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Educador Nota 10
19 de Julho de 2017 Imprimir
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Por que tantos estudantes de Pedagogia estão sofrendo para pagar a faculdade

Ensino Superior tem inadimplência 50% maior que a média da economia nacional

Ilustração: Carla Almeida

Fátima Cristina Polli decidiu se tornar professora em 2005. Na época, ela trabalhava como vendedora em um shopping de São Paulo, de onde tirava o dinheiro para pagar a mensalidade da faculdade de Pedagogia. Mas o cenário rapidamente mudou. Demitida logo no início do curso, ela teve de recorrer ao irmão para continuar estudando durante seis meses. Conseguiu um estágio remunerado, mas os boletos continuavam pesando no orçamento. Desistir da licenciatura era uma possibilidade real.

A solução veio só após uma conversa com a diretora da faculdade, que apresentou uma proposta de acordo. "Ela que disse para eu ficar devendo até a rematrícula, quando poderia negociar a dívida. Fiquei preocupadíssima”, conta Fátima, que conseguiu parcelar o valor ao longo dos semestres, deixando uma parte para ser paga após a formatura, quando começou a exercer a carreira docente.

Casos como esse estão se tornando cada vez mais frequentes. Uma pesquisa realizada pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp) revelou uma elevação na inadimplência em faculdades particulares pelo segundo ano consecutivo. Em 2016, 9% dos pagamentos estavam em atraso por mais de 90 dias, sendo que a média para todos os setores da economia são de 6%. Os números são ainda mais alarmantes se considerarmos que atualmente existem mais de 5,8 milhões de universitários matriculados em instituições particulares, movimentando quase 6 bilhões de reais por ano. 

Um dos motivos desse aumento da inadimplência é o momento econômico do Brasil. O Produto Interno Bruto recuou 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. Apenas no primeiro trimestre de 2017 que os números voltaram a crescer, subindo 1%. A queda dos últimos anos – a economia está nos patamares do início da década – teve impacto na taxa de desemprego, em programas sociais e, principalmente, na renda da população. "A crise econômica não só gerou perda de renda, como também perda de emprego na família ou do próprio aluno que é responsável pelo pagamento da mensalidade e, junto com isso, a crise muito forte do financiamento estudantil", afirma Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp em entrevista para a TV Câmara.  

O aumento no preço dos cursos também tem dificultado a permanência de que começou os estudos. Na década passada, os valores médios despencaram em média 27,5% pelo aumento de faculdades e, por consequência, crescimento da concorrência. Desde 2010, as mensalidades voltaram a subir em decorrência da popularização do crédito estudantil, alcançando um aumento de 7,5% em 2012 – contra uma inflação de 5,8% no mesmo ano – de acordo com uma análise realizada pela Hoper Educação, empresa de consultoria para instituições de ensino. Por exemplo, a Faculdade Sumaré, que possui 11 unidades e é uma das principais formadoras de professores da rede pública da Grande São Paulo, já teve como valor inicial R$ 94,22 para o curso de Pedagogia em 2010. Hoje, no plano com maior desconto, o primeiro ano de curso está em R$ 215. Em 7 anos o preço mais do que dobrou e este não é um caso isolado.

Ilustração: Carla Almeida

As regras do Fies

Para controlar o crescimento das mensalidades, o Ministério da Educação tem deixado de fora do fundo de financiamento as faculdades que reajustaram os valores acima da inflação.

Por um lado, programas como ProUni, Fies e Sisu têm facilitado o ingresso de jovens nos cursos superiores. Segundo o Ministério da Educação, o Brasil tinha 2,4 milhões de concluintes entre 1995 e 2002 e passou a ter 9,2 milhões entre 2003 e 2014. Desse total, 8,2% são alunos de Pedagogia, curso que alcança o terceiro maior número de matrículas, perdendo apenas para Direito e Administração.

No entanto, as alterações no Fies, responsável por 22% das matriculas em faculdades particulares no país, dificultaram ainda mais a relação entre os estudantes e as universidades. Além da diminuição da oferta de vagas e as alterações nos de critérios de seleção, com exigência de pontuação mínima no Enem e renda comprovada, os juros subiram de 3,4% para 6,5% em 2016 inviabilizando ainda mais a aquisição do financiamento, uma vez que ele é pago ainda durante o período da graduação. 

As regras podem mudar novamente em 2018. O programa deverá oferecer três tipos diferentes de contrato. O primeiro é para quem tem a renda familiar de até 3 salários mínimos, que estará isento de juros. O segundo será voltado para estudantes com renda de até 5 salários mínimos que more nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com a taxa de juros fixada em 3%. No terceiro modelo, voltado para famílias com a renda de até 5 salários mínimos, ainda não há taxa de juros definida. Isso deverá restringir ainda mais o público atingido pelo programa.

Outro ponto polêmico da reforma é a implantação o desconto automático das parcelas na folha de pagamento dos usuários assim que estiverem formados. O governo afirma que esse valor não deverá passar de 10% da renda mensal.

Mesmo com tantos obstáculos, é válido entrar em contato com a diretoria da faculdade para propor possíveis negociações. Phelipe Alvarez, diretor comercial e de marketing da Intervalor, empresa especializada em crédito no setor educacional, aponta alternativas para quem está passando por uma situação como essa. "É do interesse da instituição de ensino que o aluno continue o curso. Então ele deve buscar um meio de quitar a dívida expondo a sua dificuldade para negociar descontos e formas alternativas de pagamento. Se o estudante não consegue honrar o acordo estabelecido, pode ser que a forma de pagamento não esteja adequada para a dificuldade atual dele", explica.

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