Análise de "O enfermeiro", de Machado de Assis

POR:
novaescola

Objetivo(s) 

  • Conhecer os procedimentos de análise literária
  • Reconhecer a complexidade da obra machadiana
  • Entender a importância dos escritos machadianos para a compreensão da estrutura social brasileira
  • Discutir as relações entre literatura e sociedade

Conteúdo(s) 

  • Procedimentos de análise literária
  • Forma literária
  • Estrutura social brasileira no sistema escravista

 

Ano(s) 

Tempo estimado 

4 aulas

Material necessário 

Cópia do conto "O enfermeiro", de Machado de Assis (o conto está disponível para download gratuito no site Domínio Público. Clique aqui e acesse).

Desenvolvimento 

1ª etapa 

Conduza a leitura do conto "O enfermeiro", de Machado de Assis com a turma. Fique atento às observações dos alunos e esclareça eventuais dúvidas sobre palavras que eles desconhecem. Se necessário retome alguns pontos para assegurar que todos compreenderem o enredo.

Neste momento o mais importante é responder a pergunta: sobre o que fala o texto? Faça um resumo e conte "a história com suas próprias palavras". Por conta disso, seja curto e objetivo e fique atento apenas ao essencial.

Exemplo: O conto "O enfermeiro" narra a história de Procópio, um homem do Rio de Janeiro que vai ao interior trabalhar como enfermeiro para um velho coronel muito doente. Durante um bom tempo ele aguenta o mau-humor e as agressões verbais do coronel com paciência e resignação. No entanto, quando o velho parte para a agressão física, o enfermeiro perde a cabeça e o estrangula. O doente morre e Procópio esconde o assassinato declarando que ele morreu dormindo. Ao voltar para o Rio, o ex-enfermeiro descobre-se herdeiro universal do coronel. Sentindo-se culpado pela morte do ex-patrão, decide doar aos pobres toda a herança. Com o tempo, porém, convence-se de que aquela morte foi uma fatalidade e passa a gozar a herança inesperada. 

2ª etapa 

Ao analisar um conto, buscamos elementos para interpretá-lo e atingir o seu sentido mais profundo. Desde o início temos em mente uma ideia do que o conto significa, isto é, uma hipótese interpretativa ou um elemento que nos deixou intrigados. No caso do conto "O enfermeiro", sabemos com toda certeza que Procópio enriqueceu porque herdou a fortuna do coronel. Mas não conhecemos como ele deixou de sentir-se culpado pela morte e desistiu de doar todo o dinheiro.
Também não fica muito clara a razão da repentina explosão de ódio que o levou a matar o velho, visto que Procópio ainda não tinha tido reações intensas diante dos maus tratos que sofria - a não ser a decisão de deixar o doente, tomada pouco antes.

Em obras literárias de qualidade, há sempre algo a ser respondido pelo leitor. A interpretação se constrói por um trabalho de leitura do qual participam ativamente tanto o escritor quanto o leitor. O autor deixa "fios soltos" que devem ser resolvidos por quem lê a obra. Para responder essas questões menos evidentes na leitura do conto (chamadas aqui de "questões norteadoras"), precisamos criar as nossas hipóteses interpretativas.

Formule, junto dos alunos, questões norteadores e veja quais hipóteses interpretativas eles criaram.

Exemplo de questões norteadoras: - Por que Procópio, que parecia tão resignado e paciente, de repente pula no pescoço do coronel e o mata?
- Como é que ele se livra da culpa e decide desfrutar a herança?


Exemplo de hipóteses interpretativas: acho que o assassinato do coronel pode ter sido uma explosão de ódio acumulado em função das muitas agressões sofridas no convívio com o doente. Nesse sentido, o ferimento com a moringa teria sido a "gota d¿água" para o enfermeiro. Quanto à herança, talvez a ganância e a possibilidade única de mudar de vida tenham sido mais fortes para Procópio do que seus sentimentos cristãos.

3ª etapa 

Prossiga a análise com os estudantes. Tenha em mente que cada obra literária tem inúmeros elementos que a constituem e, de fato, é impossível investigar todos. Para esta etapa, escolha analisar os elementos que respondam as questões norteadoras formuladas por seus alunos.

Lembre que a análise deve construir argumentos que sustentem a interpretação. É ela que vai conduzir o leitor conforme seu raciocínio. Como se, lendo a sua análise, o leitor compartilhasse das mesmas dúvidas que você e dissesse "também não entendi" ou "não acho essa questão pertinente".

Não podemos esquecer também que, em arte, forma é conteúdo. Por isso, ressalte com os estudantes a contribuição de alguns aspectos formais na economia do conto. O que são "aspectos formais"? São elementos que se referem mais a como algo está sendo dito do que ao que está sendo dito. Exemplos: tipo de narrador, a caracterização de algum personagem, o tempo, o espaço e o tipo de discurso.

Neste caso, os estudantes poderão identificar que o conto foi narrado em primeira pessoa, em um tom confessional. Eles poderão notar que Procópio revela a história apenas por estar à beira da morte. Este é um detalhe importante, que indica que algo desabonador será descoberto.

Também pode chamar a atenção o personagem do coronel, que se delicia em ofender e humilhar os que o cercam. Algumas frases também parecem ambíguas, como a do penúltimo parágrafo ("...mas a verdade é que ele devia morrer...") e o epitáfio que Procópio recomenda para si próprio ("Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados").

