Os professores precisam de uma língua comum

OPINIÃO: A força de uma profissão também se mede pelo vocabulário que ela tem

POR:
Leandro Beguoci
Os professores japoneses têm palavras precisas para descrever cada ação que executam, o que dá a eles uma enorme vantagem na hora de trocar experiências. (Foto: Wikimedia Commons)

Professor, como se chama o ato de passar entre os alunos enquanto eles fazem um trabalho em grupo? E como se chama o momento em que você pede ao aluno que explique um conceito ao outro? Pode parecer, mas não é uma pegadinha. É só uma constatação. Infelizmente, não temos um vocabulário preciso e disseminado para a prática dos educadores, para a vida concreta na sala de aula. E isso, com o perdão da hipérbole, é uma tragédia monumental. A ausência de palavras cria uma barreira para que professores eduquem outros professores sobre o ato de ensinar.

Tinha essa sensação faz algum tempo. A primeira vez que senti esse incômodo faz uns três anos. Tentei explicar a alguns amigos, que nunca lecionaram, sobre as atividades que eu fazia em sala de aula. Enquanto falava, percebi que não tinha conceitos fechados para explicar meu trabalho. Isso era muito diferente da minha carreira de formação, o jornalismo.

Quando eu digo a um repórter “por favor, arrume o lead”, ele entende que precisa ajustar o primeiro parágrafo de um texto. Quando peço a um designer que libere a retranca, significa “por favor, me entregue a página pronta para eu aplicar o texto nela”. Isso se aplica a outras carreiras – é o jargão profissional. Médicos, advogados, engenheiros. Várias profissões compartilham palavras muito precisas sobre as suas atividades. Isso facilita muito na prática – e na educação para a prática.

No começo deste ano, vi que o problema era generalizado - e não era exclusivo ao Brasil. Estava de férias, lendo o livro “Formando mais que um professor”, da jornalista americana Elizabeth Green. Em um dos capítulos, ela conta a surpresa que um grupo de educadores dos EUA teve quando foi ao Japão. Eles perceberam que, nas formações, os japoneses tinham palavras muito precisas para descrever cada uma das atividades que faziam em sala de aula. Isso ajuda tremendamente na formação prática. Quando um mentor diz a um iniciante que ele precisa aprimorar X, o novato entende que deveria fazer X melhor. Ele não entende Y. Esses professores voltaram do Japão obcecados com a ideia de criar um vocabulário para a educação americana – e estão, aos poucos, conseguindo.

Organizar o conhecimento sobre a prática, com um vocabulário específico para a realidade escolar, é fundamental para melhorar a nossa educação, valorizar a profissão e melhorar o clima escolar. Duvida? Observe, como se fosse uma pessoa alheia à escola, a sua rotina.  

Em muitas instituições, a comunicação entre professores é terrível. Ao descrever uma boa aula, um professor, muitas vezes, só consegue dizer “os alunos prestaram atenção e fizeram os exercícios”. Ele não consegue explicar as atividades que fez para chegar a esse resultado. Resultado? Ou o colega ouvinte fica desinteressado porque não aprende nada com aquilo ou fica chateado porque parece vaidade do outro docente. O conhecimento que poderia ajudar não é compartilhado.

SAIBA MAIS: Passo a passo da tematização da prática

Isso não é culpa do educador, claro. É simplesmente falta de conhecimento sistematizado sobre a prática. Talvez isso explique por que a vida dos coordenadores pedagógicos, os guardiões da qualidade educacional, ainda seja tão difícil.  Muitas vezes, se gasta mais tempo nos momentos de formação estabelecendo um terreno comum do que, de fato, aprendendo a ensinar melhor. Isso quando a formação não descamba para guerras de conceitos acadêmicos ou para algo tão genérico que nunca desperta o interesse genuíno de ninguém – no máximo, dá sono.

Com isso, conhecimento importantíssimo é perdido. Quando uma excelente professora alfabetizadora se aposenta, o que ela sabe vai embora da escola junto. Sem um processo claro, a bagagem dos nossos professores não é descoberto e reinventado por outros educadores. Perdem os alunos, que não aprendem, perdem os educadores, que poderiam ensinar de forma muito mais efetiva. Imagina o quão incrível seria ter conceitos claros para engajar uma sala indisciplinada? Ou para dialogar com os pais? Claro que não existe receita de bolo e que cada caso será um caso. Mas não é muito melhor ter um ponto de partida do que ficar reinventando a roda toda hora?

O vazio de conhecimento organizado sobre a prática é um dos motivos pelos quais os professores se sentem tão sozinhos ou perdidos, especialmente os novatos. Sem uma base, todo dia vira uma aventura (ou pesadelo) no escuro. Chegou a hora de mudar isso. Concorda? Tem algum exemplo? Me conte aí nos comentários. Quem sabe um dos nossos leitores, uma das nossas leitoras, já tenha o caminho das pedras...