Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

A professora Marcia Friggi tomou um soco. E nós, o que aprendemos?

Conheça os fatos por trás da violência em Santa Catarina e reflita conosco sobre como acabar com as agressões

POR:
Larissa Darc
Foto postada pela professora Marcia Friggi mostrando seu rosto logo após a agressão sofrida (Marcia Friggi / Facebook)

Essa história se conta sem preâmbulos, sem introdução. Vai direto para a descrição dos fatos, como se Marcia Friggi, 51 anos, tivesse fechado os olhos, respirado fundo e falado de uma vez tudo o que tinha para falar.

"Estou dilacerada. Aconteceu assim: Ele estava com o livro sobre as pernas e eu pedi:

– Coloque seu livro sobre a mesa, por favor.
– Eu coloco o livro onde eu bem quiser.
– As coisas não são assim.
– Ahhh, vai se foder.
– Retire-se por favor.

Ele se levantou para sair, mas no caminho jogou o livro na minha cabeça. Não me feriu, mas poderia. Na direção eu contei o que tinha acontecido. Ele retrucou, dizendo que menti, e eu tentei dizer:

– Como, menti? A sala toda viu... Não deu tempo para mais nada.

Ele, um menino forte, de 15 anos, começou a me agredir. Foi muito rápido, não tive tempo ou possibilidade de defesa. O último soco me jogou na parede. Estou dilacerada por ter sido agredida fisicamente. Estou dilacerada por saber que não sou a única, talvez não seja a última. Estou dilacerada por já ter sofrido agressão verbal, por ver meus colegas sofrerem. Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros.

Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou. A vida... Lembrei dos professores do Paraná que foram massacrados pela polícia, não teve como não lembrar. Estou dilacerada pelos meus bons alunos, que são muitos e não merecem nossa ausência. Estou dilacerada, mas eu me recupero e vou dedicar a minha vida para que NENHUM PROFESSOR BRASILEIRO passe por isso NUNCA MAIS".

Este é o relato de como a professora de Língua Portuguesa do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) de Indaial, Santa Catarina, foi agredida por um aluno de 15 anos. Ao lado do texto, postado em seu perfil no Facebook e reproduzido ao final desta página, fotos de seu rosto com sangue saindo de um corte profundo no supercílio e o olho direito roxo e inchado.

As imagens fortes ficam como mais um retrato do quão expostos os docentes estão em sala de aula. Um ambiente que, muitas vezes, se torna tóxico, violento, antônimo de qualquer palavra que deveria descrever um ambiente educativo – e que, infelizmente, ainda é comum.

A situação da professora da EJA ficou ainda pior quando ela virou alvo de ataques coletivos pela internet. Há algumas semanas, ela fez posts em redes sociais contra o deputado Jair Bolsonaro. Isso foi o bastante para que alguns dos seguidores do parlamentar chegarem, sem nenhuma empatia, dizendo que ela plantou o que colheu. A violência física se somou à violência verbal, numa situação em que a vítima quase virou culpada pela própria agressão, numa inversão gigantesca de valores.

Em um momento como esse, em que docentes se sentem extremamente vulneráveis, é preciso entender não apenas o que foi a agressão sofrida por Márcia, mas também analisar o cenário de violência nas salas de aula do Brasil. Precisamos ir a fundo no problema para resolvê-lo.

Detalhe do olho da professora Marcia Friggi após a agressão (Marcia Friggi / Facebook)

1) Não é um caso isolado

O caso de Marcia é comum e incomum ao mesmo tempo.

Comum porque a violência contra professores se tornou rotina. Uma pesquisa realizada em 2014 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com 34 países colocou o Brasil como líder de agressões a professores. Neste estudo, 12% dos educadores disseram sofrer violência verbal ou intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. A média do levantamento foi de 3,4%, quase um quarto da brasileira.