 

Exemplo resumido de análise que você e seus alunos poderão formular: O parágrafo inicial de "O enfermeiro" sugere ao leitor que algo de muito grave será confessado, pois o narrador só ousa confessá-lo por estar moribundo. Quando ele parte para a história em si, temos ideia de sua condição de homem livre (estamos no Rio de Janeiro, em 1860, quando ainda vigorava a escravidão no Brasil), pobre e obrigado a prestar serviços de copista para um padre (seu ex-colega de colégio) em troca de moradia e comida. A oportunidade de trabalhar como enfermeiro para o coronel Felisberto lhe parece ótima, dado que, além de casa e pão, receberia também um bom salário. Mas o coronel, apesar de velho e muito doente, se aproveita de suas prerrogativas de rico proprietário para divertir-se humilhando os que, como Procópio, dele dependem. "Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros."

Por falta de alternativa melhor, o enfermeiro decide resignar-se aos maus-tratos do velho, que não demoraram a se estender da agressão verbal para a física. Primeiro, o coronel Felisberto "pegou da bengala e atirou-me dous ou três golpes. Não era preciso mais; despedi-me imediatamente...". No entanto, por insistência do doente, o enfermeiro acaba ficando, aparentemente conformado com os maus tratos: "Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d¿asno, idiota, moleirão, era tudo. (...) Mais de uma vez resolvi sair, mas instado pelo vigário, ia ficando."

Depois de um ano trabalhando para o coronel, Procópio decide finalmente ir embora ("Já por esse tempo, tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão.") e combina com o vigário o prazo de um mês para que se procure um substituto.

É então que, em seus acessos de raiva, o coronel atira no enfermeiro primeiro um prato de mingau e depois uma moringa que lhe atinge o rosto. "...tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o."
Muito irritado e com muito medo de ser preso, Procópio disfarça as marcas no pescoço do cadáver e declara que o coronel amanheceu morto. A mentira não é questionada e o enterro decorre tranqüilamente. De volta ao Rio, o remorso perturba o ex-enfermeiro: "...não ria, falava pouco, mal comia, tinha alucinações, pesadelos..."

Sabendo-se herdeiro universal do coronel, a culpa o inspira a doar toda a herança recebida. "Não era só escrúpulo; era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas." No entanto, conforme vai se aproximando o recebimento da fortuna, Procópio desenvolve um mecanismo de auto-ilusão em que se convence de que o crime foi na verdade uma luta e uma fatalidade. Era possível até que tivesse havido uma coincidência entre morte e luta, dado que a vida do coronel estava mesmo por um fio. Aliado a isso, o consenso dos moradores da vila em relação à perversidade do morto acabou por dissipar da alma do ex-enfermeiro a idéia da doação total, que se restringe a algumas poucas obras de caridade.

 

É bom que a análise inclua trechos do texto, isso ajuda a dar voz à obra. É possível interpretar que o conto fala da flexibilidade moral de um indivíduo ganancioso. O estrangulamento do coronel teria sido mesmo uma explosão de ódio acumulado durante um ano e os remorsos teriam se dissipado frente às delícias da fortuna. Trata-se de uma leitura verdadeira, mas faltam algumas questões a resolver. Por isso, pergunte:


Por que o coronel, mesmo velho e muito doente, insiste em humilhar e ofender o enfermeiro pelo qual depois revela tanto apreço? E o que significa a frase dúbia "...mas a verdade é que ele devia morrer...".Qual o sentido do epitáfio de Procópio?

Para responder a essas questões é necessário entrarmos em outra etapa do trabalho analítico.

4ª etapa 

Agora, faça uma exposição do contexto histórico da obra e do funcionamento da sociedade escravista. A literaturafaz parte do tecido social em que está inserida. Como diz o especialista Antonio Cândido, também determinam a obra as "...circunstâncias de sua composição, o momento histórico, a vida do autor, o gênero literário, as tendências estéticas de seu tempo, etc. Só encarando-a assim teremos elementos para avaliar o significado da maneira mais completa possível (que é sempre incompleta, apesar de tudo)."

Exemplo resumido de comentário: "O enfermeiro" se passa em 1860, período de apogeu do Império brasileiro. Após a independência, a única coisa que unificava as elites de todo o território nacional era a escravidão, vista politicamente como um "mal necessário". Entre 1850 e 1860, acaba a tensão entre elites regionais e poder local e passa a ser possível a extinção efetiva do tráfico negreiro.

No entanto, a sistema colonial escravista produzira na sociedade brasileira uma camada de homens livres pobres que, não sendo proprietários e impedidos de se proletarizar, permaneceram à margem do sistema e, do ponto de vista da produção econômica, sem razão de ser. Restou a essa camada significativa da população a alternativa de sobreviver dos favores dos grandes, de escassas e mal-remuneradas profissões liberais (barbeiro, costureira etc.), de pequenos golpes ou furtos. O nosso copista-enfermeiro, Procópio José Gomes Valongo, pertence à camada dos homens livres na ordem escravocrata, dependente dos favores de um ex-colega ou de trabalhos raros e, no caso do coronel Felisberto, ultrajantes.

5ª etapa 

Após tudo o que foi conversado, peça que os estudantes resgatem o que pensavam antes da análise. A interpretação é a mesma? Antes da análise, eles haviam pensando na relação entre a narração e o contexto da obra? Comente a distância entre a compreensão inicial do conto e a consciência de sua complexidade após o trabalho interpretativo.

Aproveite para discutir também as relações entre literatura e sociedade e a importância de se encarar a literatura como um objeto de conhecimento.

Avaliação 

Proponha um trabalho de análise de outro conto de Machado, preferencialmente em grupos pequenos. Avalie se os estudantes conseguem formular questões pertinentes à obra e se conseguem se distanciar da leitura parafrástica e construir interpretações coerentes.

Créditos: Helena Weisz Formação: Especialista em Língua Portuguesa e Literatura

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