Apresentado por
Diversa

No embalo das danças do Maranhão

Resgate da cultura tradicional reuniu alunos com e sem deficiência

POR:

O QUE É?

Relato de experiência sobre a criação de uma companhia de danças com 50 alunos do 3o. e 4o. ano, dos quais metade tinha alguma deficiência (dentre elas, surdez e deficiências intelectual e física). Conteúdo originalmente publicado no portal Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que tem a missão de colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum.

QUEM FEZ?

Alzira Silva, Criste Pinheiro, Joseana Pinheiro, Luzinélia Remédios, Mariluce Amorim, Mário Júnior, Rodeval Filho e Rosangêla Pereira, educadores da Unidade de Educação Básica Dra. Maria Alice Coutinho, em São Luís.

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O projeto teve como foco o resgate de ritmos tradicionais da cultura maranhense reunindo alunos com e sem deficiência

ETAPA

Ensino Fundamental

ANO

3º e 4º

CONTEÚDOS

inclusão, Arte, dança, Educação Física, História, Interdisciplinaridade Língua Portuguesa, Literatura

Alunos com e sem deficiência criam companhia de danças tradicionais do Maranhão

A Unidade de Educação Básica Dra. Maria Alice Coutinho era conhecida em São Luís (MA) por sua sala bilíngue, na qual alfabetizava em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e em língua portuguesa (na modalidade escrita) boa parte dos estudantes com deficiência auditiva da cidade. Mas, apesar da referência no atendimento a essas crianças, nunca havíamos desenvolvido uma iniciativa que fosse apresentada à comunidade. Esse desafio veio com a participação da escola no curso Portas abertas para a inclusão 2015. Com os conhecimentos adquiridos na formação oferecida pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM), criamos uma companhia de danças, que envolveu meninas e meninos com e sem deficiência em atividades de resgate dos ritmos tradicionais da cultura maranhense.

Garoto em cadeira de rodas toca tambor durante roda de dança com colegas.
Bumba-meu-boi, cacuriá e tambor de crioula foram os ritmos trabalhados pela companhia de danças da escola Dra. Maria Alice Coutinho. Foto: Pat Albuquerque.

Localizada no bairro do Turu, a escola oferecia ensino fundamental e educação de jovens e adultos (EJA) para cerca de 1.400 alunos na época do projeto. O atendimento educacional especializado (AEE) e a sala bilíngue eram frequentados por 46 estudantes com diagnósticos de deficiências intelectual, auditiva, física, visual e transtorno do espectro autista (TEA). Ao planejarmos a iniciativa, tínhamos como objetivo diminuir as barreiras para a plena participação desse público nas aulas de educação física. A dança foi escolhida como meio para atingir essa meta por ser uma atividade que estimula corpo e mente, contribuindo para o desenvolvimento das potencialidades de todos.

Envolvimento da comunidade local

Dois garotos sorridentes posam para foto vestindo chapéus e roupas coloridas.
Os materiais e vestimentas foram adquiridos por meio de parcerias com o comércio local. Foto: Pat Albuquerque.

Antes de partirmos para a prática das danças tradicionais maranhenses com as crianças, realizamos uma série de ações preparatórias. A primeira delas foi agendar encontros com as famílias e os funcionários da unidade, a fim de apresentar nossa proposta e sensibilizá-los sobre a inclusão. Em seguida ocorreu o planejamento do projeto junto aos professores do ensino regular, que venceram a resistência inicial após participarem dessas reuniões. Eles selecionaram os alunos que demonstraram mais interesse em participar e, por fim, formamos um grupo de cerca de 50 meninas e meninos, dos quais metade tinha alguma deficiência (surdez e deficiências intelectual e física eram as especificidades presentes na companhia).

Para conseguir o vestuário e os materiais necessários para concretizar o projeto foi necessário estabelecer parcerias para o financiamento. Para isso, os próprios estudantes percorreram o comércio local e convenceram um shopping e uma rede de supermercados a patrocinar a iniciativa. Um concurso foi realizado para dar nome ao grupo. E após recebermos sugestões de alunos, familiares, docentes e funcionários, por votação, nasceu a “Companhia de danças no ritmo da inclusão”.

Interdisciplinaridade e flexibilizações

Dois garotos com roupas coloridas tocam um tambor.
Os estudantes surdos aprenderam os ritmos por meio da vibração dos instrumentos. Foto: Pat Albuquerque.


A valorização da cultura popular maranhense aconteceu de modo interdisciplinar. Além da educação física, planejamos atividades nas áreas de arte, história e língua portuguesa, envolvendo também as demais crianças das turmas de 3º e 4º ano. Nessas aulas, elas pesquisaram sobre a história e cultura e os diferentes professores contribuíram com seus conhecimentos sobre os ritmos regionais. Uma visita à Casa do Maranhão, um museu de história do estado, encantou os alunos e os enriqueceu ainda mais com referências sobre danças como o bumba-meu-boi, o cacuriá e o tambor de crioula.

Metade da companhia era composta por estudantes com deficiência auditiva, que aprenderam os ritmos sentindo a vibração sonora dos instrumentos e observando os colegas. Visando melhorar a comunicação entre todas as crianças foi realizada uma pesquisa do nome das danças em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Como muitos ritmos não possuem um sinal específico, foi preciso inventá-los, em conjunto. Para isso, todos assistiram a vídeos de performances, observaram os movimentos e criaram os gestos. Nessa etapa do projeto foi fundamental a participação do intérprete de Libras da escola.

Já os alunos com deficiência, que a princípio julgaram não serem capazes de dançar, receberam estímulos para aumentar sua autonomia e aqueles com deficiência física aprenderam a forma mais correta de fazer alongamento.

Veja como foram realizadas as danças tradicionais maranhenses na UEB Dra. Maria Alice Coutinho:

O vídeo está disponível com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição.

Apresentação das danças e resultados do projeto

Por fim, a companhia de danças realizou uma apresentação dos ritmos estudados para toda comunidade escolar. Diante de funcionários, professores e familiares, muitos estudantes tiveram receio de não conseguir, mas logo que vestiram o figurino, ganharam confiança. Todos se divertiram juntos.

Dois garotos com roupas coloridas dançam. Um deles usa uma cadeira de rodas e o outro o empurra.
Ao final do projeto, a “Companhia de danças no ritmo da inclusão” se apresentou para toda comunidade escolar. Foto: Pat Albuquerque.

Ao longo do processo enfrentamos algumas barreiras. Muitos familiares tinham pouco conhecimento sobre as deficiências de seus filhos e não acreditavam que eles seriam capazes. Outros, por questões religiosas, questionaram nossa proposta de estudar o tambor de crioula, dança tombada pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A gestão escolarequacionou essas situações por meio de conversas particulares com as famílias.

Os impactos positivos da iniciativa não demoraram a serem observados em toda a escola. João Vitor, aluno com paralisia cerebral, transtorno do espectro autista (TEA) e baixa visão, ficou mais ativo e independente nas aulas. Seu envolvimento com o projeto foi tamanho que ele passou a fazer um curso de Libras para poder conversar melhor com seus amigos surdos. Outros estudantes ouvintes também demonstraram esse interesse. Já Larissa, garota com deficiência intelectual, venceu sua timidez e parou de evitar trabalhos em grupo em outras disciplinas.

Para beneficiar outros alunos, com e sem deficiência, a Companhia de danças no ritmo da inclusão da UEB Dra. Maria Alice Coutinho continuará ativa nos próximos anos.

Projeto participante do curso Portas abertas para a inclusão 2015. Esta experiência faz parte da Coletânea de práticas 2015.