A cultura digital já chegou à escola

Celular, computador e internet chamam a atenção dos docentes, mas ainda falta formação sobre como usar as tecnologias com objetivo pedagógico

POR:
Maggi Krause

Que os smartphones conquistaram alunos e também os professores é um fato. Os números da pesquisa TIC Educação 2015, divulgada no dia 29 de setembro, comprovam: o uso a internet no celular já é rotina para 78% dos estudantes (75% da rede pública e 87% da rede privada) e para 85% dos docentes (82% da pública e 92% da rede privada) das escolas urbanas. “Esse percentual é muito superior ao da média da população brasileira, mas não quer dizer que esse equipamento esteja sendo utilizado com objetivos pedagógicos durante as aulas”, observou Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, ligado ao Comitê Gestor da Internet, que desenvolveu o estudo. 

Após duas décadas de políticas de incentivo à tecnologia na Educação, os obstáculos de infraestrutura ainda persistem. Aumentou a cobertura de rede nas instituições urbanas – 94% das privadas possuem wi-fi contra 84% das públicas. Só que a velocidade de conexão é muito baixa e em quase metade das escolas municipais e estaduais fica em torno de 2 Mbps (na rede particular, a média sobe para 5 Mbps).  Não bastasse isso, em grande parte das instituições, a internet sem fio é de uso restrito a gestores e docentes.

Aos poucos, porém, a nova cultura digital vai entrando nas aulas. Um dado inédito da pesquisa, que este ano chega à sexta edição, aponta que mais de um terço dos professores já usa o smartphone em atividades de ensino e aprendizagem com os alunos. A adoção é mais abrangente nas escolas privadas brasileiras (46% contra 36% nas escolas públicas) e impacta mais estudantes no Ensino Médio (42% usam no 2º ano do Médio, contra 35% que utilizam no 4º e 5º ano do Fundamental). O dado pode ser considerado um indicativo de que os dispositivos móveis já têm a atenção dos docentes.

Professores aprendem sozinhos ou com amigos

Embora a desigualdade ainda seja grande entre a qualidade e a quantidade da banda e dos equipamentos oferecidos nas escolas privadas e nas públicas, o comportamento dos profissionais das duas redes não é tão diferente. Praticamente 46% dos professores brasileiros levam o seu computador portátil de casa para a escola. Os números são quase idênticos também na forma como eles declaram aprender e se atualizar sobre as tecnologias: mais de 90% das vezes fazem isso sozinhos, 75% com outras pessoas como parentes e amigos e 70% em contatos informais com colegas. Poucas vezes aprendem com coordenadores pedagógicos, em cursos direcionados ou com formadores de secretaria. “Dá para notar que os estímulos institucionais são bem menores. Falta no desenho das políticas públicas um olhar para isso. As formações padronizadas não atendem as particularidades dos professores em sala de aula”, ressalta Fábio Senne, coordenador de projetos e pesquisas do Cetic.

As universidades ainda não colocam o assunto como prioridade. Durante a graduação em Pedagogia ou licenciaturas, somente 39% dos professores tiveram uma disciplina específica sobre como usar computador e internet em atividades com os alunos.  “Existe o desafio do uso instrumental versus o uso pedagógico das tecnologias da informação e comunicação (TIC). Para que ele seja superado, só mesmo capacitação, formação de professores, revisões de currículos e do projetos político-pedagógicos das escolas”, sugere Alexandre Barbosa.

Para a pesquisa, realizada entre setembro e dezembro de 2015 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, foram entrevistados 898 diretores de escola, 861 coordenadores pedagógicos, 1,63 mil professores e 9,21 mil alunos de quase 900 escolas urbanas. 

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