Questionar o uso da língua não é defender a ignorância

OPINIÃO: A norma culta deve ser debatida

POR:
Rodrigo Ratier
Crédito: Lucas Magalhães

Quem acompanhou nosso site na semana passada talvez tenha visto uma polêmica. Publiquei um artigo – “A mesóclise de Temer é um instrumento de exclusão” – que motivou bastante discussão, além de uma criativa lista de xingamentos. Tenho agora a oportunidade de esclarecer algumas críticas e dúvidas. Vou procurar fazê-lo na forma de um diálogo, reproduzindo alguns pontos de vista que li nos comentários da reportagem, no Face de Nova Escola e no meu perfil pessoal.

"O artigo defende que a alta cultura e a gramática correta são opressivas."

Não. O que defendo é que certos usos da língua, em determinadas ocasiões, são excludentes. Cito o exemplo da mesóclise do presidente Temer. Veja: não é a mesóclise em si. É o uso dela por Temer, por exemplo, em situações de aparição pública. Minha opinião é que um presidente deve tentar se exprimir da maneira mais clara possível para ser entendido por todos. Nesse sentido, a mesóclise – que, obviamente, é só um exemplo – atrapalha.

"Você está defendendo falar errado."

Não. Questionar o uso da língua não é defender a ignorância. Também não é “assinar embaixo do modo de falar de Dilma e Lula” – crítica de Facebook que indica bem o binarismo em que estamos metidos (“se alguém critica o Temer, defende o PT”).

É perfeitamente possível usar a norma culta e tentar ser simples – explicando termos complexos, recorrendo a sinônimos mais familiares, fazendo comparações com situações conhecidas, evitando o uso de jargões. A linguagem jornalística, por exemplo, busca isso o tempo todo. Para isso, faz uso da norma culta. E não é acusada de incentivar a “ignorância, o rasteiro, o popular e o medíocre”, outra das coisas que li por aí.

"Que absurdo a NOVA ESCOLA defender essa opinião."

A opinião não é de NOVA ESCOLA. É minha. Temos aqui um ambiente plural, em que vários pontos de vista podem ser expressos. Tanto que meu colega Leandro Beguoci fez um texto de resposta questionando certos pontos do meu artigo. Leandro me pediu autorização para escrever e compartilhou comigo o texto antes de publicar. Nem precisava. Por aqui, o debate é de ideias. Não é uma briga pessoal.

De todo modo, esse comentário gerou uma autocrítica por aqui. Não estávamos deixando claro o suficiente quando o texto era argumentativo. Passamos a fazê-lo agora. Daqui por diante, todos os artigos pessoais vêm com a palavra “OPINIÃO” em maiúsculas no subtítulo. E terminam com a seguinte frase: “as opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA”.

"É ridículo dizer que a mesóclise não precisa ser ensinada."

Antes de tudo: meu artigo não menciona uma única palavra sobre a Educação escolar. No entanto, muita gente afirmou que eu estava defendendo "baixar o nível do ensino". Não é o que eu penso. E o fundamental: não é o que eu escrevi.

Opino um pouco mais sobre o ensino de gramática no trecho abaixo. Falo agora sobre o ensino da mesóclise. Claro que ela é importante. Para ficar em uma função: conhecê-la é essencial para entender um grande número de autores clássicos. Se o aluno não dominar a variedade padrão, dificilmente vai conseguir mergulhar, por exemplo, no universo de Machado de Assis.

A questão, insisto, não é a variedade padrão em si, mas analisar o contexto mais apropriado para seu uso. Me parece mais rico e inclusivo do que insistir no binarismo “certo” versus “errado”. O que, evidentemente, não significa que a língua é um território em que vale tudo.

Em seu clássico livro Preconceito Linguístico, Marcos Bagno apresenta outros dois conceitos para o uso da língua: o da adequabilidade e o da aceitabilidade. Se é uma situação formal, tentaremos usar uma linguagem formal. Numa ocasião descontraída, linguagem descontraída, até com gírias. E assim por diante. “Como sempre”, diz o linguista, “tudo vai depender de quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por quê e visando que efeito”.

