Caderno: vitrine da classe, espelho do aluno

Anne-Marie Chartier

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Anne-Marie Chartier
Anne-Marie Chartier. Foto: Kriz Knack
A autora Doutora em Ciência da Educação, é professora e pesquisadora do Instituto Francês de Educação (Ifé, em francês), em Lyon, na França. Áreas de estudo História da Educação, formação de professores e práticas de ensino. Contato

A cada ano, no mundo, milhões de cadernos escolares são preenchidos pelos alunos. A maioria vai acabar no lixo - os traços do aprendizado não têm vocação para serem conservados, salvo em algumas famílias, que os consideram arquivos sentimentais. É no presente que os cadernos têm uma função importante. Como eles são vistos pelo aluno, pelo professor e pelos pais? O que revelam os cadernos escolares?

O estudante que acaba de terminar um exercício pode olhar sua produção com alívio (ufa, acabou!), mas também com satisfação (porque soube fazê-lo bem), com inquietação (tem o sentimento de que falhou) ou ainda com expectativa (não sabe o que o professor vai pensar). Ele pode comparar sua produção com a do colega, mas só quando o professor tiver visto é que saberá quanto "vale" seu trabalho.

Olhando o caderno, o professor, por sua vez, analisa se a consigna foi bem executada e se o aluno a entendeu (ou copiou a resposta de um amigo). Mas ele pode analisar também, de modo mais ou menos intuitivo, duas outras coisas. De uma parte, se a criança fez progressos (se trabalhou mais rápido, se foi até o fim do exercício, se compreendeu a consigna, se foi capaz de corrigir um erro etc.) e se não avançou (o exercício mal foi iniciado, a consigna não foi levada em consideração, a escrita é desastrosa, o caderno foi utilizado para fazer outra coisa, como desenhos). Além disso, o docente pode notar se o trabalho foi ou não uma tarefa interessante do ponto de vista pedagógico. Por exemplo, se quase todos os alunos abandonam o exercício no meio do caminho ou cometem erros, é sinal de que a consigna foi mal formulada ou a questão não foi pertinente. De outro modo, se o exercício é muito fácil, ele tem um papel diferente. Não permite que se aprenda, mas revela quais foram os conhecimentos adquiridos, o que todos sabem fazer. Assim, ao mesmo tempo que revela a dinâmica de aprendizagem de cada aluno, o caderno escolar possibilita ao professor julgar suas propostas pedagógicas em relação ao nível de uma turma.

Graças ao caderno, os pais também podem fazer um julgamento a respeito da criança (ela soube fazer a tarefa solicitada pelo professor? Terminou os exercícios? Se esforça para escrever?) e sobre o educador (ele corrige os exercícios com regularidade? As anotações são afáveis ou desencorajadoras? Gentis ou duras?). O caderno constitui um elo material entre a família e a escola pelo qual os pais conhecem as ligações mantidas entre o educador e o aluno. Eles também se dão conta de que o professor tenta mostrar seu próprio trabalho pelo trabalho da criança e isso explica por quê, em inúmeros países do mundo, os cadernos devem ser assinados pelos pais.

Esses poucos exemplos mostram até que ponto o caderno é uma fonte de informações muito mais rica e complexa do que se pensa. Compreende-se por que os psicólogos escolares (Santos, 2008) podem usá-lo para fazer diagnósticos e os especialistas em aprendizagem e os historiadores podem se servir dele como um arquivo (Chartier, 2002, 2007) que permite adentrar a caixa-preta do trabalho escolar.

Não é inútil, portanto, prestar atenção nesse objeto, tão banal a ponto de os professores não lhe darem o devido valor. Eles discutem entre si sobre os livros escolares (quais adotar? Como identificar os melhores ou mais adequados?), sobre a aplicação de regras (o que fazer com os alunos que não sabem ler bem e não podem ser reprovados? Como incluir crianças com necessidades educacionais especiais [NEEs]?) e sobre as crianças que causam problemas (o que fazer com fulano? Dá para contar com a ajuda da família?). Porém é muito raro que eles conversem a respeito do caderno como se ele fizesse parte da vida privada da classe e das escolhas pessoais do docente.

A questão é muito difícil de abordar coletivamente, já que os cadernos hoje em dia têm a concorrência de outros suportes. Desde os anos 1980, existem apostilas acompanhadas de manuais para o docente. Há folhas avulsas para as crianças desenharem, escreverem ou imprimirem suas produções e fotocópias distribuídas pelo professor. Conforme o caso, essas folhas são coladas no caderno, dia após dia, ou reunidas em arquivos de acordo com a natureza da atividade (desenhos livres, textos inventados, ditados, resumos, mapas, figuras geométricas...).

