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Jéssica, o retrato de um país que está aprendendo a incluir

A jovem com Síndrome de Down foi recusada em várias escolas e nunca conseguiu concluir a Educação Básica. Mesmo assim, tornou-se chef de cozinha

por:
CM
Caroline Monteiro
Quiche é uma das delícias do cardápio da chef Jéssica Pereira, de 26 anos. (Foto: Caroline Monteiro)

Em um bairro residencial do centro de São Paulo, o Cambuci, uma porta discreta e uma mini lousa dão as boas vindas aos clientes: “Hoje tem fatia de bolo de milho”. Preparado por Jéssica Pereira, de 25 anos, uma das donas do estabelecimento, o quitute é tão gostoso quanto o clima familiar dentro do Bellatucci Café, inaugurado em 15 de julho deste ano.

Todos os detalhes foram pensados cuidadosamente ao longo de seis meses. Cadeiras azuis, mesas brancas e paredes cor-de-rosa fazem os clientes se sentirem em uma casinha de boneca. No cardápio, os destaques são a panqueca com massa de café e o nhoque de mandioquinha, que Jéssica mostrou no programa "É de Casa", da Rede Globo.

Cafés como esse, bem decorados e com menu de qualidade, não faltam na cidade, mas há um detalhe no Bellatucci que o torna peculiar. A proprietária tem Síndrome de Down e está realizando um sonho duplo: ser chef e empreendedora.

O negócio não é só fachada. A jovem é, de fato, uma das sócias, em parceria com a irmã, Priscila Della Bella, e o cunhado, Douglas Batetucci. É ela quem dá a última palavra sobre as decisões e é responsável pela cozinha.

O Bellatucci Café também abre as portas para outros jovens com Síndrome de Down, como Cibele Andaluz, que já fez curso de barista no Senac e hoje cuida da máquina de café do espaço. "Queremos que as pessoas venham visitar, mas não pode estar cheio todos os dias, aquela coisa frenética, se não vamos perder a nossa essência, que é manter o negócio no ritmo deles", diz Ivânia Della Bella, mãe de JéssicaA gastronomia é um dom, aprimorado com ajuda de Ivânia e das aulas com os renomados Henrique Fogaça, Claude Troisgros, Guga Rocha e Carlos Bertolazzi, no Instituto Chefs Especiais, apenas uma das oito instituições educativas pelas quais Jéssica passou na vida, desde que nasceu.

Na tarde de 21 de julho, sexta-feira em que a família recebeu NOVA ESCOLA no café, a chef se dividia entre a entrevista e a recepção aos clientes, a louça e o preparo da comida. A menina, no entanto, deixou à mãe a tarefa de contar sua trajetória. 

Na verdade, o caminho escolar da jovem até a maturidade e o sucesso na carreira é não só um relato sobre a família Bella Pereira, mas também um exemplo das dificuldades que muitas pessoas com deficiência enfrentam no Brasil para exercer o direito de estudar.

Bellatucci CaféBellatucci CaféSímbolo do café é o número 21, em alusão ao nome científico da Síndrome de Down, Trissomia do Cromosso 21Caroline MonteiroDecoraçãoDecoraçãoPlacas foram customizadas pelo cunhado de Jéssica e sócio do café, que é designerCaroline MonteiroInclusãoInclusãoCibele Andaluz fez curso de barista no Senac e hoje prepara os cafésCaroline MonteiroChef de cozinhaChef de cozinhaJéssica prepara massa de quiche na cozinha de seu caféCaroline MonteiroClientelaClientelaJéssica e Cibele recebem clientes, os trigêmeos Ana, Dimitri e StephanieCaroline MonteiroCardápioCardápioBolo de milho feito por Jéssica é uma das atrações do BellatucciCaroline MonteiroBem-vindosBem-vindosA jovem chef de cozinha recebe os clientes no seu café no CambuciCom calmaCom calmaNo café da família Pereira, a ordem é relaxar e curtir com calma

A importância da Apae na primeira infância

A mãe, Ivânia, e o pai, Carlos Pereira, só souberam da condição genética da caçula na maternidade. Era 1991. "Descobrimos que ela tinha Síndrome de Down quando o obstetra chamou a bebê por uma daquelas expressões pejorativas. Graças a Deus, atualmente não é mais aceitável que se fale dessa forma", diz a mãe.

