A exclusão escolar pode gerar jovens violentos, diz pesquisador

Dados do Inep revelam que até 4,7% dos estudantes abandonaram a escola ainda no Ensino Fundamental. De acordo com pesquisa, essa decisão pode definir o seu futuro

POR:
Paula Peres
Crédito: Shutterstock

A Educação brasileira de hoje tem índices melhores que há uma década. Todas as etapas têm aumento da taxa de aprovação e redução do abandono em relação a 2007. Esses dados foram divulgados nesta quarta pelo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) com base nas informações dos Censos escolares de 2014 e 2015. Mas, apesar da evolução em várias áreas, o resultado ainda é preocupante.

Os piores índices estão no Ensino Médio: a média de evasão escolar na etapa é de 11,2%, e com 12,9% só no 1º ano. No Ensino Fundamental, os números são um pouco mais agradáveis, com média de 2,1% de abandono nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais.

Apesar de baixa quando comparada com o Ensino Médio, um estudo do sociólogo Marcos Rolim mostra que a evasão na transição do Ensino Fundamental 1 para o Ensino Fundamental 2 pode ser especialmente danosa. Ele analisou as respostas de 111 pessoas, e identificou um fator em comum a todas que se envolveram com o crime: o abandono aos estudos muito cedo. “Os mais violentos tinham saído da escola muito precocemente, com 10, 11, 12 anos. Não havia uma exceção”, afirma o pesquisador.

Marcos estuda segurança pública há mais de 20 anos. Baseado em uma experiência norte-americana registrada no livro Why they kill (Por que eles matam), do jornalista Richard Rhodes, ele decidiu repetir a investigação com brasileiros, que registrou no livro A formação de jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema. A ideia inicial era entrevistar um grupo de jovens, homens, envolvidos com atos de violência extrema. O pesquisador conversou com 17 que estavam na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), antiga Febem do Rio Grande do Sul, alguns inclusive com múltiplos homicídios. A intenção era saber mais sobre suas vidas anteriores aos crimes cometidos e à prisão.

Os jovens também indicaram um colega de infância que não tinha se envolvido com o crime, para Marcos buscar padrões e diferenças nessas histórias que pudessem explicar a “inclinação violenta” (que Marcos chama de “disposicionalidade”, por acreditar que é fruto tanto de questões internas quanto sociais) que certas pessoas de um mesmo grupo social têm, enquanto outras não.

“Repeti as entrevistas com onze desse segundo grupo. Como eram poucos, não consegui chegar a grandes conclusões, então ampliei a amostra aplicando um mesmo questionário para jovens presos por crimes violentos e não violentos, e outros da periferia de Porto Alegre, que não tinham nenhuma relação com o crime”, explica Marcos. Veja a seguir suas descobertas.

O pesquisador Marcos Rolim (Divulgação / Ramon Moser)

Quais foram as principais conclusões da sua pesquisa?

Todos os jovens eram pobres, moradores de áreas de exclusão, e muitos viveram situações de violência na família. Os mais violentos tinham saído da escola muito precocemente, com 10, 11, 12 anos. Não havia uma exceção. Eu imaginava, por exemplo, que os jovens que matam são de famílias violentas, desestruturadas. Mas não, há aqueles que vêm de famílias em que tudo em tese estava correndo bem, até a saída da escola. Quando olhei para o grupo maior, vi que a baixa escolarização e o treinamento para o crime foram os dois fatores que mais apareceram em comum àqueles que tinham mais disposição para a violência. O treinamento é quanto tem a presença de alguém mais velho que introduz esse jovem no mundo do crime.

Esses traficantes mais velhos fariam o papel de professor?

Exatamente. A ruptura com a escola desvinculou o menino do único senso de grupo que ele tinha. O traficante que o recebe é poucos anos mais velho do que o iniciante, mas faz as vezes de professor, instrui, socializa nos valores do novo grupo.

Quais foram os motivos que os jovens deram para terem saído da escola?

Foram três motivos principais. Havia uma sensação de que eles eram incapazes de aprender. Eles falavam “Eu sou burro mesmo, não dou pra isso, repetia de ano”. Essa ideia de que a culpa é deles, de que há algo de errado neles, é uma visão equivocada, porque é obrigação da escola ensinar. Havia os que sofriam bullying pela pobreza. Todos eram pobres na escola, mas alguns eram ainda mais pobres do que os outros: usavam sapato furado, camisa rasgada, e eram humilhados pelos demais. Eles acabavam saindo para evitar essa humilhação, inclusive entravam para o crime na tentativa de se vingar disso. Também teve quem falou que a escola é um espaço desinteressante, que era um saco estar lá, os professores eram chatos. E tenho a impressão de que há uma distância enorme entre o mundo em que os jovens vivem, da internet, da conectividade, e o mundo em que a escola vive.

Como a escola pode concorrer com o universo do crime?

Talvez a única chance de a escola disputar esse espaço é com relação à autoria de uma pessoa. Jovens extremamente pobres têm a sensação de serem nada, e isso no fundo corresponde muito à realidade social brasileira. De fato, no Brasil, ele é nada, reconhecido em lugar nenhum. O tráfico oferece um espaço de pertencimento, onde eles são valorizados. E quando faz parte do grupo, tem uma arma na cintura, pode comprar roupas de grife, ele passa a ser alguém admirado na vila onde mora. O máximo que a escola oferece é uma promessa futura, com um cotidiano cheio de tarefas burocráticas, sabe? Acho que essa preocupação da autoria na escola, como ele pode ser alguém, o que ele pode produzir, realizar, como esportes, poesia, hip hop, artes, deve ser central.

A evasão escolar deveria virar assunto de segurança pública?

Teríamos que fazer um estudo mais aprofundado sobre evasão, mas a minha impressão é de que quanto mais cedo a criança sai da escola, maiores as chances de se envolver com o crime. Nas prisões norte-americanas, há um grupo muito pequeno de pessoas que terminaram o Ensino Médio. A grande maioria não terminou. Aqui, o corte é ainda mais baixo. A grande maioria da população carcerária brasileira não terminou o Ensino Fundamental. A quantidade de escolarização é muito importante para permitir que o sujeito escape dessas dinâmicas ilegais de sobrevivência, que podem levar à prisão. Não acho que a escola deva ser assunto de segurança, mas a pesquisa deixa claro que o desempenho da escola acarreta consequências na segurança pública. A evasão escolar é um tema central para se pensar a violência do Brasil, mas não deve ser só isso. O ideal seria ter evasão zero como nossa meta. Precisamos entender e combater os motivos pelos quais esses meninos estão saindo da escola.

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