Apresentado por
Diversa

Todos juntos, sem exceção

Para que um colega cadeirante participasse das aulas de Educação Física, todos colaboraram

POR:

O QUE É?

Relato de experiência sobre oficinas de confecção de brinquedos e prática de brincadeiras inclusivas realizadas com estudantes de 6o. Ano, sendo um deles com paralisia cerebral. Conteúdo originalmente publicado no portal Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes

, organização sem fins lucrativos que tem a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum.

QUEM FEZ?

Ana Cláudia Barros Barbosa, Cláudia Rejane Branco e Johnyson Weyne da Silva, educadores da EM Vicentina Campos Lopes Marinho, em Fortaleza

PODE TE INSPIRAR PORQUE...

A iniciativa mobilizou a turma para incluir o colega com deficiência física, fazendo com que ele participasse ativamente das aulas de Educação Física.

ETAPA

Ensino Fundamental.  

ANO

CONTEÚDOS

inclusão, Educação Física

Professores apostam em confecção de brinquedos para incluir aluno cadeirante

Marcelo, de 15 anos, possui paralisia cerebral e se locomove com uma cadeira de rodas. Segundo seus professores na Escola Municipal Vicentina Campos Lopes Marinho, em Fortaleza (CE), o jovem era um estudante esforçado e tinha uma boa relação com colegas e funcionários. Sua participação nas aulas de educação física, contudo, se restringia aos momentos teóricos. Isso porque a unidade não dispunha de uma quadra de esportes. Como alternativa, os alunos utilizavam locais da comunidade, como um campo e uma praça. O primeiro espaço, contudo, possuía um terreno irregular e o segundo era muito distante. Devido a essas barreiras, o garoto não conseguia participar das atividades. Diante dessa situação, resolvemos aplicar um projeto de educação física inclusiva que envolvesse a confecção de brinquedos.

Antes de definir as estratégias, tivemos uma conversa com a turmo de 6º ano que o adolescente frequentava para apresentar a proposta e pedir opiniões. Explicamos que nosso objetivo era incluir Marcelo e que precisaríamos do apoio de todos. Os alunos ficaram empolgados e destacaram que seria muito bom ver o colega participando também das aulas práticas.

Para superar a barreira de acesso aos locais, definimos algumas medidas. Caso as atividades fossem realizadas no campo próximo, a turma também se responsabilizaria por conduzir o colega. Para as aulas na praça, que é mais distante, o professor de educação física se comprometeu a levá-lo de carro. O pátio interno da unidade, onde há uma rampa de acesso, seria usado para outras atividades.

Criando os brinquedos

A execução das atividades foi dividida em três momentos: sensibilização, oficinas de confecção de brinquedos e prática de brincadeiras inclusivas. Na primeira etapa, apresentamos a animação “Cuerdas”, que conta a história de uma garotinha e seu amigo com paralisia cerebral e, após a exibição do curta-metragem, fizemos uma roda de conversa. Os alunos associaram a deficiência da criança do vídeo com a de Marcelo e destacaram que juntos poderiam pensar em atividades para sua inclusão. O garoto disse que gostaria muito de participar.

Um grupo de quatro pessoas está de mãos dadas. Uma delas, o professor, passa um bambolê com a cabeça para o aluno em uma cadeira de rodas ao seu lado.
Estudantes participam de brincadeira do bambolê cooperativo.


Em seguida, eles sugeriram recursos e jogos para serem usados, tomando como base práticas de aulas anteriores que eles gostariam de compartilhar com o colega cadeirante. Por fim, decidimos confeccionar brinquedos e realizar atividades lúdicas como bandeirinha, cabra-cega, bambolê cooperativo, vôlei com lençol e mãos que ajudam.

As oficinas aconteceram nas duas aulas seguintes. Na primeira, confeccionamos vai e vens e na segunda, pipas. Os estudantes trouxeram garrafas e palitos. A escola e as demais docentes colaboraram com fitas coloridas, cordas, sacos e papéis de seda. A turma foi dividida em duplas e todos foram orientados a se ajudar no manuseio dos materiais. Para montar seu vai e vem, Marcelo segurou as garrafas enquanto seu colega colou as fitas e o cordão. Na oficina de pipas, ele passou a cola e com a ajuda do amigo colou os palitos. Ao final, todos puderam utilizar os brinquedos criados.

Na etapa posterior, reservamos três aulas para a prática das atividades lúdicas escolhidas pela turma. As brincadeiras com cordas, lençol e bolas, por exigirem mais espaço, foram realizadas no campo próximo à escola. Um de nossos alunos com deficiência intelectual um balanço em uma árvore para que todos pudessem brincar. Logo depois, fizemos diversos exercícios motores com cordas e bolas. Ao final, reunimos a turma em dois grupos para um jogo de vôlei com lençol. Marcelo participou de todas as brincadeiras com a ajuda de colegas e professor.

Brincadeiras inclusivas

Alunos e o professor de educação física brincam com balangandã no pátio da escola.
O projeto também envolveu a confecção de brinquedos.


Em outro dia, propusemos a atividade bandeirinha. Para ajudar na locomoção do garoto, um dos colegas ficou responsável por empurrar a cadeira de rodas. O adolescente demonstrou muita empolgação com o jogo. Na última aula prática, eles brincaram de bambolê cooperativo, cabra-cega e mãos que ajudam, na própria sala de aula.

• Bandeirinha: os estudantes foram divididos em duas equipes, cada uma ocupando metade do campo. O objetivo de cada time era atravessar a área do adversário para pegar uma bandeira fixada no fim da quadra. Se um jogador fosse capturado dentro do território da outra equipe, deveria ficar parado aonde estivesse e só poderia ser libertado por outro colega. Ganhava o time que pegava a bandeira e a levava primeiro para seu campo.

• Bambolê cooperativo: de mãos dadas, todos ficavam em círculo. O bambolê deveria passar por cada aluno sem que a roda fosse desfeita. Foi necessário repetir a atividade várias vezes até conseguirmos completar o circuito.

• Cabra-cega: metade dos estudantes foi vendada e a outra metade foi colocada a sua frente. Individualmente, os alunos que estavam sem visão deveriam identificar o colega adiante por meio do toque. Marcelo conseguiu dizer quem era seu amigo e ficou muito empolgado em alcançar o objetivo da brincadeira.

Um grupo de cerca de 20 crianças deitadas sobre colchonetes em uma sala de aula esticam os braços para cima. O professor de educação física supervisiona a atividade ao lado.
Na brincadeira “mãos que ajudam” foi possível perceber o cuidado da turma e a confiança do estudante em seus colegas.

• Mãos que ajudam: colocamos o tatame no chão e pedimos que os alunos deitassem um ao lado do outro com as mãos levantadas. Nesse momento, o garoto passou por cima do grupo, que deveria garantir que Marcelo chegasse ao outro lado da fila. Essa atividade foi bastante intensa, pois foi possível perceber o cuidado da turma e a confiança do estudante em seus colegas.

Acreditamos que as atividades serviram para despertar alunos, professores e equipe gestora da Escola Municipal Vicentina Campos Lopes Marinho. Mesmo diante da falta de uma quadra de esportes e de espaços acessíveis, conseguimos chamar a atenção da comunidade escolar para o tema da inclusão. Nossa intenção é dar continuidade ao projeto no próximo ano letivo e inseri-lo em nosso projeto político-pedagógico (PPP).

Projeto participante do Portas Abertas para a Inclusão 2015.