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Editor de NOVA ESCOLA, doutor em Educação pela USP e professor de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

Rodrigo Ratier
25 de Julho de 2017 Imprimir
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Professor não é culpado por faltar demais

OPINIÃO: É mais fácil responsabilizar o professor do que discutir as causas reais do excesso de faltas nas redes públicas

Por: Rodrigo Ratier

Cada professor da rede pública do estado de São Paulo falta em média 30 dias por ano, informa a completa reportagem de Paulo Saldaña na Folha de São Paulo. A reação automática vem expressa na fala de um comentarista: “3 meses de férias, 1 mês de atestado, 3 meses de greve. Para compensar o ‘esforço’, aposentadoria aos 25 anos [de serviço]”.

É mais fácil culpar o professor.

Mais fácil do que lembrar o básico: ninguém falta porque quer. Há fraudes, claro. Mas o absenteísmo causa transtornos pessoais – ir ao médico em busca de um atestado, levá-lo à escola ou à secretaria – e profissionais – a obrigação de tirar o atraso do conteúdo em outras aulas, a reconstrução do contrato didático com os alunos e a retomada de confiança dos colegas que partilham projetos interdisciplinares. Falta não é férias.

Mais fácil que discutir os baixos salários. O rendimento médio dos professores é metade dos profissionais com a mesma escolaridade. E as faltas justificadas e abonos, que respondem por um terços das ausências, foram estratégias adotadas por sucessivos governos para evitar dar aumentos salariais. Não são privilégios. São, no máximo, compensações tortas.

Mais fácil que falar das jornadas extenuantes. Dos professores-táxi que precisam dar aula em duas, três – sete escolas diferentes, como mostra a reportagem de NOVA ESCOLA. Mesmo o crítico mais desinformado deve imaginar que um educador não faz isso por turismo. É absoluta necessidade.

Mais fácil do que refletir sobre as jornadas duplas e triplas em casa. Atividades como planejamento de aula e correção de provas que, segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), chegam a engolir 14 horas por semana além do tempo na escola. Isso para não mencionar um detalhezinho, assim, sem importância: educadores e educadoras também têm família. E tarefas domésticas.  

Mais fácil do que discutir as salas lotadas. Na Educação Infantil, isso exige um esforço físico dos docentes que precisam se ocupar dos pequenos – levantando, abaixando e carregando peso o dia inteiro. No Fundamental 2 e no Ensino Médio, isso exige paciência e didática apurada para lidar com o desinteresse e a indisciplina. Mesmo quando dá certo, leva tempo. E consome a saúde psicológica.

Mais fácil do que debater os efeitos das avaliações externas no ambiente escolar. Ideb, questões da Prova Brasil, avaliações municipais e estaduais são relevantes, claro. O ponto é que eles cobram um preço que anda invisível: estresse e competitividade entre os docentes.

Mais fácil do que apontar os problemas de infraestrutura. Como dar aulas quando faltam livros? Como engajar os alunos quando falta merenda? Como conter a evasão quando há violência no entorno? Como garantir a segurança – própria, dos colegas e dos alunos – quando se trafica drogas no pátio da escola?

Mais fácil do que investigar as verdadeiras epidemias psíquicas que motivam os afastamentos docentes. Depressão, burnout, síndrome do pânico. Sem contar os problemas físicos típicos da carreira: perda de voz, dores nas costas, sinusite alérgica pelo pó de giz. Não é coincidência que essas enfermidades afetem tanto os professores, desproporcionalmente em relação a outras carreiras.

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A questão das faltas é grave, mas não pode ser vista isoladamente. Ela é um sintoma, e dos mais visíveis, a evidenciar as fragilidades da carreira docente no Brasil. Poderíamos enfrentar essas questões estruturais, que são difíceis. Deveríamos. Mas ficamos com a opção mais fácil. A que ataca o elo fraco – e que não resolve o problema.

É mais fácil culpar o professor.

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