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"Dar protagonismo não é apenas permitir que o estudante escolha o currículo"

Assessora do Alana fala sobre a transformação da sociedade por de meio de uma Educação que inclui estudantes, educadores e comunidade

por:
CM
Caroline Monteiro
EMEF Amorim Lima, uma das 18 Escolas Transformadoras do Brasil. Foto: Rodolgo Goud 

A criatividade, o trabalho em equipe, a empatia e o protagonismo são tão importantes quanto a Matemática ou o ensino de línguas. Essa é a opinião de Raquel Franzim, assessora pedagógica do Alana, organização que trabalha com programas que buscam a vivência plena da infância.

A organização lançou o livro digital "Protagonismo - a potência de ação da comunidade escolar" (faça o download aqui), o segundo de uma série de quatro publicações que falam sobre competências que deveriam ser trabalhadas nas escolas. O projeto foi organizado pelo programa Escolas Transformadoras, iniciativa global da Ashoka que no Brasil é correalizado pelo Alana em 18 instituições.

NOVA ESCOLA conversou com Raquel para falar sobre este trabalho. A entrevista também abordou protagonismo social, participação de pais, filhos, educadores e poder público na transformação da Educação e projetos como o Escola Sem Partido.

Como surgiu a publicação sobre protagonismo?

Essa publicação vem do projeto Escolas Transformadoras, que já tem mais de 270 escolas no mundo todo. Aqui no Brasil são 18 escolas reconhecidas, entre públicas, privadas, comunitárias e cooperativas. É um programa que reconhece e conecta escolas com uma comunidade de jornalistas, empreendedores sociais e especialistas em Educação. Nós acreditamos que Educação é uma ferramenta na qual todo estudante é o sujeito da transformação da sociedade e da própria vida.

Por conta dessa missão, promovemos algumas rodas de conversa e debates públicos nos últimos anos. Desses encontros, nasceram duas publicações: a de Empatia, em 2016, e a de Protagonismo, que foi escrita por lideranças, jornalistas, especialistas de Educação e membro de duas escolas, uma argentina e outra venezuelana. Todos os autores participaram da roda de conversa em novembro do ano passado e foram convidadas a escrever a publicação conosco.

Qual o objetivo deste trabalho?

Nosso ideal é disseminar na sociedade a importância do protagonismo e também mostrar que a Educação depende dessa agenda para fazer sentido para estudantes e educadores. É um assunto necessário. E sabemos que para colocar em prática o protagonismo, a empatia, o trabalho em equipe e a criatividade, às vezes é preciso ler um outro educador falando.

Raquel Franzim, assessora pedagógica do Alana. Foto: Divulgação/Alana

O que é o protagonismo para você?

Primeiro, temos que deixar claro que que não estamos falando de um protagonismo solitário, de um estudante ou de um educador, nem de um protagonismo que acontece "de vez em quando". Falamos do protagonismo como potência de ação de uma coletividade, vinculada aos seus desafios e às necessidades de transformação. É uma atitude que não se limita ao estudante escolhendo o currículo.

Quando os estudantes secundaristas se sentem engajados e tomam decisões baseadas em debates, isso é protagonismo. Mas muitas vezes a nossa cultura totalitária acredita que isso não pertence a eles. Com as ocupações das escolas públicas em 2015 e 2016, por exemplo, a gente percebe que o estudante sabe, sim, qual é a mudança que a sociedade precisa.

E onde entra o professor?

Nesse ponto, é difícil não envolver o educador. E essa talvez seja a parte mais delicada. Temos que tomar o cuidado para não cair em uma vitimização. A gente tem uma condição social e cultural de extrema desvalorização da carreira. Nós temos milhões de reais sendo gastos em material apostilado, com tudo pronto para o professor aplicar a metodologia. Mas com isso, estamos falando que esses educadores não conseguem, não são capazes, que têm um problema de formação. A gente não pode nunca baixar o nível, dizendo que o educador não sabe de nada. Ele é autor da sua própria prática. Concluindo: todos nós podemos participar, nos engajar com a solução e com a resolução.

