Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Educação Física em xeque

Esporte é valorizado em estudo nacional, mas pesquisadores sugerem aulas mais diversificadas

POR:
Elisângela Fernandes

Divulgada recentemente, a pesquisa Educação Física nas Escolas Públicas Brasileiras reacendeu o debate sobre o currículo dessa disciplina. O estudo traz um panorama sobre as condições para a realização de esportes e atividades físicas. No entanto, deixa de lado a prática e a reflexão sobre outras manifestações da cultura corporal, como a dança e as brincadeiras.

Uma das principais conclusões do estudo diz respeito à falta de infraestrutura das escolas pesquisadas: 30% delas não têm espaço destinado às aulas de Educação Física. O levantamento foi feito pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), em parceria com o Instituto Ayrton Senna (IAS), a ONG Atletas pela Cidadania e o Instituto Votorantim, todos em São Paulo. Entre novembro e dezembro de 2011, foram entrevistados por telefone professores da área e gestores de 450 instituições de Ensino Fundamental e Médio das cinco regiões brasileiras, das zonas urbana e rural.

Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do Instituto Paulo Montenegro, área social do Ibope, destaca a falta de materiais, em especial o fato de 13% das escolas não terem uma bola de futebol. "Esse é um dos itens mais óbvios para a prática de esporte no Brasil e também é um objeto de baixo custo", analisa (veja no quadro da página seguinte o levantamento sobre outros recursos que os professores dizem possuir na escola).

Raí Souza Vieira de Oliveira, ex-jogador e presidente da Atletas pela Cidadania, conta que a proposta da ONG, agora, é promover uma reunião com a presidente, Dilma Rousseff, e criar um comitê envolvendo vários ministérios (Esportes, Educação, Saúde e outros). Os resultados da pesquisa também serão apresentados a prefeitos das cidades que sediarão a Olimpíada e a Copa do Mundo. Com isso, o grupo espera convencer os gestores públicos de que o esporte na escola pode contribuir para a formação do caráter das crianças e melhorar sua autoestima.

O levantamento também mostrou que 94% dos docentes de Educação Física têm Ensino Superior, sendo que 83% possuem formação específica na área e 44% especialização. Mas Marcos Garcia Neira, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que nem sempre a trajetória universitária garante qualificação para a docência. Ele também lembra que pesquisas recentes detectaram cursos de licenciatura em que o ensino de Educação Física não é devidamente abordado.

Um exemplo é o estudo Desvelando Frankensteins: Interpretações dos Currículos de Licenciatura em Educação Física, de 2009, que focou instituições públicas e privadas na região metropolitana de São Paulo. De acordo com a análise, os cursos de formação inicial contribuem com as representações distorcidas sobre o trabalho docente nessa disciplina e costumam valorizar apenas as modalidades tradicionais.

Competição versus cultura corporal

A pesquisa realizada pelo Ibope se restringiu a analisar o fomento às práticas esportivas nas escolas. Mas há outra linha de pensamento e de prática nessa área, que a considera como um espaço para as produções humanas que envolvem o movimento.

Essa discussão não é nova. A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1961, já considerava a Educação Física uma atividade prática, voltada para o desempenho técnico e físico do aluno. Após mostrar-se infrutífero, esse modelo começou a ser questionado durante a década de 1980 e as aulas da disciplina passaram a valorizar a perspectiva da cultura corporal.

Diante desse contexto, o professor Neira reforça que reduzir o ensino da Educação Física ao esporte é um retrocesso. "A sala de aula, o pátio e a biblioteca podem ser tão necessários quanto a quadra e o campo", afirma. Segundo ele, uma análise semelhante à do Ibope, feita com base nesse viés mais abrangente, poderia investigar outros materiais e instalações que devem ser utilizados.

Fabio Luiz D'Angelo, coordenador pedagógico do Instituto Esporte & Educação, em São Paulo, concorda com a diversificação dos espaços. Mas ele pondera que isso não exclui o direito de o aluno estudar em um local que tenha quadra. Segundo o Censo Escolar de 2010, apenas 32% das escolas de Ensino Fundamental possuem esse recurso no país.

"A falta de legitimidade e a dificuldade em justificar a presença da Educação Física é um velho e conhecido problema", lamenta D'Angelo. Todos os times concordam, portanto, que há muito a ser feito para que essa área vença as barreiras e seja reconhecida por si só como uma disciplina importante.

Times diferentes 
Duas visões sobre a prática da disciplina mostram a diferença entre as abordagens das aulas

"A Educação Física deve proporcionar a aproximação, a experimentação, a análise crítica e a valorização das formas de produção e expressão corporal presentes na sociedade."
 
Marcos Garcia Neira, professor da USP.

"O esporte é uma vertente da Educação Física e uma das ferramentas principais da aula. Contribui com a disciplina, com a criação de valores, com a socialização dos alunos e com o desempenho deles em outras áreas." 
Daniela Castro, diretora-executiva da ONG Atletas pela Cidadania.

Prática padronizada 
Alguns itens que a escola possui, segundo o professor de Educação Física (em %)

Tags

Guias

Tags

Guias