(Não citei o linguista Marcos Bagno no artigo anterior. Mesmo assim, ele foi chamado de “idiota” por mais de um comentarista. Cito-o agora. Acho que não podemos nem precisamos esconder nossas referências e suas ideias, mesmo que o contexto seja o dos ataques pessoais).

"Você disse que a norma culta segrega e ridiculariza. É mentira: ela permite o acesso à cultura."

Concordo que ela amplia enormemente os horizontes de inserção social de um indivíduo. Mas eu não disse que a norma culta segrega e ridiculariza. Transcrevo o trecho da discórdia: “A língua cultuada torna-se, então, um instrumento de poder. Ela segrega quem não domina seu código. Ridiculariza quem se desvia da norma.”

Sinalizo a diferença entre a norma culta e a cultuada, ideia que extraio do livro Mitos de Linguagem, de Gabriel de Ávila Othero. A norma cultuada é a das gramáticas normativas. Othero diz – e eu concordo com ele – que essas gramáticas descrevem regras muitas vezes idealizadas ou que não refletem o que encontramos em português atualmente. A norma culta também é a das gramáticas, mas de um tipo específico delas, construído com base em pesquisas linguísticas que investigam o português falado por pessoas com ensino superior completo. São os falantes cultos contemporâneos, que se expressam falando “você” e “a gente”, pronomes ausentes dos quadros pronominais tradicionais. Essas obras, surgidas de iniciativas como as do Projeto NURC (Norma Urbana Culta Brasileira), podem representar alternativas de ensino. Essas inflexões, como já disse, não excluem que se aborde a mesóclise, mas que se discuta o espaço dedicado a ela.

"Não existe nada mais preconceituoso do que achar que uma criança brasileira é menos capaz de estudar e aprender do que qualquer outra do mundo."

Outra coisa que não escrevi. Aliás, relembrando: não escrevi nada sobre Educação escolar. Novamente, posso dizer o que acho sobre o tema. Penso que todos são capazes de aprender e que devemos ter altas expectativas para cada um. Em outras palavras, a ideia de excelência com equidade, o contrário de “nivelar por baixo”.

Acredito que a escola é o principal caminho para reduzir as enormes desigualdades de partida existentes num país como o nosso. Os beneficiados devem ser sobretudo os que mais precisam, àqueles que tiveram menos acesso à cultura letrada antes da escolarização. Isso exige condições adequadas no sistema escolar – e também uma grande dose de dedicação e estudo a cada aluno e cada aluna. Não se aprende sem esforço.

"Não podemos usar o português que aprendemos só para não melindrar uns e outros que não podem ou não querem frequentar uma escola."

Cada um faz o que quiser. Minha opção pessoal é ajustar a linguagem ao interlocutor. Acho que é perfeitamente possível fazer isso com a norma culta desde que haja esforço para traduzir termos e construções menos usuais.

"Você não deveria ter misturado língua e política."

Várias pessoas concordavam com o teor do artigo, mas consideravam que ele se enfraquecia pelo fato de eu ter citado Temer. Alguns falaram que o presidente não devia estar no título. Outros, que o problema era falar em exclusão.
Pensei bastante sobre isso. Conclui que o título representa o que penso. E que a forma como Temer usa a linguagem é um dos observáveis do caráter excludente de seu governo.

É uma opção pessoal quanto à construção da argumentação. Sublinho o seguinte: não há ataques pessoais ao presidente. Há, sim, críticas à sua obra, da qual faz parte sua forma de se expressar.

"A mesóclise de Temer não é um instrumento de exclusão."

Há um trecho bonito do menino-narrador no romance autobiográfico Infância, de Graciliano Ramos, publicado em 1945:

“Certamente meu pai usara um horrível embuste naquela maldita manhã, inculcando-me a excelência do papel impresso. Eu não lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos sisudos: A preguiça é a chave da pobreza – Quem não ouve conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém. Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da ciência anunciada por meu pai.

– Mocinha, quem é Terteão?

Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.

– Mocinha, que quer dizer isso? Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepções.”

Eu acho que a mesóclise de Temer é um instrumento de exclusão. Fique à vontade para discordar. E, antes que eu me esqueça:

As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

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