O que pode surgir a partir desse protagonismo dos estudantes?

Tenho o grande exemplo da Ilha de Margarita, um paraíso no Caribe Venezuelano. Eles vivem um contexto político desafiador, com embargo econômico. Ainda que o Colégio Guayamurí seja uma escola privada, eles sentem os desafios e, então, criam soluções. As soluções vêm dos estudantes para resolver estes e outros problemas.

Lá não chegava papel higiênico para nenhuma família. Então criaram um grupo em que eles fabricam os próprios papéis higiênicos, baseado em articulação com os conteúdos educativos; e distribuem isso para a comunidade, vendem e recebem uma porcentagem.

É interessante ver que no mundo a gente tem diferentes contextos que impulsionam protagonismos distintos. São questões concretas da vida. E com esse trabalho, nós queremos mostrar que uma comunidade deve eleger não só o currículo, mas também quais são as situações que vão ser estudadas. Isso é transformação por meio da comunidade. É uma transformação social. O que eu aprendo me vincula à realidade e me faz pensar.

O CIEJA Campo Limpo também é uma das Escolas Transformadoras no Brasil. Foto: Rodolfo Goud

Críticos argumentam que liberdade e protagonismo podem acabar com a autoridade dos pais.

Essa é a grande questão do educador. Protagonismo não é cada um fazer o que quiser, a hora que quiser. Protagonismo é um projeto construído coletivamente, a partir da potencialidade de agir sobre desafios, problemas e situações que demandam transformações, mas que atendem a combinados coletivos, a uma organização.

Vamos olhar de novo para os estudantes que ocuparam as escolas. Eles tinham extrema organização. A mídia tradicional fez alguns recortes e não mostrou a organização do espaço, o cuidado, a divisão de responsabilidades. Protagonismo segue princípios democráticos de gestão e de convivência. Democracia não significa baderna, e sim que a comunidade escolar pode participar, debater e tomar decisões justas e coletivas. É trabalhar a relação intergeracional, com adultos e estudantes. Há muitos saberes que os adultos guardam que são necessários à construção coletiva.

Como trabalhar o protagonismo ao mesmo tempo em que a sociedade vê o crescimento de movimentos que tentam controlar o conteúdo dado em aula, como Escola sem Partido (ESP)?

Ao meu ver, o ESP é extremamente equivocado sobre o conceito de Educação. Ele entende a Educação de forma muito tecnicista. Não é apenas um movimento contra o protagonismo, mas também contra a legislação, contra muitas convenções de direitos humanos e sociais do mundo. É um movimento que cerceia a liberdade de pensamento e a pluralidade de ideias.

É dever da escola trabalhar a variedade das concepções filosóficas e econômicas, por exemplo. Na verdade, o ESP faz justamente o que ele combate. Aí sim a gente vai ter uma educação doutrinária. É como se o estudante só tivesse uma coisa na cabeça, como se não acessasse outras fontes de conhecimento. Essas ideias surgem quando se esvazia a escola, os estudantes e os educadores dessas concepções de mundo, como sociedade, como pessoa.

Quando incentivamos o protagonismo, não estamos tirando a responsabilidade do poder público em resolver os problemas?

É claro que nós temos responsáveis dentro da estrutura política brasileira que deveriam estar fazendo mais pela Educação. Mas essa atitude de esperar sempre o outro é um pouco passiva. A Educação é feita com pessoas, para pessoas. Com o estudante, com o educador.

E se pensarmos: "mas e se vivêssemos com estabilidade, com seguridade, com todos os direitos assegurados?". Em tese, não teríamos um protagonismo. Mas na prática, sim, teríamos, graças a essa potência do ser humano em criar não só soluções dos problemas, mas também novas formas de viver, novos horizontes, novas utopias. A Educação no Brasil é uma uma das grandes ferramentas de transformação social. Mas  ainda que nós tivéssemos uma condição econômica, política e cultural mais fraterna, nós teríamos essa potência humana da criação, de agentes sobre o mundo. O protagonismo é uma agenda para novas utopias.

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