Quando alfabetizei pela primeira vez, senti que estava quebrando um paradigma

Ainda criança, Débora Gomes Gonçalves alfabetizou um tio. Hoje, a professora é a primeira da família a ter diploma de Ensino Superior

POR:
Débora Gomes Gonçalves
Crédito: Fernando Vivas

"Descobri que meu tio era analfabeto, só sabia assinar o nome, pois eu era obrigada a ler as bulas de remédio para ele. Eu tinha uns oito ou nove anos e ler bula era muito chato, então resolvi repetir o que a professora fazia na aula escrevendo com giz sobre uma madeira pintada de preto e ensinando ele a escrever em um caderno. Na prática, eu alfabetizei meu tio enquanto eu estava sendo alfabetizada. Ele trabalhava como metalúrgico e se sentiu tão bem que até tirou outra identidade com a nova letra.

Na hora de escolher o curso universitário, eu estava decidida a prestar Direito, mas meu marido, que é psicólogo, disse que tinha tudo a ver eu fazer pedagogia... Caí de paraquedas no curso noturno da Faculdade Unime, em 2011, mas já na primeira visita de estágio em uma escola me encantei pela carreira. Tinha uma sede muito grande por estágios, fiz vários na Educação Infantil em colégios de Salvador, acompanhei a alfabetização de crianças depois alfabetizei adultos na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Ali percebi o quanto era forte a identificação com a profissão. Como estagiária no programa Salvador Alfabetiza, com alunos de 3º a 5º ano divididos em grupos pequenos, foi a primeira vez que eu vi a realidade da escola pública. Quando a primeira criança se alfabetizou a alegria era incomparável, você sente que está quebrando um paradigma, um ciclo. Você está dando ferramentas para superar uma situação. Se sente tão importante que ultrapassa barreiras e topa trabalhar em condições precárias.

No início, a escola pública me causava muita angústia, no primeiro semestre que eu atuei, ficava pensando como que as pessoas não se indignam com essa realidade? Me marcou a ponto de eu resolver cursar uma especialização em ‘Educação, pobreza e desigualdade social’, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lá estudamos a relação pobreza com a falta de Educação, que é um ciclo que se retroalimenta. Muitas vezes falta compreensão de que a condição social por si só não é determinante e de que a escola pode ser o mecanismo de mudança. Sou um exemplo disso, pois cursei o Ensino Fundamental na escola da Fundação Bradesco, em Salvador, e enquanto isso meus vizinhos estavam na escola pública, perdendo aulas por falta de professor ou falta de água.

Crédito: Fernando Vivas

Tive um incentivo importante em relação ao meu potencial, isso fortaleceu minha caminhada. Sou filha de policial e de dona de casa. A renda era muito baixa e quanto entrei em faculdade particular, tive 50% da bolsa, mas contei com a ajuda do meu namorado (atual marido) para pagar o restante. Depois consegui pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) os outros 50% e fiz estágios remunerados do início ao fim do curso superior. Fui a primeira pessoa na minha família a me formar em universidade e a gente já vê que isso permite construir a vida de um jeito diferente.

Com todas as dificuldades que eu passei, conto para os pais dos meus alunos sobre o meu percurso de estudante, o papel da minha família, que dizia “você vai conseguir, é só se dedicar”. Faço questão de sinalizar para eles que dá para mudar a condição por meio da Educação. É claro que os obstáculos para o bom ensino são inúmeros, pois na rede pública muitas vezes o provedor de recursos é o próprio professor e isso interfere no trabalho. Existe carência de material teórico de qualidade nas formações continuadas das prefeituras da Bahia.

Por isso eu faço cursos à distância, por conta própria, investindo tempo e dinheiro. Lido com realidades como encontrar apenas quatro alunos alfabéticos no 2º ano. No 3º ano, havia dez crianças, em uma turma de 25, sem saber ler e escrever. E há muitos desafios na área de inclusão. Mas tenho paixão pelo que faço, é um prazer superar a dificuldade junto com cada criança, ver ela aprendendo. Também sinto uma forte responsabilidade social. Sei que não sou redentora nesse sistema de classes em que vivemos, mas posso contribuir para melhorar a vida de outras pessoas.”

Débora Gomes Gonçalves é professora alfabetizadora da EM João Francisco dos Santos, em Mata de São João, BA, e Educadora Nota 10 de 2016.

Depoimento a Maggi Krause

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