Professores, por favor, parem de dizer que todo japonês é inteligente

OPINIÃO: Este não é um elogio tão inocente quanto parece

POR:
Ubiratan Leal
Ilustração: Junsung Back / Pixabay

“Ele só tira nota alta. Japonês é tudo inteligente.” Qualquer pessoa já deve ter dito, ouvido ou pensado isso. É uma generalização, um preconceito, mas que não sofre não muita resistência por se tratar de algo tido como um elogio. Não é bem assim, e a disseminação dessa ideia acaba se desdobrando em outras que não têm nada de abonadoras.

O conceito de "preconceito positivo" merecia um debate por si só. Preconceito é preconceito, é criar o retrato de uma pessoa baseada em evidências superficiais. Nem todos os orientais são inteligentes. Alguns têm desempenho escolar ruim, e o fato de eles terem uma origem diferente não pode ser usado como pressão extra. Mas a questão aqui é mais profunda que isso.

Ao chamar de "japonês" qualquer pessoa de origem oriental, mesmo que seja chinesa, coreana, taiwanesa, tailandesa ou vietnamita, ignora-se a identidade cultural, social, física e linguística entre esses povos. Mesmo dentro desses países, há diferenças regionais e étnicas marcantes. Tratar todos como uma coisa só é ofensivo por insinuar que "pessoas de olhos puxados" são todas iguais.

Não é difícil entender por que isso é ruim. É o mesmo incômodo de quando um europeu ou norte-americano não sabe diferenciar um brasileiro de um mexicano, argentino ou colombiano, ao desconsiderar as diferenças entre os povos latino-americanos. Mas, no caso dos orientais, é potencialmente pior devido a rixas históricas entre alguns desses povos, com casos de opressão e racismo entre eles.

O problema, porém, não mora apenas na generalização dos orientais como japoneses. Está também no "inteligente". Quando se diz "japonês é inteligente", não se está dizendo que ele realmente seja. O significado quase sempre é "japonês é CDF". O tipo de inteligência que se atribui aos orientais é bem específico: racionalidade e disciplina para aprender o conteúdo dado e tirar uma boa nota. E é só.

Espera-se que um "japonês" siga essa cartilha e seja o nerd travado e tímido do grupo. Raramente se vê um oriental como alguém com inteligência emocional, com potencial artístico, com aptidão atlética, com carisma e com vocação para liderança. Para crescer em áreas que exijam essas habilidades, ele tem de provar constantemente que não se encaixa no estereótipo de "racional, disciplinado e estudioso". Um obstáculo que muitas vezes impacta ao longo não só do desenvolvimento escolar das crianças, mas em toda sua vida.

Crédito: Divulgação

A novela "Sol Nascente" é um exemplo. A trama tinha personagens nipo-brasileiros, mas a Globo escolheu Luís Melo e Giovanna Antonelli (que claramente não têm avós em Okinawa ou Taiwan) para interpretá-los. A emissora não tem ator oriental de peso em seu elenco e talvez não tenha achado que contratar algum seria válido. Talvez achassem que ninguém seria cativado por uma novela em que o personagem principal, a mocinha e o galã têm "olhos puxados".

Hollywood comete o mesmo erro. No filme "Ghost in the Shell", Scarlett Johansson (norte-americana de origem dinamarquesa) foi selecionada para interpretar Motoku Kusanagi, a protagonista japonesa da história baseada em um clássico mangá.

Da mesma forma, "japonês" é sempre o ingênuo, o alvo fácil de piadas ou malandragens em geral. Aí, vem alguém com o sempre presente "abre o olho, japonês!", como se o formato dos olhos representasse uma capacidade reduzida de ver ou perceber o que está ao redor. Ou apenas que a genética condene os orientais a serem eternamente trouxas.

Nesse processo de desconstrução da individualidade dos orientais, ignora-se o quanto eles já sofreram de perseguição no ocidente. Desde chineses tratados como mão de obra barata e descartável para eventualmente morrer na construção de ferrovias nos Estados Unidos do século 19 (mas quantos deles aparecem em filmes do Velho Oeste? Pois é...) a imigrantes japoneses e nipo-americanos que foram enviados a campos de concentração norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial.

Isso também ocorreu no Brasil. Muitos filhos, netos ou bisnetos de japoneses não falam japonês, e muitas vezes ouvem brincadeiras de estarem "renegando a raça". Não é algo que ofenda gravemente, mas isso ocorre porque o governo de Getúlio Vargas proibiu comunidades de imigrantes de falarem a língua de seu país de origem e decretou o fechamento de escolas de origem japonesa, impedindo que o idioma fosse passado para as gerações nascidas aqui. Isso ocorreu antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, momento em que a perseguição aos japoneses se tornou ainda maior. Para piorar, os nipônicos que aceitassem esse contato maior com a cultura brasileira corriam o risco de sofrerem ataques do Shindo Renmei, um grupo terrorista que atuava no interior de São Paulo e defendia a lealdade ao Japão.

As relações melhoraram, claro. O racismo com orientais não chega perto do que atinge negros e indígenas. Muitas vezes, a forma como os "japas" são "trabalhadores, inteligentes e estudiosos" é até usada como forma de atacar outros grupos étnicos. Mas isso não significa que o tratamento seja igual.

Os "japoneses" ainda são tratados como se fossem uma única pessoa, talvez clones do primeiro imigrante a chegar ao Brasil, talvez saídos da mesma fôrma em alguma fábrica em Singapura ou na Malásia. Não à toa, quando um oriental apresenta sua/seu namorado/a, alguém dirá "nossa, vocês parecem irmãos". A intenção é boa, dizer que o casal combina. Mas, no fundo, está apenas dizendo que "japas" são todos iguais.

Isso ocorre tanto para alguém que chegou ao Brasil há um mês quanto ao bisneto de imigrantes que só fala português, tem família miscigenada e cultiva costumes muito mais brasileiros do que asiáticos. Quando um nipo-brasileiro aparece com um sobrenome europeu (meu caso) ou dizendo que não gosta de sushi, é tratado como se estivesse traindo sua pátria. Como se ele não fosse brasileiro que cresceu comendo arroz e feijão, e como se um teuto-brasileiro fosse obrigado a jantar schnitzel todo dia para se legitimar como descendente de alemães.

Por isso, pense muito antes de falar "japonês é inteligente". São apenas três palavras, mas elas carregam muitos estereótipos. E não são elogiosos como parecem.

*As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

Ubiratan Leal é jornalista, editor-assistente do site de NOVA ESCOLA e neto de japoneses

Tags