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7 coisas que aprendi lendo os textos dos meus alunos

Na atividade, jovens de 7º e 8º ano do Fundamental produziram um livro com 60 crônicas

por:
CA
Claudia Arcenio
Professores e alunos da EM Herbert Moses celebram o Café Literário (Claudia Arcenio / Arquivo pessoal)

Durante o primeiro semestre deste ano, desenvolvi um projeto de leitura e escrita na EM Herbert Moses, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. A proposta incluía aulas-passeio de visita ao Museu do Amanhã e a utilização dos espaços disponíveis na escola, como a biblioteca e o laboratório de informática. O desfecho era a produção de um livro de crônicas e um evento de lançamento do livro dos alunos, o “Café Literário”.

Além de brilhantes, as 60 crônicas escritas por alunos das turmas dos 7º e 8º anos do Ensino Fundamental me ensinaram coisas interessantes:

1) Eles são extremamente ligados à família

Há quem diga que os adolescentes não valorizam a família. No entanto, a temática familiar era recorrente, mesmo com os conhecidos conflitos entre gerações. Dos 60 textos produzidos, 23 tratavam do assunto em diferentes formas. As crônicas tratavam de nascimentos de primos e irmãos, da perda de entes queridos e de momentos ternura entre eles e pais, tios e avós, além de relatarem histórias cômicas e apresentação de parentes de outras localidades que eles ainda não conheciam.

2) Escrevem coisas interessantíssimas e extremamente coerentes ainda que não dominem plenamente a norma culta

Para desenvolver um projeto como este é preciso livrar-se de preconceitos, respeitando a linguagem não-padrão utilizada pelos alunos e valorizando o conteúdo do texto em si. Sempre auxiliando os alunos a desenvolverem estratégias quanto à ortografia, concordância verbal e outros elementos gramaticais que auxiliam na compreensão do texto.

A chave para o sucesso foi gerar um contexto que favorecesse o uso da escrita convencional em situações reais de uso, pois o fato de saberem que haveria leitores gerou expectativas em relação à construção do texto. Os alunos se preocuparam em escrever de forma que o “outro”, o interlocutor, compreendesse. Em relação à ortografia, uma estratégia que deu muito certo foi incluir no projeto a digitação dos textos pelos próprios estudantes. O corretor ortográfico e gramatical dos programas de edição de textos é uma ferramenta atual e valiosa.

Mesa com livros de crônicas escritas pelos alunos (Claudia Arcenio / Arquivo pessoal)

3) Cada ser humano é único em sua forma de ver o mundo

O cotidiano escolar, os currículos engessados e a própria rotina da prática pedagógica tornam invisível a pluralidade de visões e concepções que temos sobre nossos alunos. Este projeto tornou visível a humanidade de cada estudante, gerando empatia e tecendo minha própria humanidade enquanto profissional da Educação. Durante a leitura dos textos é impossível não se emocionar com as experiências pessoais traduzidas em crônicas. Alguns exemplos:

“Era meu sonho ter uma festa! Quando eu era menor, minha mãe em todos os meus aniversários me levava no parque. (...) Esse foi o melhor dia da minha vida!” (uma aluna sobre sua primeira festa de aniversário)

“Neste dia estávamos falando de amor. O quanto ele amava a gente.” (um aluno, sobre o falecimento do avô)

“Minha avó era uma pessoa que eu amava muito e a amo até hoje. Ela nunca será esquecida, sempre estará guardada em nossos corações.” (uma outra aluna, sobre o falecimento da avó)

O livro que construímos compartilhou histórias, mas também firmou laços. O ambiente de respeito mútuo ao trabalho desenvolvido fez com que esta experiência fluísse e gerasse frutos de aprendizagem escolar e para vida.

