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08 de Agosto de 2017 Imprimir
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Preparação X aula: o dilema do tempo

Com a experiência, construímos um repertório de atividades que podem ser readaptadas e reutilizadas.

Por: Felipe Bandoni

Todo início de ano, enquanto faço o planejamento, me lembro de uma colega com quem convivi há algum tempo. Na época, ela estreava em uma nova série e, por um ano inteiro, esteve muito sobrecarregada, sempre levando várias sacolas com livros e materiais. No final do ano, com os olhos bem cansados, desabafou: "Esse foi o ano em que mais trabalhei na vida".

Fiquei curioso, afinal ela era uma docente muito experiente. O que teria sido tão exaustivo? Ela respondeu sem titubear: bolar aulas que não fossem expositivas. Ela tinha de passar mais tempo pensando em como conseguir a participação ativa dos alunos e, por nunca ter trabalhado com turmas daquela série, precisava partir do zero. Ela até me confessou que, em muitos casos, escolheu pela exposição mais em função da falta de tempo do que por considerá-la a melhor estratégia. Talvez essa seja uma das razões que levam muitos professores a abusarem das aulas expositivas.

É trabalhoso planejar atividades que foquem no que os estudantes farão - e não só no que você vai falar. Imagine um docente que queira ensinar as diferenças entre crônica e conto sem dar uma palestra. Primeiro, ele ou ela terá de listar, para si mesmo, as características de cada gênero. Em seguida, precisará selecionar textos em que elas estejam evidentes. Depois, elaborará questões que levem a turma a perceber as diferenças. É preciso fazer uma antecipação cuidadosa do percurso a ser seguido, bolando não só as atividades mas também pensando em como os estudantes as resolverão e como elas os levarão a aprender o que queremos ensinar. De certa maneira, é como preparar um complexo jogo de caça ao tesouro.

Já ouvi colegas defendendo que não compensa gastar mais tempo com a preparação do que a duração da aula em si. Esse argumento deriva da ideia de que o trabalho do professor é remunerado apenas pelos momentos em que está com os estudantes. Mas quando se espera que os alunos leiam, interpretem, investiguem, resolvam, avaliem... planejar para que tudo isso aconteça é quase sempre uma tarefa mais longa que 50 minutos, um tempo que deveria ser mais reconhecido.

Não tenho dúvidas de que vale a pena investir na preparação. É desses trabalhos que os estudantes se lembram melhor. O esforço prévio também é recompensado quando as aulas caminham sozinhas: com os alunos concentrados nas tarefas, exige-se menos da memória e até da voz do professor. Além disso, à medida que ganhamos experiência, construimos um repertório de atividades que podem ser readaptadas e reutilizadas.

É justamente no momento do planejamento, aliás, que checo meus registros do ano anterior em busca de planos de aula que poderei replicar. Minha colega que inspirou este texto, por exemplo, trabalhou com mais tranquilidade no ano seguinte. Ela pôde usar o tempo liberado - veja só - para transformar aulas expositivas malsucedidas em outras abordagens!

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