Ensinar a "mesóclise de Temer" é dar poder aos alunos

OPINIÃO: Para meu colega Rodrigo Ratier, a mesóclise é uma ferramenta de exclusão. Discordo dele - e também dos amantes do sê-lo-ia

POR:
Leandro Beguoci
O presidente Michel Temer busca o filho, Michelzinho, na escola, em julho de 2016 (Crédito: Agência Brasil) 

Fiz meu mestrado na Inglaterra, na London School of Economics. No primeiro dia do programa, fui informado de que teria aulas de inglês. Minha autoestima foi levemente golpeada (afinal, eu tinha passado num processo bem difícil), mas engoli o orgulho e me inscrevi na disciplina. Foi uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido.

O professor de inglês, Simon Cuddihy, explicou o porquê à turma de forma prática e objetiva. Ele nos lembrou que a LSE era uma universidade pública, mantida parcialmente por impostos de todos os britânicos (outra parte da conta é paga pelos estudantes, especialmente os estrangeiros, e por doações). Logo, a produção acadêmica feita na universidade deveria ser acessível a todos os britânicos – de um estivador rural em Liverpool a um executivo em Londres. Alunos e professores da LSE deveriam escrever com rigor intelectual e clareza absoluta, com estruturas simples, sem rebuscamento desnecessário ou construções textuais (aparentemente) sofisticadas. Era uma tempestade de ar fresco na minha formação acadêmica.

Quem passa pelas melhores universidades do Brasil, em muitas áreas, aprende que o famoso “escrever difícil” é sinônimo de rigor intelectual. Confesso que já escrevi textos no limite do incompreensível, durante a graduação, porque sabia que teria notas melhores (não tenho orgulho disso, mas todos temos passado – e é melhor aprender com ele). Essa fórmula do “difícil, logo excelente” supera as clivagens ideológicas, aliás.

Dois anos atrás, participei de um debate numa grande universidade pública brasileira sobre divulgação científica. Era um ambiente majoritariamente de esquerda. Foi horrível. Ao repetir os argumentos do meu professor Simon, fui tachado de colonizado, barateador da língua portuguesa, jornalista arrogante que não respeita a linguagem da universidade brasileira. Muitos desses argumentos, com o sinal trocado, foram usados contra o meu colega de NOVA ESCOLA, Rodrigo Ratier, no artigo “A mesóclise de Temer é um instrumento de exclusão”. Para os críticos de Ratier, seu texto era sinal de um projeto esquerdista para destruir a cultura brasileira.

LEIA: A mesóclise de Temer é uma ferramenta de exclusão

Eu gosto muito da nossa língua. Tenho algumas gramáticas em casa, dicionários, livros sobre as origens das palavras. Quando morei nos EUA e na Inglaterra, sentia muita falta de ouvir a nossa língua. Ela é dos poucos traços comuns a todos os habitantes deste país tão grande, diverso e desigual. A nossa variante da língua se confunde com a identidade nacional – sempre brinco com amigos portugueses, dizendo que um dia gostaria de entender a língua que eles falam...

É nessa chave que eu leio tanto o texto do Ratier quanto as críticas que foram feitas a ele. Quando falamos da língua portuguesa, estamos debatendo não apenas a mesóclise, mas poder e identidade nacional. Por isso que a discussão pega fogo, como aconteceu nas reações ao artigo. A língua, nosso raro traço comum, pode ser tragada para a guerra de facções que domina as mentes brasileiras ultimamente. Por isso que vocês, professores, têm um papel fundamental. Ao ensinar bem português, vocês cultivam alunos livres e, de quebra, protegem nosso raro patrimônio comum do redemoinho de insensatez em que estamos metidos. Já explico. Vamos nessa?

Mesóclise e exclusão

Concordo em partes com o texto de Ratier. Não conheço as intenções do presidente Michel Temer, mas também me incomoda o uso de mesóclise – e de qualquer outra forma da língua que crie barreiras desnecessárias entre as pessoas. Acredito que todos os brasileiros com cargos públicos têm a obrigação de se fazer entender, do interior gaúcho à periferia de Macapá. Parafraseando meu professor Simon, políticos devem ser compreendidos por todas as pessoas que pagam o salário delas.

Na prática, poucas pessoas entendem e sabem usar mesóclises e mais uma série de outros itens, do básico ao avançado, da língua portuguesa – incluindo uma grande parte da nossa elite. Já li muitos textos de advogados e juristas cheios de rebuscamento linguístico, mas com erros banais de vírgula e crase. O sujeito e o predicado, com triste frequência, são violentamente separados por vírgulas cruéis dentro de palacetes recheados de “sê-lo-ia” e “excelso pretório”.

O filósofo francês André Comte-Sponville tem um belo livro chamado “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”. Ele lista uma série de qualidades e atributos (prudência, temperança, honestidade, coragem) e estabelece conexões muito interessantes entre elas e uma vida melhor, mais interessante e plena. Porém, ele toma um cuidado. Ele não transformou o “Pequeno Tratado” num conjunto de normas duras nem num corolário de culpa. Em vez de chamar você de medroso, ele mostra a força da coragem. Além disso, ele faz um esforço deliberado para explicar conceitos complicados. O destaque, quanto a isso, é na virtude chamada “simplicidade”.