O questionário da Prova Brasil de 2015 revelou números ainda mais graves. Pela pesquisa, 55% dos diretores afirmaram ter presenciado agressões verbais ou físicas de alunos contra professores ou funcionários da escola. Cerca de 22,6 mil docentes foram ameaçados por estudantes e 4,7 mil sofreram atentados à vida nas escolas.

O incomum é a forma da agressão, um soco, e a ausência de histórico – eles nunca tinham se visto antes. A força e a surpresa tornam a violência ainda mais devastadora para a autoestima da professora.

2) O Brasil é violento

Entender a violência contra os professores passa por entender todo o contexto de violência da sociedade brasileira. Ainda no questionário da Prova Brasil de 2015, foi apontado que 71% dos docentes presenciaram agressões verbais ou físicas entre os estudantes.

A história do aluno que agrediu Marcia Friggi mostra como o comportamento agressivo veio de um ambiente ruim fora da escola. A mãe do adolescente, que trabalha como diarista, afirma que ele sofreu agressões de seu pai alcoólatra quando criança. Ela conta que o filho tomava medicamento para o controle da raiva, mas abandonou o tratamento. O jovem também possui um histórico de envolvimento com drogas e evasão escolar.

LEIA MAIS: Diretor pode negociar com traficante? E chamar a polícia?

Antes fosse um caso isolado dentro de uma sociedade pacífica. Muito pelo contrário. Um levantamento realizado em 2016 pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal revelou que, das 50 cidades com mais homicídios a cada 100 mil habitantes no mundo, 19 eram brasileiras. A lista passa por municípios de todas as regiões (de Natal a Curitiba, de Vitória a Goiânia, passando por Belém e Manaus) e não poupou nem cidades do interior (como Feira de Santana-BA e Campos dos Goytacazes-RJ).

Essa realidade fatalmente chega às escolas. Reportagem de Gestão Escolar mostrou uma escola de Manaus cuja diretora, Daniele Almeida dos Santos, tem uma pilha de 60 boletins de ocorrência em sua mesa. A maioria dos casos são roubos a material da unidade, de computador a comida e material de construção. "Segunda-feira eu já chego aflita. Às vezes, é uma coisa simples, como alguém que invadiu a quadra. Mas, em outras, pode ser que todo nosso equipamento, material de limpeza ou merenda tenham sido levados", relata Daniele.

Caso de polícia: em Manaus, roubos e invasões são constantes, como mostram os 60 boletins de ocorrência acumulados pela diretora Daniele Almeida dos Santos (Laís Semis / NOVA ESCOLA)

Para evitar que um problema social contamine a comunidade escolar, o ideal é fechar a escola o máximo possível para evitar invasores, certo? Errado. "O que a gente tem de exemplos mais positivos em segurança são as escolas que se abrem para a comunidade. Não são as que se fecham, que colocam grades e vigilância", afirma Caren Ruotti, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, para a Gestão Escolar.

3) EJA não é lugar de adolescente

O episódio de Marcia trouxe à tona a questão dos alunos da EJA. No Censo Escolar de 2014, foi constatado que 30% dos alunos da Educação de Jovens e Adultos têm entre 15 e 19 anos no Brasil. Uma situação que já causava preocupação há seis anos. Afinal, esses estudantes estão em idade escolar e não deveriam ir para uma área que, tradicionalmente, remedia a evasão de pessoas muito mais velhas.

Era o caso do garoto de Indaial. Ele tinha 15 anos e um histórico de problemas escolares, de reprovações a agressões. Por isso, foi transferido para a EJA – justamente onde ele não deveria estar. "Essa atitude cria um tumulto em escolas que já têm muitos adultos. Quando nós mudamos um adolescente de lugar, em vez de trabalhar com ele, abrimos espaço para situações como essa", afirma Adriana Ramos, do Grupo de estudos e Pesquisa em Educação Moral da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Na EJA, há dois problemas principais para os adolescentes.