Enfim, muitas atividades não deixam traços nos cadernos: algumas são apenas orais, outras são organizadas em um texto coletivo, que podem ser escritos em cartazes. É impossível, então, imaginar que se pode julgar a totalidade do trabalho escolar com base no caderno dos alunos.

A história do caderno

Para esclarecer a atual situação, talvez seja útil voltar no tempo e refazer a história do caderno. No século 17, nos colégios de elite, os alunos tinham um "livro branco". Encadernado, e muitas vezes grosso, era feito de folhas de papel virgem. Nesse suporte, os estudantes copiavam os textos que acabavam de traduzir (para o latim, o grego ou a língua falada na escola). A tradução, que constituía no exercício base, não era escrita no caderno, mas em uma folha avulsa. Só depois de corrigida ela era copiada no caderno. Vê-se assim que, na época, a finalidade do caderno não era avaliar o progresso do aluno, e sim acumular todos os textos trabalhados, como se fosse um "livro de memória", sem erros.

Nas escolas dos mestres escrivões aritméticos, o princípio era o mesmo. Os discípulos de comerciantes e artesãos aprendiam a escrever e fazer contas e o caderno utilizado para tal servia por toda a vida, reunindo os exemplos (as operações e as resoluções de problemas) e os modelos (de escrita, de caligrafia, fórmulas de correspondência, apresentação de contas, de faturas, de orçamentos etc.). Era um tipo de "obra-prima", capaz de provar que o estudante chegou a um nível de habilidade - todos os testes eram feitos em tabletes de cera, que se desfaziam, ou em folhas avulsas, que não eram conservadas.

Nas escolas onde o povo se instruía, os alunos que aprendiam a ler não tinham caderno. A minoria que permanecia na escola depois das aulas se reunia para aprender a escrever e contar. Os escritos que o mestre julgava bem-sucedidos eram conservados e só depois reunidos e encadernados para formar um caderno.

Nas três situações, o caderno era um manuscrito livre, que o aluno construia para manter a memória daquilo que ele aprendeu e que dava testemunho de seu conhecimento. Como se destinava a ser consultado como um livro, não devia conter erros. Não é de espantar que os cadernos escritos antes de 1850 passem a impressão de um tempo em que todos os alunos eram excelentes.

O que muda no uso dos cadernos são as inovações tecnológicas. Elas definem de outro modo a relação entre o oral e o escrito e entre a leitura e a escrita. Na metade do século 19, o papel de tecido, caro e usado com parcimônia, foi substituído pelo papel de celulose. O preço caiu pela metade e os cadernos ficaram ao alcance da maioria. Ao mesmo tempo, se difundiam as plumas com ponteiras de aço, mais fáceis de usar (com elas, os alunos aprendiam a escrever mais cedo do que nos tempos das plumas de ganso). Dessa forma, nos cadernos que foram conservados, é possível ver linhas de letras e sílabas escritas pelos iniciantes, que tentam depois escrever máximas e provérbios, primeiramente em grandes traços, depois médios e, por fim, muito finos. Temos assim uma ideia do percurso que os alunos faziam anteriormente. Veem-se traços desajeitados, pingos e as marcas de tinta, consertos hesitantes e o desembaraço crescente ao longo das páginas. Começa a nascer o caderno que dá uma visão do aprendizado em andamento.

Na França, enquanto os alunos do Ensino Médio continuavam a fazer cópias impecáveis de textos corrigidos pelos mestres, os do Ensino Fundamental foram submetidos a outra organização. Na Terceira República (1870-1940), como a escola se tornou obrigatória, o governo pedia que os professores reunissem em um único caderno (o chamado "caderno do dia") todos os exercícios feitos em classe à medida que eram executados. A ordem era que os escritos fossem ser uma imagem fiel do que cada aluno era capaz de fazer no momento em que o aprendizado era adquirido. Dessa maneira, os inspetores que chegavam às classes podiam avaliar os mestres e o trabalho deles com maior eficiência. Eles podiam ver as diferenças entre os alunos e o progresso de cada um e constatar como a aula era organizada. Entre 1880 e 1900, o caderno se tornou um verdadeiro espelho da organização dos avanços dos alunos e da semana: ao lado das linhas de escrita, dos ditados e dos problemas, observavam-se mapas, desenhos científicos, cronologias e numerosos motivos decorativos.

