Apresentado por
Diversa

Parceria entre educadoras

Para incluir uma aluna com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) e de deficiência intelectual, foi preciso mudar a rotina

POR:

O QUE É?

Relato de experiência de parceria entre escola e APAE para o atendimento de alunos da Educação Infantil. Conteúdo originalmente publicado no portal Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que tem a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum.

QUEM FEZ?

Adriana Leite, Ana Monagatti, Debora Marcolino, Fátima da Silva, Maria Aparecida Almeida, Miriam Santana e Mislene da Silva, educadoras da Escola Municipal Josefa Costa de Souza Moura e da APAE, em Itaquaquecetuba (SP).

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O trabalho em parceria das educadoras da escola pública com a APAE no que diz respeito à uma aluna de quatro anos, com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) e de deficiência intelectual, fez algumas adaptações importantes na rotina da criança para que ela pudesse ser realmente incluída e estimulasse a criação de vínculos afetivos.

ETAPA

Educação Infantil.

ANO

Pré-escola.

CONTEÚDOS

inclusão, prática pedagógica

Parceria em prol de garantir o direito à educação infantil

Crianças na sala de aula
Crédito: Getty Images

A Escola Municipal Josefa Costa de Souza Moura fica localizada no bairro Piratininga em Itaquaquecetuba (SP) e oferece educação infantil para 259 crianças de 4 a 5 anos e ensino fundamental do 1º ao 5º ano para 918 estudantes. Estão matriculados na unidade 10 alunos com transtorno do espectro autista (TEA), seis com deficiência intelectual, três com deficiência física e um com deficiência auditiva, totalizando 20 estudantes público-alvo da educação especial.

Nosso município oferta o atendimento educacional especializado (AEE) de forma direta para o ensino fundamental e por meio de parceria com a APAE de Itaquaquecetuba para a educação infantil. Essa instituição conta com uma equipe multidisciplinar composta por pedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos e fisioterapeutas.

Assim, a proposta para a educação infantil em nosso município é o trabalho colaborativo, que busca envolver docentes da sala regular e do AEE, gestão da escola, equipe da APAE, famíliae estudantes na definição de objetivos, constituindo laços de confiança mútua e de corresponsabilidade pelas ações. Para isso, o coordenador pedagógico, os professores do atendimento educacional especializado e a equipe da APAE, juntamente com o professor da sala regular, elaboram um plano de trabalho. O documento é revisto sempre que necessário. Destaca-se que a contribuição dos profissionais da sala de recursos multifuncionais (SRM) ocorre de forma não sistematizada, uma vez que eles atendem somente o ensino fundamental.

Plano de trabalho inicial

No início do ano letivo, recebemos a matrícula de uma garota de quatro anos chamada Kimberly. Ela havia iniciado sua vida escolar aos três anos de idade em uma creche privada da cidade e trazia consigo o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) e de deficiência intelectual. Ao chegar à escola, a estudante iniciou o acompanhamento com a equipe multidisciplinar da APAE, que a atendia no período da manhã.

Na unidade escolar, a professora da sala, com o apoio da coordenação pedagógica e colaboração dos professores do AEE, passou a conhecê-la e observá-la. Foi um processo inicialmente conturbado, pois a criança apresentava comportamentos agressivos e estereotipados: não parava sentada, se auto agredia, machucava os colegas e se jogava no chão chorando. Isso motivou nossa primeira reunião com a equipe que atendia a estudante na instituição parceira. Elaboramos conjuntamente um plano de trabalho, envolvendo todos que poderiam apoiar esse processo. Foram estabelecidos os seguintes objetivos:

• Escola: garantir um atendimento pensado na diversidade, articulando a proposta do acompanhamento em ação colaborativa com o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola. A partir daí, acompanhar o cumprimento dos encaminhamentos definidos para sustentação do trabalho proposto e, sempre que necessário, apoiar a articulação entre os profissionais da equipe multidisciplinar da APAE e os professores, definindo conjuntamente caminhos mais assertivos.

• Professor: realizar novas práticas que favoreçam a estudante e todo o grupo da sala. Além disso, organizar estratégias para desenvolver a tolerância da aluna diante das mudanças de rotina e de situações de conflito, momentos em que apresenta comportamentos de irritabilidade e agressividade. Ampliar sua autonomia em atividades da vida diária.

Além disso, promovemos encontros com a família, no caso, com a mãe. Isso foi importante pois, até então, quem acompanhava a vida escolar de Kimberly eram sua avó e tia. A mãe se fazia presente apenas na APAE e não na escola.