Desde o início, os pais levavam a menina à Apae, ONG que promove a inclusão de pessoas com deficiência, para o programa de estimulação precoce. Mais tarde, atividades de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia tinham o objetivo de desenvolver a musculatura.

A jovem tem lembranças da infância na associação. “Eu pegava panelinha, brincava de casinha”, conta, enquanto mostra fotos antigas dos momentos na Apae. “Eles ensinavam a fazer as atividades domésticas para desenvolver funções motoras da criança”, acrescenta Ivânia. "Era uma espécie de pré-escola. Até que um dia a própria Apae indicou a mim e às outras mães que procurássemos uma escola regular paralela, para que as crianças se desenvolvessem pedagogicamente".

A importância da Apae é reconhecida pelos especialistas e movimentos que lutam pelos direitos das pessoas com deficiência. Desde 2008, entidades especializadas como essa são definidas como complementares ou suplementares à Educação regular, e não substitutivas. Essa função é prevista na Política Nacional de Educação Especial, do Ministério da Educação (MEC). A ideia é que elas funcionem no contra-turno, com atendimento de saúde e capacitação profissional, mas não que façam as vezes da escola de Educação Básica.

Os nãos

Era fim dos anos 1990 quando a mãe de Jéssica ouviu pela primeira vez: “A inclusão chegou!”. Mas não foi esse o sentimento da família depois de bater à porta de várias escolas. As razões para recusar uma criança com deficiência intelectual iam da ausência de espaço e de funcionários capacitados até o medo de afastar as outras famílias. "Era um momento ainda muito crítico no Brasil para as pessoas com deficiência e suas famílias. Mas preferimos ouvir 'não' do que matricular a Jéssica em escolas que estivessem  despreparadas. Pelo menos, [as escolas] foram sinceras conosco", lembra a mãe.

Na época, a legislação já obrigava as instituições de ensino regulares a aceitar matrículas de pessoas com deficiência e criminalizava as que se negassem, mas previa a “justa causa”: ou seja, com algum argumento, as escolas poderiam dizer não. Somente em 2015, 26 anos após a primeira lei, foi feita uma alteração revogando a possibilidade de recusa. Atualmente, negar a inscrição de uma criança com deficiência e a cobrança de taxas extras são crimes com pena de multa e reclusão de dois a cinco anos.

No entanto, o primeiro "sim" trouxe pouco alívio. A resposta positiva veio da escola em que estudavam os dois filhos mais velhos da família, Priscila e Nelson. "O Colégio Maria Imaculada era bom e a diretora aceitou a Jéssica. Seria a primeira aluna com Down acolhida ali. Mas eu fiquei receosa, porque ele era muito grande e longe de casa. Além disso, a Jéssica ainda se comunicava mal, falava pouco, apenas apontava. Resolvemos procurar mais um pouco", conta a mãe.

A primeira escola regular

Foi depois de mais um "não" que uma diretora de uma escola regular indicou aos pais de Jéssica o CEB, colégio próximo à casa da família, no bairro da Saúde, zona sul de São Paulo. Lá, segundo a gestora, já estudava um aluno com deficiência e, portanto, tinham alguma experiência. Não havia, porém, nenhuma especialização em atender crianças com Síndrome de Down.

Mesmo assim, os pais resolveram matricular a filha na escola, que hoje não existe mais. Para facilitar a logística e a adaptação da caçula, a família resolveu mudar também os dois filhos mais velhos para o novo colégio. Priscila iria para a quinta série, Nelson para a terceira e Jéssica, para o Jardim de Infância.

Jéssica e os irmãos Priscila e Nelson, no CEB, primeiro colégio regular onde estudou

"Era bem gostoso para ela, que fez muitas amizades. A equipe escolar tinha um grande carinho por todos nós, mas, infelizmente, não tinha preparo técnico. Não eram profissionais especializados. O pedagógico era bem falho", conta Ivânia.

A inquietação aumentou quando veio a primeira série. A carga horária era puxada e a menina se interessava pouco. Dormia na aula ou saía da sala para ajudar a tia da cantina a vender cachorro-quente. "Por falta de informação, tirei ela de lá e, em vez de procurar outra escola, deixamos a Jéssica só na Apae até os 14 anos”, conta Ivânia.