4) Eles adoram ter seus textos lidos

Durante a elaboração do projeto gráfico e edição do livro, sempre conversava com os alunos sobre seus textos, se não gostariam de mudar alguma palavra ou reconstruir alguma frase. Respeitando o desejo de cada aluno-autor para dizer “não” (e muitas vezes disseram) para edição dos textos. Percebi que, ao chegar à escola, logo me perguntavam “Professora, já leu meu texto?. O que achou? Gostou da minha crônica?”.

Acredito que o fato de eles estarem extremamente envolvidos com a proposta e perceberem que meus comentários não tinham o objetivo de corrigi-los, mas sim, de colaborar na construção de cada crônica, gerou uma espécie de cumplicidade. No dia do evento, todos queriam ter sua crônica lida!

Alunas se emocionam durante a leitura de textos no Café Literário (Claudia Arcenio / Arquivo pessoal)

5) Amam participar de projetos, principalmente os que trazem visibilidade

Essa geração Facebook e WhatsApp adora aparecer! No dia do lançamento do livro, todos estavam orgulhosamente posando para fotos e filmando, sempre com o objetivo de postar nas redes sociais. Além disso, o Café Literário mal havia terminado e já havia alunos me perguntando quando seria o próximo projeto, o que iriam escrever, quais lugares visitariam, se teria “evento” de novo... Estavam ansiosos para o próximo projeto! Amaram a valorização e a visibilidade dada ao trabalho deles.

6) Os estudantes leem e escrevem bastante

Novamente ressalto aqui a importância de despir-se dos preconceitos em nossa prática pedagógica. Nunca uma geração leu tanto! Os portadores textuais é que mudaram. Leem e escrevem legendas de fotos, textos de diferentes complexidades nas redes sociais, trocam mensagens o dia inteiro nos aplicativos de mensagem e compreendem perfeitamente a dificuldade de transpor para a escrita os elementos da oralidade.

Para solucionar esta dificuldade imposta pela escrita, utilizam como ferramenta não apenas os sinais de pontuação, mas também os mais diversos emoticons. Essa marca é tão presente nos dias atuais que uma das alunas sentiu a necessidade de colocar em seu texto entre parênteses a palavra “risos”. Achei a utilização deste recurso, comum no gênero entrevista, interessantíssima na escrita da crônica.

É evidente que é papel da escola ampliar as habilidades de leitura e escrita destes alunos. Cumprindo este papel, o projeto incluiu a leitura de crônicas de excelentes autores a fim de analisarmos o gênero e nos deliciarmos na leitura. Porém, valorizar e partir do que os alunos já sabem é uma excelente estratégia para facilitar aprendizagens.

A professora Claudia Arcenio (Arquivo pessoal)

7) Respeitam quem respeita seu trabalho

Uma das maiores dificuldades encontradas hoje em sala de aula é a indisciplina dos alunos. A prática pedagógica direcionada em projetos auxilia na transposição deste obstáculo, pois cria um ambiente de cumplicidade e parceria.

No princípio, as turmas estavam resistentes em escrever e até descrentes que o projeto sairia do papel. Conforme observaram seriedade do trabalho e o desenvolvimento das etapas previstas no cronograma, passaram a acreditar na proposta. O comprometimento de toda equipe da escola para realização de cada uma das etapas gerou interesse e os motivou a participar das aulas, facilitando assim a gestão das questões “disciplinares”. Ao se sentirem respeitados, passaram a respeitar ainda mais as aulas e a professora, e as aulas transcorreram de forma mais prazerosa.

Os alunos abraçaram a ideia de tal forma que até transpusemos o objetivo inicial: nosso livro, além de fazer parte do acervo da biblioteca da escola, também foi publicado como e-book em uma plataforma digital, possibilitando o acesso do conteúdo a toda comunidade escolar. O evento de lançamento foi um sucesso, com direito a divulgação nas mídias digitais e impressas do município.

Enfim, toda esta valorização da escrita destes alunos transformou esta experiência em algo marcante na vida deles e na minha.

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