A escola que cria e concretiza utopias

Ao mostrar - e ser - bons modelos de respeito, educadores que atuam em áreas de risco afirmam que a realidade pode ser diferente

POR:
Fernando José de Almeida
"Sim, a violência existe. Mas não é mais forte
do que a vontade das pessoas de tecer a 
própria história. Por isso, pode ser superada."

Uma das características que nos distingue dos outros seres vivos é a possibilidade de ser algo além do que prevê a genética. Temos condições de agir usando muito mais do que os instintos e as reações que regem a vida dos outros animais. Com inteligência, raciocínio e livre arbítrio, fazemos arte, religião e cultura e vivemos com nossos semelhantes. Por meio das escolhas que fazemos diariamente, montamos a própria história e a do grupo ao qual pertencemos, a sociedade e a humanidade. Ninguém é prisioneiro de um destino - como foi o personagem Édipo Rei, na tragédia escrita pelo poeta e dramaturgo grego Sófocles (496-406 a.C.).

A ideia do homem construtor da própria história me veio clara à mente ao ler a reportagem Educar em Meio à Violência, publicada na edição de outubro/novembro de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR. Nela, três diretoras que há muito tempo estão à frente de escolas municipais no Rio de Janeiro - localizadas em áreas de risco - dão depoimentos contando como convivem com a violência que se instalou na vizinhança sem ser coniventes com ela. E, por meio da valorização permanente da aprendizagem e do conhecimento, mostram aos estudantes que a vida pode oferecer muitas e diversas possibilidades, além do destino ligado ao crime.

As gestoras recordam com tristeza de algumas cenas violentas que presenciaram na comunidade e dos alunos que abandonaram a sala de aula para trabalhar no tráfico de drogas - ou mesmo dos parentes desses jovens e de funcionários que morreram nos confrontos de rua que vez ou outra explodem nas redondezas. Há quem acredite que quem vive nessa realidade acaba, de uma maneira ou de outra, se submetendo a ela.

Não é o que pensam essas diretoras e as respectivas equipes. Elas acreditam que é possível, sim, construir um mundo diferente e melhor. Elas têm uma utopia. Sim, a violência existe. Mas não é mais forte do que a vontade das pessoas de tecer a própria história. Por isso, pode ser superada. De que maneira essas escolas estão mostrando aos jovens que outras oportunidades existem e que eles também podem ter uma utopia? De várias maneiras. Alimentando sonhos e ambições. Fazendo com que os profissionais que nela trabalham (professores, diretores e funcionários) sirvam de bons modelos ao ensinar, junto com os conteúdos escolares curriculares, ética, respeito e tolerância - e, claro, agindo dentro desses princípios. Abrindo portas para que eles tenham contato com outras realidades. Afirmando que todos têm condições de trilhar o caminho que desejarem.

Antes de concluir esse artigo, cabe fazer um esclarecimento. A tradução etimológica restrita da palavra utopia remete ao sentido de "lugar nenhum". Eu, particularmente, prefiro o conceito construído pelo educador e filósofo pernambucano Paulo Freire (1921-1997). Para ele, ser utópico não é sair desenfreadamente em busca daquilo que não pode ser realizado. Ao contrário, é saber denunciar as injustiças de uma sociedade desumana e, ao mesmo tempo, anunciar um novo mundo de realizações, de solidariedade e de liberdade para todos.

Não tenho dúvidas de que a escola é o lugar de excelência para que esse princípio se concretize. E as diretoras retratadas em GESTÃO ESCOLAR comprovam isso ao olhar para cada jovem aluno e para a comunidade escolar com a intenção de fazê-los crescer e ao apontar a aprendizagem como uma forma de libertar-se da violência. Na verdade, todas elas, assim como os professores que trabalham naquelas escolas, têm uma visão utópica da Educação, da cidade em que vivem e da vida. Inventar e construir a própria história e a história de todos é a nossa lição - de casa e de vida.

Fernando José de Almeida

É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.

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