Separar meninos e meninas é uma volta ao passado

OPINIÃO: Na escola, diferenciar o que cada sexo aprende estimula as desigualdades

POR:
Wellington Soares
A separação entre meninos e meninas não é novidade, mas a concepção de que ela é prejudicial às crianças é. Ilustração: Patrick Cassimiro e Freepik

Uma sala de aula apenas com meninos, com um professor homem. Outra apenas com meninas e uma professora. Usa-se o mesmo material nas duas, mas os meninos estão mais “preparados” para trabalhar Ciência, enquanto as meninas se “dão melhor” na leitura e na escrita. Na Educação Infantil, todos estão juntos, com uma professora mulher, porque a afetividade é algo que "só pode ser provido pelo sexo feminino".

Estamos em 2017 e parece bizarro que essas concepções, comuns no século 19, ainda circulem. Mas elas estão por aí, atendendo pelo nome de Educação Diferenciada. O movimento nasceu na década de 1960 na Europa com o nome de Single Sex Education e, no Brasil, está presente em escolas particulares do Rio de Janeiro e de Curitiba.

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A justificativa para a divisão por sexo é que meninos e meninas se desenvolvem de maneiras e em tempos diferentes. Por isso, não devem conviver em sala de aula. Separados, podem ter suas necessidades e processos de aprendizagem melhor respeitados. Assim, aprendem melhor.

Diferenças existem, mas são culturais

Parece lógico. Não há como negar que, em determinada idade, é comum que crianças de sexos diferentes tenham aptidões diferentes. E há uma boa intenção por trás: personalizar o ensino para aprender melhor, o que, de fato, é uma tendência.

O problema é que essas diferenças não têm nada de natural. São culturais. Enquanto elas são estimuladas a se comportar melhor e participar de brincadeiras que envolvem a afetividade – cuidar de bonecas como se fossem as mães, por exemplo – eles enfrentam desafios mais ligados à Matemática, como ao trabalhar com brinquedos de montar.

A pesquisadora Bettina Hannover, da Universidade Livre de Berlim, explica que meninas costumam ter mais desenvolvidas habilidades relacionadas ao autocontrole, enquanto meninos lidam com raciocínios lógicos com mais desenvoltura. Mesmo nas escolas “mistas” a diferenciação dos sexos é comum: na Educação Infantil, são recorrentes os casos em que as meninas se dedicam aos jogos simbólicos – o canto da cozinha, o canto do faz-de-conta, a brincadeira com bonecas – enquanto meninos passem a maior do tempo em jogos de estratégia, montagem de blocos e desenho. Nos anos finais do Fundamental, quem nunca participou de aulas de Educação Física separadas para meninos e meninas? As diferenciações existentes entre homens e mulheres adultos passam pela sala de aula.

Em vez de separar, estimular a integração
Hannover demonstra que a segregação acarreta algumas diferenças no desempenho escolar. Meninos se saem melhor em Matemática, por exemplo. Mas as distinções são sutis. Já as perdas por separar meninos e meninas são significativas. Mudar esse cenário requer que tornemos a convivência entre os sexos cada vez mais harmônica. Não só devemos permitir, mas também estimular que meninos e meninas transitem entre as diversas atividades. Não há por que não deixar que um menino desenvolva sua afetividade e que as meninas desenvolvam seu raciocínio lógico. A convivência, junto com propostas intencionais dos professores são as únicas maneiras de fazer com que as diferenças que vão se criando culturalmente retrocedam.

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Quando uma menina brinca de carrinho, quando meninos aprendem a tomar conta de bonecas, quando os limites entre o que um ou outro deveriam saber ou aprender são desfeitos, a desigualdade diminui. A convivência é fundamental até para que meninos aprendam a lidar com as diferenciações biológicas – como a maior força física ou o respeito necessário ao corpo do outro, tema importante a partir da puberdade.

A ideia de que o respeito à individualidade passa pela separação em grupos é ruim e estimula o aumento das desigualdades. O compartilhamento de espaços, por outro lado, estimula o desenvolvimento conjunto, a cooperação e o respeito. A transformação passa pela convivência e não pela segregação.

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