Apresentado por
Diversa

Entre na roda de capoeira!

Prática foi a escolhida para melhorar a autoestima dos alunos

POR:

O QUE É?

Relato de experiência de trabalho com capoeira realizado com turmas do 5o. ano. Conteúdo originalmente publicado no portal Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que tem a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum.

QUEM FEZ?

Norma Suely, Luciano Hebert Silva e Venê Filho, educadores da EM Hilberto Silva, em Fortaleza.

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O projeto promoveu maior interação entre o professor de Educação Física com os profissionais de Atendimento Educacional Especializado da escola, que passaram a trabalhar de forma mais integrada, proporcionou vivência de movimentos, com a capoeira, a alunos que antes nunca tinha praticado capoeira, e impulsionou uma convivência mais intensa e amistosa entre todos.

ETAPA

Ensino Fundamental.  

ANO

CONTEÚDOS

inclusão, cultura afro-brasileira, Educação Física

Capoeira resgata autoestima de alunos excluídos da educação física

Capoeira
Crédito: Getty Images

O recreio na Escola Municipal Hilberto Silva, em Fortaleza (CE) é a hora mais aguardada pelos estudantes. Mais do que o momento para brincar e comer, o período de intervalo entre as aulas é destinado a uma prática que funciona como ferramenta para fisgar a concentração e diminuir a correria dos alunos pelo amplo espaço da unidade. Assim que o sinal bate, com pandeiros e berimbaus em mãos, as crianças se unem e dão início a uma roda de capoeira.

Há anos, a capoeira durante o recreio tem sido uma tradição da escola, que está situada no bairro Nossa Senhora das Graças. A comunidade, conhecida popularmente como Pirambu, é formada por pessoas de média e baixa renda e enfrenta problemas ligados à criminalidade e à falta de saneamento básico. Na unidade são atendidos cerca de mil estudantes do ensino fundamental I, nos turnos matutino e vespertino, e 200 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no período noturno.

Apesar do sucesso, nossas primeiras rodas de capoeira não eram praticadas por todos. Do total de crianças, 23 apresentavam algum tipo de deficiência e recebiam atendimento educacional especializado (AEE). A maior parte delas, porém, não era incentivada a participar de atividades físicas em geral, seja nas aulas de educação física – que eram restritas a 13 de nossas 20 turmas devido à uma política da prefeitura – ou na brincadeira durante o intervalo. Muitas tinham vergonha ou sentiam que não eram capazes de fazer os movimentos.

Esse cenário começou a mudar no início de 2015, quando nossa escola foi convidada para participar do Portas Abertas para a Inclusão. No curso oferecido pelo Instituto Rodrigo Mendes, tivemos a oportunidade de realizar um projeto de educação física na perspectiva da educação inclusiva. A formação nos fez repensar nossa realidade. A partir disso, passamos a ter uma sensibilidade maior para sempre planejar atividades que pudessem ser realizadas, em conjunto, pelos estudantes com e sem deficiência. E assim, desenvolvemos um projeto de capoeira inclusiva.

Aproximação entre AEE e sala regular

Participaram da formação a professora do AEE, Norma Suely, o docente de educação física, Luciano Hebert Silva e eu, Venê Filho, coordenador pedagógico da Hilberto Silva. O grupo se reuniu algumas vezes para discutir quais eram as barreiras e os facilitadores presentes em nossa comunidade escolar. Com esse exercício, pudemos mapear os vários elementos que dificultavam ou facilitavam a construção de uma prática inclusiva e assim, dar início à implementação de nosso projeto.

Logo de início, vimos que nosso principal obstáculo era a falta de interação entre os educadores da sala comum e do atendimento educacional especializado. O professor de educação física, por exemplo, nunca havia mantido uma relação sistematizada com a docente Norma, uma vez que os horários de planejamento de ambos eram distintos. Conforme passamos a perceber durante a formação, a interação entre os profissionais das salas regular e de recursos multifuncionais é essencial.

Nossa primeira ação, então, foi agendar encontros semanais para discutir e planejar as atividades. A coordenação reestruturou o calendário escolar, permitindo que as agendas coincidissem. Com a criação de um espaço de diálogo entre esses docentes e a gestão, ampliamos o conhecimento sobre os alunos e suas especificidades.

Capoeira inclusiva

A capoeira é uma excelente ferramenta para a educação física, pois pode ser contemplada em aspectos culturais, esportivos, rítmicos, cênicos, lúdicos, entre outros. Porém, antes de iniciarmos o curso de formação, a prática não alcançava a todos. Um dos estudantes que ficava afastado era o Lucas. O aluno tem deficiência física e muita dificuldade para caminhar. Ele ficava de lado, apenas observando os colegas participarem do jogo.

Criamos, então, uma maneira de envolver essas crianças. Primeiro, introduzimos a educadora do AEE na roda, para que os estudantes que não eram público-alvo da educação especial passassem a conhecê-la. Já o professor de educação física passou a executar movimentos mais simples, para que todos que não tivessem conhecimento técnico pudessem participar. Os instrumentos começaram a ser passados de mão em mão: quem não quisesse se movimentar, poderia tocar. Aos poucos, as crianças perceberam que eram capazes de participar e iam se aproximando do círculo.

Veja como eram as rodas de capoeira inclusiva na Escola Hilberto Silva:

O vídeo está disponível com recursos de acessibilidade de Libras e audiodescrição.

O caso do Lucas foi marcante. A partir do momento em que a coordenação e os educadores passaram a ter uma visão mais humana para a diversidade, passamos a instigar e incentivar os estudantes a explorar suas potencialidades. A mudança de atitude alterou o antigo cenário e Lucas percebeu que poderia fazer as mesmas atividades que seus colegas. A melhora em sua autoestima foi visível não só durante o intervalo, mas também durante as aulas.

Resultados e continuidade da iniciativa

Uma simples alteração na metodologia dos planejamentos semanais para facilitar a interação entre os professores fez uma grande diferença nas aulas de educação física e na rotina diária da escola. Tivemos um significativo resgate na autoestima dos alunos e os comportamentos agressivos durante o recreio diminuíram.

Com o início do ano letivo seguinte, o docente Luciano deixou a escola. Porém, o projeto continuou, dessa vez pelas mãos da professora do AEE e dos próprios alunos, que agora também são responsáveis por conduzir a roda de capoeira nos intervalos. Agora, pretendemos estender a interação entre atendimento educacional especializado e demais educadores, para que outras atividades inclusivas possam ser desenvolvidas nas demais disciplinas.

Projeto participante do curso Portas Abertas para a inclusão 2015. Esta experiência faz parte da Coletânea de práticas 2015.