Entretanto, como a lembrança dos cadernos "sem erros" da geração anterior ainda era muito presente, ficava impossível fazer as escritas aparecerem "no primeiro esboço", como em um caderno de rascunho. O trabalho dos alunos se fazia, então, em dois momentos: o rascunho era mostrado ao mestre, que indicava correções (coletivas ou individuais) e, depois, a correção do exercício, "passada a limpo". Tem-se um testemunho do aprendizado, mas não a escrita espontânea nos cadernos. A diferença com os cadernos contemporâneos continua muito grande. Entretanto, os dessa época, parecem bem menos belos do que os antigos. Certos mestres da velha geração demoraram a aceitar as novas normas e preferiam manter os ditados sem erros, como nos tempos idos. Esses cadernos de ortografia impecável não devem, portanto, nos fazer acreditar em milagres.

Foi preciso esperar os anos 1920 e 30 para que se generalizasse o uso da tinta vermelha para as correções do professor, as anotações e as felicitações e as críticas duras aos erros e, sobretudo, à falta de asseio (revelada em folhas sujas e escrita desleixada). Até os anos 1960, o caderno não testemunhava as competências pessoais do aluno, mas o desempenho que se podia esperar dele quando estivesse integrado ao grupo e recebesse a vigilância do docente.

A última época foi marcada ao mesmo tempo por uma mudança de ponto de vista sobre a criança e pela chegada de novas ferramentas à escola. As normas educativas familiares ficaram menos autoritárias, a Psicologia do desenvolvimento permitiu aos pais se maravilhar com os primeiros rabiscos dos pequenos e os novos instrumentos de escrita (lápis de cor e canetas coloridas) começam a ser manipulados desde a mais tenra idade: os exercícios gráficos e o desenho à mão livre adentraram a Educação Infantil. Nas turmas de crianças pequenas, não havia cadernos, anotações e correções. O foco do projeto pedagógico era favorecer as atividades lúdicas. Produções feitas em grandes folhas e com tinta, lápis de cor e canetas coloridas passaram a ser colecionadas no portfólio que o educador enviava aos pais no fim do ano como uma evidência do trabalho de seu filho. De posse do material, eles podiam ver como a criança evoluiu, desde o desenho do "homem cabeçudo" até as representações mais completas da figura humana.

É essa concepção da Educação Infantil, em que prevalece a pedagogia da livre expressão, que finalmente adentra a escola elementar nos anos 1960 e 70. As inseguranças do aluno em vias de aprender e inventar parecem mais interessantes do que as realizações revistas e corrigidas pelo professor. Nas pesquisas didáticas sobre as estratégias de aprendizagem, os erros são analisados como signos que manifestam as aquisições - enquanto a Pedagogia tradicional os estigmatizava como sendo um efeito de ignorância ou de desatenção. Com boa vontade (praticar e prestar atenção), os erros poderiam e deveriam ser evitados. Eis que os professores descobrem que os erros podem ser indicadores do progresso do estudante. As descobertas de Emilia Ferrero mostraram isso de modo espetacular no momento de chegada à escrita. Assim, os cadernos testemunham os avanços dos alunos e os professores não devem mais ter vergonha dos erros da turma, mas considerá-los normais.

Além disso, a chegada de aparelhos de reprodução (como mimeógrafos e fotocopiadoras) tornou rapidamente inúteis as atividades antigas de cópia: por que reproduzir manualmente um texto se o professor pode distribuir para cada aluno um impresso? Em alguns anos, a figura dos cadernos mudou. Eles ficaram inchados com o as fotocópias coladas página após página. Os exercícios em que o aluno deve simplesmente preencher as lacunas, completar as informações, se multiplicaram. Como a abundância de tarefas fez com que os cadernos se tornassem bem mais grossos do que antes, eles se multiplicaram: um para Matemática, outro para Ciências...

Vê-se, portanto, que em dois séculos o caderno foi sucessivamente um livro de memória (antes dos anos 1850 e 60), uma vitrine do trabalho escolar (de 1880 aos anos 1960 e 70) e, por fim, o espelho das aprendizagens em curso (a partir dos anos 1970).

Sugestões aos professores sobre o uso do caderno

Que sugestões dar aos professores que se perguntam sobre o uso do caderno na aula hoje?

A primeira coisa a ser destacada é que o caderno tem inúmeras funções. Assim, mesmo que ele não seja objeto de aprendizado, os alunos aprendem muito cedo a identificar os ensinamentos ligados à escrita e aqueles que não deixam traço nos cadernos: o esporte, a música e outras atividades escolares que eles adoram. Os estudantes descobrem muito rapidamente que seu valor escolar é frágil, mesmo que o prazer dado por eles seja forte. Do mesmo jeito, eles aprendem que certas atividades se repetem todos os dias e são controladas pelo professor, enquanto outras são quinzenais ou raras, podem acabar ou não em escritos e são ou não avaliadas. A hierarquia em termos de importância de disciplinas ensinadas (do ponto de vista escolar) é, portanto, em relação à sua frequência, a seus escritos, à sua avaliação.