Primeiro, de relacionamento – eles não falam a mesma língua dos mais velhos. Isso cria ou reforça a sensação de isolamento escolar. Segundo, reforça a ideia de que eles são um caso sem remédio. Afinal, a EJA é construída para amenizar os efeitos da evasão escolar de pessoas que o Brasil deixou para trás. Em tese, se destina a pessoas com mais de 30, 40 anos. Ao entrar numa sala de aula assim, o estudante já se sente sem saída. Nenhum destes motivos justifica a agressão à professora, mas ajuda a entender a explosão repentina. Um estudante com raiva encontrou um ambiente propício para materializar esse ódio.

Felipe Bandoni, professor de Ciências na EJA do Colégio Santa Cruz, reforça: "Cresce cada vez mais o número de jovens na Educação de Jovens e Adultos. Isso expõe os professores a situações com as quais ele não estava acostumado. Além disso, essas pessoas são as mais vulneráveis e sujeitas a se envolver em casos de violência". Ele reforça a necessidade de uma atenção especial a essas relações. "Precisamos ter uma posição coesa dos professores e da direção. Violência não é aceitável. O papel da escola é atuar de forma para que isso não aconteça."

No mundo ideal, nenhum adolescente deveria ser educado na EJA. Mas, se isso acontece, precisamos tornar essa convivência melhor.

4) Violência se discute

Conversas francas, estímulo à empatia, mediação de conflitos e um trabalho em conjunto com a família são algumas das ações apontadas para reduzir as incidências de episódios extremos como o ocorrido com Marcia Friggi. Em junho de 2015, uma reportagem de NOVA ESCOLA apontou maneiras de lidar com a violência, a partir de exemplos bem sucedidos.

"Não se combate a violência somente dentro da escola porque ela está em todos os lugares, mas a Educação pode ajudar. Quando trabalhamos competências socioemocionais desde a Educação Infantil, por exemplo, as crianças aprendem a ter controle sobre as suas emoções, aprendem a ter autoestima", afirma Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil.

Isso não significa que as autoridades devam sempre ficar de fora. Mas elas são recomendadas para os casos que se enquadrem no Código Penal, como posse de armas, ameaças e invasões. É o caso do aluno que bateu na professora. Marcia registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia e o caso está sendo investigado. O garoto prestou seu depoimento nesta quinta e se disse arrependido, admitindo que perdeu a cabeça.

Portões arrombados de escola em Manaus que já foi invadida e teve material roubado dezenas de vezes (Laís Semis / NOVA ESCOLA)

5) Existe vida pós-violência

Agressões são indefensáveis, mas o professor precisa continuar trabalhando e o aluno não pode abandonar os estudos. Por isso, é preciso haver um trabalho de recuperação do docente e de reinserção do estudante no ambiente escolar. "O professor precisa se sentir apoiado. Não dá para pensar em seguir em frente sem um apoio técnico", aponta Maura Barbosa, consultora pedagógica de Gestão Escolar. “Além disso, tanto o coordenador quanto o diretor precisam oferecer ajuda. A escola precisa discutir formas de buscar soluções", completa.

Para o psicanalista Rossandro Klinjey, consultor em gestão e Educação e autor do livro “As 5 Faces do Perdão”, o principal seria estabelecer um compromisso com o estudante para resolver o problema. “A impunidade pode criar uma sensação de que isso pode se repetir. Mas não é questão de prender ou usar a violência para responsabilizar. Ele precisa de ajuda para compreender o peso de suas ações."

Devido ao histórico pessoal e escolar do jovem, o Ministério Público deve solicitar a internação em um Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório, uma vez que ele já cumpriu medidas alternativas no passado.

É difícil falar de futuro depois de um presente tão devastador. Mas, se não fizermos nada agora, este presente violento tende a se transformar num futuro sem esperanças. Seria ótimo se o aluno violento de hoje se transformasse num professor exemplar amanhã. Isso mostraria que, sim, existe vida pós-violência – e que nós, na escola e fora dela, soubemos como resolver esse problema.

E você? O que acha?

Tags

Guias