Quando é certo usar o gerúndio? Analise com questões comentadas

Houve um tempo em que era muito frequente. Depois, se tornou quase proibido. Descubra quando é permitido estar falando gerúndio e teste seus conhecimentos

POR:
Arlete Bannwart Vieira
Dois bonecos de brinquedo, um masculino e um feminino, simulam um escritório de telemarketing, falando ao telefone enquanto usam o computador
Os telefonistas já trabalham muito para ajudar os clientes, e ainda carregam o estereótipo de falar no “gerundismo”. Mas há momentos em que essa forma é adequada e inadequada. Crédito: Flickr

Os verbos, na nossa língua, apresentam uma divisão entre tempos, modos e formas nominais, as quais são divididas em:

Particípio - faz parte dos tempos compostos, como “tenho falado”, “foi entregue”, “havia imprimido”

Infinitivo - forma pela qual nomeamos os verbos, como “fazer”, “falar”, “sorrir”

Gerúndio - indica, normalmente um processo verbal, uma ação em andamento ou incompleta, muitas vezes reforçando a ideia de processo longo. Mais raramente, tem a função de adjetivo. Veja os exemplos:

Use água fervendo para dissolver o mingau.

Vimos alguns animais pastando ao longo da rodovia.

Estou lendo o livro que você me indicou.

(A atividade de ler o livro está em andamento, ainda não o terminei.)

As crianças correndo, as mães conversando no jardim. Esse era o quadro, no parque, naquele domingo de verão.

Estamos estudando o processo a fim de chegarmos a uma sentença criteriosa.

Em algumas situações, o gerúndio também pode ter um valor de advérbio em frases que indicam circunstância de modo:

O atleta cruzou chorando a linha de chegada, pois essa seria sua primeira vitória.

Por fim, também é possível usar o primeiro verbo no gerúndio de uma forma verbal composta. Nesses casos, a forma terá o valor de pretérito (passado), indicando que o processo já foi concluído no momento em que se fala ou se escreve:

Tendo já feito muitas pesquisas, resolvi escrever minha tese sobre “Usos e costumes na cidade de São Paulo”.

Todas as circunstâncias indicadas até aqui mostram situações em que o gerúndio é necessário, e portanto, correto. Porém, há um chamado “gerundismo”, o uso excessivo dessa forma, em geral para indicar ações futuras, que pode ser evitado.

Há uma tendência, na nossa língua coloquial, de se exprimir uma ideia de futuro por meio de três verbos, representada pela seguinte estrutura:

Verbo flexionado na pessoa do discurso + verbo estar + gerúndio do verbo principal.

Vamos aplicar a estrutura em um exemplo:

A gerência vai (verbo flexionado na pessoa do discurso) estar (estar no infinitivo) combinando (gerúndio do verbo principal) o valor a ser transferido para sua conta bancária.

Toda essa construção, além de ser condenada pela norma padrão da língua, pode ser trocada pela simples conjugação do verbo principal no futuro:

A gerência combinará o valor a ser transferido para sua conta bancária.

Usar o gerúndio para se referir ao futuro é questionável, no entanto há situações em que pode ser aplicado, como para fazer referência a uma ação futura simultânea a outra, também no futuro:

Enquanto você estiver estudando para o vestibular, vou estar viajando pela Europa.

Entenda a conjugação dos verbos irregulares

Veja outras dicas sobre a Língua Portuguesa na página S.O.S. Português

Questões comentadas

1) (Enem – 2002)

“Narizinho correu os olhos pela assistência. Não podia haver nada mais curioso. Besourinhos de fraque e flores na lapela conversavam com baratinhas de mantilha e miosótis nos cabelos. Abelhas douradas, verdes e azuis falavam mal das vespas de cintura fina  – achando que era exagero usar coletes tão apertados. Sardinhas aos centos criticavam os cuidados excessivos que as borboletas de toucados e de gaze tinham com o pó das suas asas. Mamangavas de ferrões amarrados para não morderem. E canários cantando, e beija-flores beijando as flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo.”
(LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho)

No último período do trecho, há uma série de verbos no gerúndio, que servem para caracterizar o ambiente descrito. Expressões como “camaronando”, “caranguejando” e “pequeninando e não mordendo” criam, principalmente, efeitos de:

a) esvaziamento de sentido
b) monotonia do ambiente
c) estaticidade dos animais
d) interrupção dos movimentos
e) dinamicidade do cenário

Resposta: alternativa E

Os verbos no gerúndio dão ideia de continuidade, ou seja, de ações que acontecem no momento em que delas se fala. No texto de Lobato, o gerúndio (vale lembrar que a desinência -ndo foi aplicada a neologismos) contribui para a ideia de movimento, de dinamicidade do cenário.

2) Sobre o gerundismo, é correto afirmar, exceto:

a) Por subverter a regra de uso das formas nominais do verbo, é considerado, por alguns estudiosos, como um vício de linguagem.
b) O gerundismo acontece quando verbos no gerúndio, aliados a locuções verbais, são empregados para reforçar a ideia de progressividade no futuro.
c) O gerundismo é caracterizado pelo uso excessivo do gerúndio e não pode ser considerado como um desvio de linguagem.
d) O gerundismo é uma mania que peca pelo excesso, pela inadequação do verbo, que ocorre ao transformarmos, desnecessariamente, um verbo conjugado em um gerúndio.

Resposta: Alternativa C

O gerundismo é caracterizado pelo uso sistemático do gerúndio, isto é, fora de seu contexto (quando ele deixa de indicar uma ação contínua para indicar ações futuras).

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