A segunda coisa a sublinhar é que, graças ao caderno, as crianças têm a primeira experiência de uma produção de longo prazo. Elas não são completamente autoras, mas em grande parte escribas. De um ponto de vista simbólico, o trabalho cotidiano de escrita é gratificante se ele reforça o sentimento de competência e de êxito. É um sofrimento sem fim se ele revela à criança a imagem brutal de sua impotência e de sua incompetência. É por isso que se pode passar muito rápido sobre a questão da apresentação. Ela não tem mais importância para os "bons alunos", já que, atrás de suas escritas rápidas e feias, os professores são capazes de ver o exercício bem-sucedido. Mas e os outros? Com um caderno amassado, rabiscado, qual o aluno tem vontade de se dedicar? Fazer um esforço de concentração? É por isso que tantos professores recorrem às vantagens do computador ligado a uma impressora para permitir que os estudantes produzam textos corretos (quer dizer, revisados com a ajuda do corretor), que merecem ser impressos. O problema surge porque os alunos são muitas vezes mais lentos ao digitar do que quando escrevem à mão. Ao esperar que a digitação faça parte das aprendizagens comuns e que os cadernos sejam substituídos por telas, alguns professores redescobriram o interesse em conservar - ao lado dos "cadernos de aprendizagem", em que o aluno responde às consignas do exercício - o equivalente escolar do "portfólio", um "belo caderno", em que cada um possa estocar amostras de seus saberes manuscritos e digitais. Essas produções datadas e assinadas (letras decoradas, um pequeno texto escrito sem nenhum erro, uma poesia ilustrada, um desenho científico perfeitamente realizado, uma série de operações, uma mensagem pessoal bem articulada) só são inseridas no "belo caderno" se o professor e o aluno estiverem de acordo sobre a excelência de sua qualidade: nada de pressa.

Em uma época em que a publicidade, os jornais e os textos corporativos são tão ciosos de sua apresentação e da diagramação, seria paradoxal que a escola ficasse indiferente a essa dimensão da escritura, o que seria tão contraprodutivo quanto esse aprendizado. É fácil democratizar, como testemunham os cadernos do passado. Todas as crianças que se aplicarem podem fazer rapidamente grandes progressos, mesmo que elas por outro lado passem por dificuldades conceituais duradouras. Ora, constatar por si mesmo que se é capaz de fazer muito bem evita a autodepreciação, o aluno restabelece a autoestima em relação a suas capacidades e enche de gratidão os pais no que diz respeito ao professor. Essa é a condição necessária (mas não suficiente) a todos os aprendizados.

O terceiro e último ponto: os professores devem estar conscientes de que, pelo caderno de seus alunos, finalmente torna-se fácil avaliar-se. Avaliar suas escolhas pedagógicas: eles seguem um manual ou não; instalam rotinas tranquilizadoras ou, ao contrário, não param de variar a forma dos exercícios; fazem escrever muito ou pouco; os traços escritos são em geral acabados ou incompletos; a progressão das atividades é clara ou não: as atividades são datadas ou não. Também é possível adivinhar muito de sua personalidade por meio de suas escolhas textuais e de seu jeito de corrigir os cadernos, encorajar ou estigmatizar as crianças ao se dirigir aos pais.

Só podemos, então, encorajá-los a olhar com um pouco mais de atenção os cadernos de seus alunos.

Bibliografia

- Chartier, Anne-Marie (2002). Um dispositivo sem autor: cadernos e fichários na escola primária. Revista Brasileira da História da Educação. Nº 3. P. 9-26.

- Chartier, Anne-Marie (2007). Cadernos escolares: organizar os saberes escrevendo-os. Revista de Educação Pública. Universidade Federal de Mato Grosso. V. 16. Nº 32. www.ie.ufmt.br/revista.

- Chartier, Anne-Marie (2007). Práticas de leitura e escrita, História e atualidade. Belo Horizonte: UFMG-Ceale. Autêntica.

- Santos, A. A. C. (2008). Construindo modos de conversar com crianças sobre sua produções escolares. Em Marilene Proença Rebello de Souza (org.). Ouvindo crianças na escola: abordagens qualitativas e desafios metodológicos para a psicologia. São Paulo: Casa do Psicólogo.

- Mignot, A. C. V. (org.) (2008) Cadernos à vista: escola, memória e cultura escrita. Rio de Janeiro: Ed. Uerj.

- Santos, A. A. C. (2007). Uma proposta de olhar para os cadernos escolares. Em Beatriz de Paula Souza (org.). Orientação à queixa escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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