Rodrigo Ratier Jornalista e professor da Faculdade Cásper Líbero. Fundou um curso de redação gratuito e deu aulas no Ensino Médio público e particular. Antes de Nova Escola, trabalhou em revistas como Galileu, Mundo Estranho e Superinteressante. É doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Torce para o Santos. Pontualmente às 17h30, larga tudo para buscar a Luiza na escola (e, em breve, também a Clara).

Tempo de qualidade é só tempo

Opinião: atividades significativas com as crianças não precisam ser divertidas

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Rodrigo Ratier
Crédito: Pixabay

O conceito é conhecido na Psicologia. “Tempo de qualidade” é um período em que dedicamos exclusivamente nossa atenção a alguém, com o objetivo é estreitar a relação com essa pessoa. Me parece uma noção interessante, mas que tem sido desvirtuada quando se trata do contato com os filhos. Navegue na internet em busca de sugestões para “tempo de qualidade” com os pequenos e encontre as seguintes atividades: artesanato, piquenique, cabana na sala, imitação, sombras e por aí vai.

Fiquei na dúvida. Estamos falando de pais ou de animadores de circo? Me incomoda essa associação entre qualidade e diversão. Um sinônimo que me parece falso.

Pensei bastante nisso durante o fim de semana. Estive na casa dos meus sobrinhos. Bernardo tem quatro anos e Tomás, um e meio. O menorzinho é um menino adorável e muito energético. Sua rotina é um grande circuito de crossfit. Corre, sobe escadas, chuta bola, abre porta – e sai correndo de novo, sobe escada, chuta bola, abre porta.

Naturalmente, depois de algumas horas ele está exausto. Aconteceu lá pelo meio dia no sábado. Esgotado, começou a chorar e se debater – e aí entrou naquela espécie de piloto automático em que que o choro realimenta a agressividade e assim por diante.

Coloquei-o no carrinho. Ele resistiu. Deitei-o, pus a mão com força em seu peito. Disse: “Calma. Calma. Calma”. Ele foi parando de chorar. Pus o carrinho em movimento. Em dois minutos, ele estava dormindo.

Nada mais trivial. Foi nessa simplicidade – e não numa rotina com atividades mirabolantes, ditas “divertidas” – se deu o momento de maior conexão, até agora, entre mim e o pequeno. Por alguns instantes, ele confiou em mim. E relaxou.

Penso também na Luiza e nossos momentos cotidianos. Quando volto com ela da escola a pé. Quando ela está no banheiro e me pede para contar uma historinha. Quando jantamos eu, ela e a Marina. Quando ela pede “me nana”. São as horas mais prosaicas e também as mais profundas. É quando nos olhamos nos olhos, fazemos carinho, conversamos e até brigamos.

As relações afetivas crescem com tempo e dedicação. Isso independe de sua natureza. A vida é suficientemente rica para nos trazer qualidade em suas atividades diárias. Refeições. Trocas de roupa. Banho. Caminhadas. Supermercado. E até o médico.

Pensando bem, tempo de qualidade, no fundo, é só tempo.

*As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

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