Síndrome de Down, autistas, etc. Esse é um dos maiores desafios no trabalho docente, pois há muito para avançar.

O que temos visto em algumas experiências escolares em Educação Física, que já demonstram uma preocupação com essa questão, é um atendimento especifico das limitações motoras, com exercícios direcionados para o aluno, normalmente com a colaboração de um auxiliar (quando há essa possibilidade). A inclusão desse aluno para participar das atividades com todo o grupo ainda é um desafio a ser superado pela maioria dos professores de Educação Física. .

Em relação aos recursos materiais e espaciais que o professor dispõe para desenvolver suas aulas, encontramos um cenário de escassez na área da Educação Física brasileira. É nosso direito e dever reivindicar sempre melhores condições de trabalho. No entanto, observamos que, para os professores resilientes, essa dificuldade tem funcionado como um desafio para a elaboração de novas possibilidades de aula, levando para suas turmas outras vivências corporais (dança, corrida de orientação, consciência corporal, brincadeiras cooperativas) e materiais diversificados (construção de brinquedos e objetos para atividades corporais com sucatas).

Por fim, quero compartilhar algo que considero mais valioso para um professor resiliente e que encontrei na leitura de vários projetos enviados por educadores: em todos, está presente a vontade de ensinar aos alunos e a crença de podem experimentar a cultura corporal de movimento, que por circunstâncias diversas, é negada a eles.

Sobre o especialista

Marcos Santos Mourão (Marcola) é Professor de Educação Física da Escola da Vila e selecionador do Prêmio Educador Nota 10.

 

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