A formação exige prática

POR:
NOVA ESCOLA

É provável que a frase mais dita sobre a educação matemática nas escolas seja "os professores são mal preparados". Em geral argumenta-se que a culpa é de cursos ruins. Mas não existe uma licenciatura em Matemática que forme os professores de nossos sonhos. Em primeiro lugar porque trabalhamos com alunos reais, com histórias, experiências de vida (escolar e não escolar), qualidades e dificuldades distintas. Em segundo porque lidar bem com essa diversidade exige maturidade, adquirida somente com experiência profissional, reflexão sobre a prática e melhor capacidade de tomar decisões a respeito de situações novas que surgem no cotidiano.

É fundamental para os professores de Matemática ter acesso a um sistema que sustente seu desenvolvimento de forma continuada. Ele não deve ser baseado em cursos de atualização, e sim em redes de grupos de trabalho nos quais eles decidem quais as questões reais e relevantes para sua prática que devem ser discutidas.

Hoje a licenciatura tem a função impossível de formar um professor capaz de sobreviver mesmo em isolamento profissional. Mas, com um sistema de apoio ao desenvolvimento continuado, seu papel torna-se outro. Ela passa a ser apenas uma iniciação que visa educar o olhar do futuro professor para ver a diferença e lidar com ela e educar os hábitos dele para o trabalho cooperativo com colegas. É como parte dessa formação, como meio, que os estudos matemáticos ou pedagógicos devem ser entendidos, e não como fim.

O objetivo da licenciatura é educar futuros professores. Por isso eu argumento que o grande problema das licenciaturas em Matemática é o modelo 3+1, equivalente a três anos de estudo de Matemática mais um ano de Pedagogia. Por estar centrada nos conteúdos e não na formação profissional, essa proposta contribui pouco para iniciar o licenciando em sua vida profissional. E isso acontece em quase todas as licenciaturas, boas ou ruins.

De "mal preparado" o professor passa a se ver "em processo", já que tem consciência de que situações novas para ele são parte da profissão, e não resultado de uma preparação inadequada. Isso se aplica a questões matemáticas ? a idéia de um aluno que ele não sabe avaliar se está certa ou errada ? e não-matemáticas. Aqui entraria, por exemplo, a forma de agir quando uma certa abordagem usada em sala não está funcionando.

Os professores não são mal preparados. Mal preparado é o modelo de formação docente. 

Romulo Lins é professor do Departamento de Matemática e do programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Rio Claro, em São Paulo. 

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