Metade escola, metade curso

Quatro anos depois de sair do CEB, Jéssica voltou à escola. A preocupação dos pais tinha aumentado porque eles sentiam a filha muito defasada em comparação aos colegas da mesma idade. “Com 15 anos, alguns meninos com Síndrome de Down já sabem ler, mas minha filha ainda estava aprendendo a contar de um a dez”, diz a mãe.

Dessa vez, a família optou por uma escola conhecida por dar maior atenção às crianças com deficiência. “Em 2006, com a internet, já conseguíamos fazer pesquisas mais certeiras, sem precisar depender do boca a boca. Escolhemos o Colégio Paulicéia”, conta. Para ingressar, Jéssica fez uma triagem e foi indicada ao Programa de Trabalho Integrado (PTI), no qual a jovem ficaria dois dias por semana em oficinas profissionalizantes e três em aulas com currículo semelhante ao de escolas regulares.

A experiência fez com que Jéssica se desenvolvesse bastante, mas havia algumas frustrações. Primeiro, porque como a escola não oferecia ensino regular, não fornecia diploma. Segundo, porque na rotina, inclusive nas aulas do PTI, Jéssica ficava sempre com atividades simples de cozinha, como lavar alface. “Isso eu já sabia. Queria aprender mais, fazer comida”, diz ela.

Mais uma vez, Ivânia e o marido se viram obrigados a mudar a filha de escola.

A família descobriu, então, a Associação para Desenvolvimento Integral, a ADID. Depois de fazer uma avaliação, Jéssica foi colocada na quarta série, mas, logo, as atividades começaram a ficar muito puxadas. "Enquanto estavam na separação de sílabas, artigos, plural, ela gostava e acompanhava. Quando começaram os pronomes, preposições, começou a se enrolar. Deixamos a ADID e fomos procurar outros cursos”, conta Ivana.

Depois da última experiência em escola regular, Jéssica fez curso de cabeleireira, entrou no Kumon, onde estuda até hoje, e cursos no Instituto Chefs Especiais, escola de gastronomia para pessoas com Síndrome de Down. Foi dessa experiência que surgiu o sonho de abrir um café. Ela também faz aulas de luta, zumba e teatro, que a ajudaram a deixar a timidez de lado e dão incentivo para um outro sonho: “Fazer uma novela com o Mateus Solano", conta Jéssica.

Jéssica, a família e Cibele, a barista do Bellatucci Café

Um caso em milhares

Jéssica é uma das 300 mil pessoas com Síndrome de Down no Brasil, segundo dados do Movimento Down. E, na década de 1990, apesar de tudo, passou por menos dificuldades do que alguém com deficiência intelectual anos antes. “Sabemos que antigamente as famílias não levavam seus filhos para a rua, não tinham acesso à escola. O estigma era muito grande”, conta o pai, Carlos.

Ainda assim, há um longo caminho pela frente. Na avaliação de Gonzalo Lopes, advogado da Comissão de Defesa da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB, apesar da legislação, a escola ainda precisa aprender a identificar e desenvolver o potencial de cada aluno, independentemente da deficiência, o que torna casos como o de Jéssica comuns no Brasil. Para ele, os cursos profissionalizantes são importantíssimos, mas não devem ocupar o espaço que deveria ser da Educação Básica. "A formação técnica tem que ser uma opção, e não o único caminho possível”, diz Gonzalo, que também foi diretor de escola por cinco anos e é professor de geografia há 15.

Todas essas experiências em cursos profissionalizantes proporcionaram oportunidades importantes, como o estágio em uma rede de farmácias e a proposta de trabalho no salão de beleza Jacque Janine. Mas as consequências da exclusão da Educação Básica permanecem. Jéssica ainda não é plenamente alfabetizada. E, sem diploma, fica impedida de cursar a faculdade de gastronomia que tanto deseja.

Agora, a jovem quer recuperar o tempo perdido e, quem sabe, parar de guardar os sonhos que foram adiados por um país que ainda aprende a incluir.

Serviço:
Bellatucci Café – Rua Hermínio Lemos, 372 – Cambuci, São Paulo, SP
Tel: (11) 3208-1127
Seg a sex das 08h às 18h. Sábados das 09h às 14h. Aos domingos, funcionamento em datas comemorativas ou eventos especiais.
facebook.com/bellatuccicafe

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