Ao ver homofobia no futebol, olhemos para a escola

OPINIÃO: Nós que escolhemos combater ou reforçar preconceitos

POR:
Rodrigo Ratier
Ilustração: Patrick Cassimiro

Três jogadores profissionais aparecem num vídeo praticando um ato sexual no vestiário de um clube de futebol. As imagens viralizam, as piadas se multiplicam. Clube e atletas chegam a um “acordo”. As aspas indicam – sem surpresa – que os atletas foram dispensados.

O diretor do clube refutou a acusação de homofobia. Disse que o time “não tem preconceito com ninguém, seja de raça, cor e qualquer outra coisa [sic]”. Um outro clube do Rio Grande do Sul virou alvo de chacota por ter o símbolo parecido com o da equipe do episódio e a imagem de seus atletas associada ao caso. O manda-chuva do clube prometeu tomar providências na Justiça contra quem divulgou o vídeo. “Homofobia, nem pensar nisso”, declarou ao UOL Esporte. “Mas denigre a imagem do clube”, escorregando em outro preconceito para justificar a decisão.

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A contradição é evidente. “Todos negam a homofobia, mas recorrem a preconceitos para seguir alimentando o maior tabu da bola”, explica o jornalista Breiller Pires em artigo no El País Brasil. Para dizer de outra forma, poderíamos resumir com o popular meme da internet: “até tenho amigos que são”. Mas não na minha casa. Não na minha escola. Não no meu time.

Não eu. “A gente é heterossexual, os três são casados, bem casados. A gente é só brincalhão”, declarou ao site da Zero Hora um dos atletas envolvidos no episódio.

Pouco importa se são héteros, homos, bis ou o que quiserem ser. Num mundo ideal, penso que nada relativo ao desejo humano, sendo consensual e estando dentro da lei, deveria indignar. O que mereceria um escândalo é o fato de uma pessoa precisar se justificar a respeito de um fato que não causou mal a ninguém e que a ninguém diz respeito. E que foi disseminado sem autorização.

Mas não estamos num mundo ideal e a vítima precisa vir à público para mostrar arrependimento e pedir desculpas. E, antes que pensem que a punição é pelo ato de indisciplina em si, vamos lembrar que houve vários casos de jogadores apanhados com garotas. Esses casos, ao contrário, só costumam reforçar uma imagem glamourosa de “pegador”.

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Possivelmente o universo do futebol exacerbe a homofobia com seu culto antiquado à ideia mítica do macho guerreiro e viril. O mundo ao redor, felizmente, já mudou um tanto. Mas, em determinados ambientes, alguns preconceitos seguem sendo tão fortes a ponto de fazer a vítima se culpabilizar. Parece ser o caso aqui.

O que isso tem a ver com Educação?

Visões de mundo tão arraigadas não sobrevivem sem que as instituições que formam nossos modos de ser, agir e pensar colaborem para que esses pontos de vista continuem circulando por aí. Diante das questões de gênero, a família, a mídia – e claro, a escola – têm uma gama de escolhas que podem ser resumidas em pares de opostos: reforçar os preconceitos ou ajudar a combatê-los? Abordar a questão ou fingir que ela não existe? Tratar o desejo com naturalidade ou encaixotá-lo em gavetinhas de “certo” e “errado”? Agir de maneira inclusiva ou optar pela segregação?

A homofobia nos estádios, gramados e vestiários nos indigna. A dificuldade em vencê-la nos frustra. Quando nos perguntamos por que isso acontece, vale olhar como estamos agindo e o que estamos ensinando nas salas de aula sobre o que significa ser homem, mulher, humano.

* As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

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