Um pequeno guia para reconciliar professores e alunos

A sala de aula é desafiadora. A gente se acostuma com o que é ruim, mas não devia. Vamos mudar isso?

POR:
Leandro Beguoci

Em algum momento do ensino fundamental, minha professora de Língua Portuguesa nos pediu para ler o texto “Eu sei, mas não devia”. A autora, a escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti, faz uma crônica singela sobre as pequenas brutalidades da vida cotidiana. A primeira frase é esta: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia”. E este é o último parágrafo: “A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”. O texto completo está disponível neste link.

Nos últimos dias, por conta de uma série de textos que publicamos, as emoções de professores e gestores ficou à flor da pele no nosso Facebook e na área de comentários do site de NOVA ESCOLA. Foram dias de debates acalorados. Entre muitos comentários, especialmente no texto sobre reprovação e evasão, fomos criticados por alguns professores especialmente em duas frentes: 1) estaríamos desvalorizando os professores ao criticar a reprovação 2) o que escrevemos não dialoga com a dura realidade da sala de aula.

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Quebramos a cabeça aqui para entender as razões. Por que falar de reprovação e evasão incomoda tanto? Por que discutir a norma culta da Língua Portuguesa cria tanta celeuma? Há várias respostas possíveis, mas uma hipótese surgiu na última reunião de pauta, da equipe NOVA ESCOLA. Os educadores estão com as emoções à flor da pele num cenário de incertezas sobre aposentadoria, baixos salários, indisciplina e, em muitos casos, um ambiente tóxico de trabalho. Sim, nós sabemos que a sala dos professores pode ser um ambiente terrível, como comenta nosso colunista, Felipe Bandoni, no texto “O novato e a armadilha na sala dos professores”. Isso cria uma cultura de trabalho muito ruim. A moral baixa acaba tendo muitos feitos. Entre os piores, o desvio de foco, trocando a colaboração pela raiva. Muitas pessoas acabam ficando muito mais preocupadas com as guerras dentro da escola, entre professores ou entre professores e alunos, do que em ensinar e aprender.

Em 2016, depois de anos sem tocar no assunto, NOVA ESCOLA fez uma reportagem especial chamada “Burnout. Depressão. Ansiedade. Como desatar esses nós?” A repórter Karina Padial encontrou esses dados assustadores. Tomo a liberdade de reproduzir o parágrafo dela:

“Se você já viveu essas situações, saiba que você não está sozinho. Embora não existam estatísticas nacionais recentes, sabe-se - na verdade, sente-se no dia a dia - que o problema é enorme. Os dados de São Paulo são um indício. Em 2015, os transtornos mentais e comportamentais lideraram as causas de licença na rede estadual, com 28% dos casos. Na rede municipal, eles contribuíram para um número absurdo: a quantidade de afastamentos superou o total de professores em sala. Em 2012, o Atlas de Gestão de Pessoas registrou 64,2 mil licenças diante de 58,5 mil servidores ativos.” 

Ilustração: Fabio Lucca e Thais Beltrame

Neste cenário, fica mais fácil entender por que discutir reprovação e norma culta incomodam tanto. A gente sabe o quanto os professores se sentem desamparados. Essa sensação de abandono pode criar traumas enormes para quem dedica as melhores horas da sua vida à Educação.

Vamos ser sinceros: para muitos educadores, a reprovação é a única arma contra alunos difíceis ou contra gestores complicados (reprovar alunos acaba sendo uma medida simples para mostrar que você dá conta da sala, não é?). Discutir a reprovação acaba soando para muitos professores como “vocês querem tirar de nós um dos poucos instrumentos que ainda temos para controlar uma sala de aula ou para dar satisfação a gestores inseguros”. E, antes de julgá-lo, professor, quero dizer que não concordo com a reprovação tal como ela é feita. Não é nosso papel concordar contigo só para ter a sua simpatia. Isso seria populismo educacional, e não estamos nesse ramo.

Ao mesmo tempo, quero dizer que te entendo perfeitamente. Em vez de estar ao seu lado, como NOVA ESCOLA sempre esteve, parece que estamos contra você, que desconhecemos a sua realidade, quando discutimos alguns assuntos espinhosos da sala de aula.

Por isso, quero te fazer alguns convites. Ao longo dos últimos meses, NOVA ESCOLA vem publicando uma série de conteúdos para te ajudar a resolver os desafios da sala de aula de forma profunda e duradoura – especialmente na complexa relação entre professores e alunos. Antes de dar receitas prontas, buscamos evidências e casos reais, para você aprender ou se inspirar.

Com este pequeno guia, queremos oferecer ferramentas práticas para lidar com as suas emoções e com as emoções e comportamentos dos alunos – especialmente os mais difíceis. Assim, você pode construir, do seu jeito, um ambiente de trabalho mais saudável para você e para cada criança e adolescente que você educa, com quem você cria conhecimento junto. Parafraseando a Marina Colasanti, a realidade da escola é dura. A gente se acostuma. Mas não devia. NOVA ESCOLA, todos os dias, quer nos “desacostumar” com tudo que não cria prazer em ensinar, com o que não cria prazer em aprender. Vamos lá?

1) Como desatar os nós da depressão e da ansiedade

Vamos começar pela sua saúde? Além de mostrar casos de professores que passaram por situações difíceis, também mostramos como eles construíram caminhos para sair dessa situação. Neste texto, você vai encontrar alguns caminhos para superar os nós que amarram a cabeça de cada educador. É só clicar aqui.

2) Como trabalhar com as difíceis emoções de alunos

Na última edição da revista NOVA ESCOLA, publicamos uma reportagem especial sobre as competências socioemocionais. Ainda não sabe o que são? Não tem problema. Explicamos o como trabalhar com elas e os benefícios que elas trazem para o aprendizado e para o ambiente escolar.  Basta clicar aqui e você terá um guia completo para entrar nesse mundo.

3) Como trabalhar com os alunos indisciplinados

Gostou da discussão sobre socioemocionais, mas acha que elas ainda estão muito distantes da sua realidade. Sem problema. Temos alguns caminhos mais rápidos para oferecer. Já escutou nosso programa de rádio sobre como como trabalhar com alunos indisciplinados? Ele está aqui, na série “Fala ai, professor”. É só clicar e ouvir. Também vale ler essa entrevista sobre “como disciplinar” e o depoimento “Um estudante bagunceiro cortou meu coração”.

4) Como lidar com alunos difíceis

Essa é uma das minhas reportagens favoritas de NOVA ESCOLA. Um guia simples sobre como trabalhar e engajar alunos complicados.  É só entrar aqui.

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