Primeiras observações

A rotina da estudante era bastante puxada para uma criança de 4 anos. Três vezes por semana ela realizava o atendimento educacional especializado na instituição e depois seguia para a escola. As aulas na unidade começavam às 11h00, mesmo horário em que Kimberly saia da APAE. Por isso, ela perdia um pouco da rotina escolar nesses dias.

Chamou-nos a atenção os episódios de autoagressão. Em conversas com a equipe da instituição, levantamos a hipótese de que a garota chegava à escola com fome, o que interferia em seu comportamento. Mudamos a rotina alimentar e a autoagressão diminuiu.

Notamos, também, outras características. A estudante era carinhosa, procurava por seus amigos, gostava de brincar com pratinhos e talheres… Assim Kimberly parecia buscar possibilidades de se comunicar conosco e nós com ela.

As contribuições do DIVERSA presencial

Todo o grupo que atendia a aluna foi convidado pela equipe da Secretaria de Educação do município para participar do DIVERSA presencial. A proposta da formação se encaixou perfeitamente com nossos objetivos. Nos encontros, foram apresentadas realidades vividas por outras unidades escolares de diferentes municípios. Isso nos auxiliou a articular a teoria da educação inclusiva com as atuais políticas públicas estabelecidas, contribuindo diretamente em nosso dia a dia.

Foram apresentadas e debatidas questões sobre a importância da colaboração para que os objetivos de nosso plano de trabalho fossem alcançados. E não somente com a Kimberly, mas também com toda a rede. Quando apresentamos as estratégias desenvolvidas com a estudante, nos sentimos apoiados e mais confiantes em continuar nossa parceria. Percebemos que trilhávamos o caminho certo.

Enquanto no DIVERSA presencial nos apropriávamos de situações positivas e de novos conhecimentos, em nossa escola aplicávamos essas novas ideias de acordo com nossa realidade. Assim, a coordenadora pedagógica e a professora da sala de aula propuseram algumas intervenções para estabelecer uma rotina para a estudante. Essas estratégias foram fundamentais, pois a garota aprendeu rapidamente maneiras de se comunicar com a docente por meio de gestos.

Ainda havia o problema do horário de entrada. Kimberly só conseguia chegar à escola por volta das 12h30 nos dias em que frequentava a APAE no período da manhã. Sem transporte escolar, a estudante realizava o trajeto utilizando as linhas comuns de ônibus, o que gerava bastante cansaço. Como ela já havia estabelecido vínculos com a professora da sala de aula, transferi-la para o período da tarde estava fora de cogitação. Para atenuar esse estresse, então, a aluna passou a ser recebida na escola inicialmente pela auxiliar de sala, que cuidava de sua higiene e alimentação. Isso a acalmava e a deixava pronta para iniciar uma nova rotina na sala de aula.

Com essas ações e com a organização metodológica desenvolvida por sua professora, a estudante mostrou avanços muito positivos. O fortalecimento dos laços afetivos entre as duas favorecia muito essas evoluções. Além disso, a unidade escolar estava sempre em contato com a equipe multidisciplinar da APAE e com os professores do AEE, discutindo avanços e barreiras para melhorar o atendimento à criança. Nove meses após o início do ano letivo na escola, a questão do transporte foi solucionada, o que facilitou a locomoção da responsável com a criança.

Continuidade das ações

Para dar continuidade ao processo de escolarização da Kimberly, planejamos matriculá-la em horário inverso ao atendimento da APAE no próximo ano. A unidade escolar promoverá reunião com os responsáveis da estudante, em conjunto com a instituição, para identificar as barreiras a serem superadas e traçar objetivos. Em seguida, coordenação pedagógica, equipe multidisciplinar da APAE e professora da sala regular atualizarão o plano de trabalho da estudante, pensando em suas especificidades, considerando as ações que deram certo no ano anterior e buscando novas estratégias para um novo contexto. Há a expectativa que o trabalho colaborativo entre a professora da sala regular com os docentes do AEE da unidade continue.

A pretensão da professora da sala é permanecer com a mesma turma para dar continuidade ao trabalho e aproveitar os vínculos afetivos estabelecidos. Caso isso não seja possível, a docente está em processo de finalização do portfólio de Kimberly, o que certamente facilitará o trabalho pedagógico do professor regente da classe.

Projeto participante do DIVERSA presencial.