Professor deve se tornar facilitador do aprendizado, diz criador de método inovador

Para Jonathan Bergmann, a sala de aula invertida permite um tratamento mais individual de cada aluno

POR:
Pedro Annunciato
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Menos exposição de conteúdo, mais atendimento um a um e ajuda na resolução de problemas que os alunos apresentam. Jonathan Bergmann, professor de Química na Universidade do Colorado (EUA), defende que essa seria a melhor forma de engajar os estudantes e aproveitar o tempo em classe. Foi essa a base da sala de aula invertida, método criado por ele e seu colega Aaron Sams em 2007, quando ambos lecionavam Ciências em uma escola de Ensino Médio.

O norte-americano propõe que a apresentação de conteúdo ocorra em casa, com os alunos recebendo vídeos, textos, áudios ou games que abordam a matéria da próxima aula. Em sala, eles precisam realizar atividades em cima do que aprenderam, e os professores fazem a orientação em cima de cada dúvida ou dificuldade apresentada pelos estudantes. “O foco não é mais a entrega de conteúdo ou a disseminação do conhecimento, mas fazer do professor um facilitador da aprendizagem”, comentou em entrevista a NOVA ESCOLA.

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Bergmann é o principal convidado da primeira edição do FlipCon Brasil, congresso internacional sobre sala de aula invertida (“Flipped Classroom” em inglês). O evento será realizado pela GEN Educação e pelo Universia Brasil em 31 de agosto, em São Paulo.

Existe alguma relação entre a sala de aula invertida e os pensadores clássicos da Educação, como Jean Piaget e Lev Vygotsky?
Tanto o Piaget quanto o Vygotsky apoiaram o modelo construtivista, e a sala de aula invertida é sobre criar um espaço de aprendizagem mais ativo durante o período de aula. Além disso, Vygotsky adicionou o componente de um mentor em seu modelo. Uma vez que a sala de aula invertida dá muito mais tempo para o aluno estar frente a frente com os professores, ela enfatiza o papel do mentor.

Como a proposta da sala de aula invertida rompe com a lógica do ensino transmissivo?
Ainda há ensino transmissivo na sala de aula invertida. A diferença é que o lugar onde a transmissão ocorre não é com o professor durante o espaço em grupo, o período de aula. Isso acontece no espaço individual, no qual o aluno tem controle do ritmo de aprendizado. Isso altera drasticamente o espaço em grupo. O tempo de aula se transforma em um rico momento de aprendizagem, exploração, prática e engajamento.

Qual a relação entre o modelo e a aprendizagem baseada em problemas?
O ponto principal da sala de aula invertida 3.0 é que ela é a metaestratégia que suporta todos os outros modelos de ensino. Inverter a sala de aula forneceu a inúmeros professores e escolas mais tempo para utilizar a aprendizagem baseada em problemas.

Como incentivar que os alunos tenham uma postura investigativa?
É muito importante que os estudantes “comprem” a proposta da sala de aula invertida. Esta é uma das principais características do nosso programa de Certificação da Sala de Aula Invertida. Muitos estudantes se acostumaram a um estilo de aprendizagem mais passivo. Para muitos, a sala de aula invertida gera muito trabalho, pois eles precisam desempenhar um papel mais ativo na aprendizagem. Embora difícil para esses alunos, é a melhor coisa para eles.

Em um mundo atual, você acredita que o professor esteja perdendo seu protagonismo no ensino?
Os professores são ainda mais importantes em uma classe com sala de aula invertida, pois ela muda a dinâmica da sala de aula. O foco não é mais a entrega de conteúdo ou a disseminação do conhecimento, mas fazer do professor um facilitador da aprendizagem, trabalhando com alunos em pequenos grupos e tendo mais interações um a um. Os alunos recebem exatamente o que precisam, quando precisam.

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Em seu livro, publicado em 2012, você traz resultados que mostram uma melhoria no rendimento dos alunos, mas ressalva que não eram estudos de rigor científico. De lá para cá, quanto a pesquisa sobre sala invertida avançou?
Desde que escrevi esse livro, 100 artigos científicos foram escritos sobre o tema. Os resultados mostram que a sala de aula invertida é uma estratégia poderosa que ajuda os estudantes.

Aqui no Brasil, muitos professores reclamam que não têm tempo para preparar as aulas. A sala invertida não demandaria mais tempo extraclasse ainda?
Sim, a sala de aula invertida demanda mais tempo. Eu encorajaria o Ministério da Educação, os líderes das escolas e os diretores dos colégios a criar esse tempo. Se eles querem realmente mudar suas escolas, adotar a sala de aula invertida será o melhor uso do tempo.

Como avaliar uma aula realizada em sala invertida?
A sala de aula invertida muda o sistema de avaliação. Há uns anos, conversei com Greg Green, diretor da primeira escola totalmente invertida do mundo, a Clintondale High School [localizada em Clinton, Estados Unidos]. Ele me disse que 80% do tempo de aula eram centrados no professor e 20% no aluno. Depois que a escola tinha invertido a sala de aula, os números viraram. Agora, apenas 20% do tempo de aula é centrado no professor e 80% é centrado no aluno. À medida que uma escola expande o aprendizado, é imperativo que os sistemas de avaliação sejam redesenhados. O avaliador tem de assistir o mesmo vídeo que os alunos viram, verificar se as atividades de classe correspondiam à lição, como são as interações entre professor e alunos e entre alunos em sala e saber que, nesse modelo, as aulas são mais barulhentas e agitadas.