Ele faz uma distinção entre simples e simplório. Simplório é baratear algo que tem um grande valor. A simplicidade não faz isso. Ela procura a justa medida, sem precisar de falsos ornamentos. Uma grande árvore, por exemplo, não precisa de luzes de Natal para ser bonita – a sua força está justamente no seu tronco, nos galhos, no formato das folhas, na sua simplicidade. O mesmo padrão se aplica à língua.  Machado de Assis, no clássico “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, escreveu: “Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar...” Nada sobra, nada falta.

Machado era um grande praticante da simplicidade. Seja nos seus livros de literatura, seja nas crônicas que escrevia, um dos nossos maiores escritores era cristalino – para os padrões da sua época. Hoje, claro, é mais difícil passar por seus livros sem um dicionário – e ele não tem culpa nenhuma disso. Escreveu numa determinada época, em que o português era muito diferente do que falamos hoje. Guimarães Rosa é outro exemplo. Em alguns dos seus primeiros escritos, ele cedeu ao falso rebuscamento. Mas só escreveu sua maior obra “Grande Sertão: Veredas” quando foi buscar a simplicidade da língua falada, inventada e vivida no interior de Minas Gerais. Temer faria um grande bem a si e ao país se adotasse a simplicidade nos hábitos linguísticos, assim como os nossos maiores escritores.

Porém, discordo de um ponto central do argumento do texto de Ratier. Não acho que a mesóclise de Temer seja um instrumento de exclusão. Ela é apenas um item da língua. Por isso, entendo a crítica de vários professores, quando eles dizem que as pessoas precisam aprender o português total. O que exclui não é a mesóclise, mas a falta de conhecimento sobre a língua – que é gigantesco, mesmo entre as pessoas mais bem-educadas. Alguns currículos e e-mails são absolutamente incompreensíveis. Muitas vezes, o texto de um candidato a uma vaga de emprego denuncia a má formação que ele ou ela teve ao longo da vida. Um pronome torto tem consequências. Muitos alunos brasileiros são privados de oportunidades porque não tiveram boas lições de português.

Sabendo que Ratier é um grande defensor da língua portuguesa, li seu texto como um ataque às falsas barreiras de comunicação e, de quebra, ao preconceito linguístico. Porém, muitos dos críticos do meu colega de NOVA ESCOLA entenderam que ele estava querendo transformar a língua numa coisa simplória, barata. Longe disso, sou testemunha. De todo modo, um texto também é a multiplicidade de interpretações feitas sobre ele. O texto de Ratier colocou NOVA ESCOLA na mesma posição em que muitos professores estão, todos os dias – e isso é muito bom. Construir conhecimento também é contestar o interlocutor – seja jornalista ou professor.

O diálogo entre o texto de Ratier e os seus leitores deixou algumas verdades muito cristalinas. Sim, língua é poder. Sim, não é fácil democratizar esse poder. Sim, muitas pessoas vão usar a língua como ostentação. O ponto é: como a gente quebra esse ciclo? Como a gente dilui o poder da língua? Ensinando muito bem a língua. É o português para a liberdade. 

Autonomia linguística

Ensinar a norma culta da língua portuguesa é uma forma de democratizar o poder. Ao explicar a conjugação dos verbos e as origens da mesóclise, professores ajudam os alunos a ter autonomia na vida. Além de aumentar as chances na hora de conseguir um trabalho, a norma culta também protege as crianças e adolescentes, especialmente os mais pobres, dos abusos de gente que gosta de humilhar e submeter os outros a seus caprichos. Infelizmente, apontar a fraqueza linguística ainda é uma ferramenta comum de violência país afora. E tem mais.

Quando conhecem todas as potencialidades do português, os alunos podem fazer escolhas conscientes sobre seu uso – inclusive sobre como subverte-lo. Guimarães Rosa é um grande exemplo disso entre os nossos maiores escritores. Fora do Brasil, James Joyce pode levar o inglês ao seu limite porque conhecia o idioma com maestria.

Na sala de aula, os professores têm um grande desafio. Eles precisam ensinar a norma culta para dar vazão a todo o potencial dos seus alunos. Porém, a maior parte dos nossos educadores precisa criar um terreno de empatia com pessoas oriundas de famílias com pouco ou nenhum contato com livros, em condições muitas vezes precárias de aprendizagem. Entendo o desespero de muitos de vocês, educadores, que tentam todos os dias democratizar o poder da língua.

Não há caminhos simples para fazer isso, mas há o famoso bom senso – que é uma das virtudes elencadas por Comte-Sponville no livro que citei parágrafos acima. A mais óbvia, me parece, é não criar barreiras artificiais entre você e seus alunos, usando palavras incompreensíveis ou que vão intimidá-los. A segunda é compartilhar com eles a paixão que você sente pela língua, mostrando como o nosso idioma foi mudando, se enriquecendo, ao longo dos anos. Por fim, vale mostrar tudo que um bom português pode fazer por eles na prática – no Whatsapp, no livro que gostariam de escrever, no currículo que um dia eles vão mandar. A aliança entre pontes, amor e prática pode ter um impacto gigantesco na forma como você ensina – e como eles aprendem. Português com sentido é apaixonante, como me ensinaram as professoras de português das escolas em que estudei.

Quando isso acontece, a mesóclise pode se tornar o que ela de fato é. Apenas um detalhe, um entre inúmeros recursos que a nossa língua tem para comunicar tudo o que pensamos e sentimos. Ela pode ser usada com ironia, pode ser usada com seriedade – mas sempre com intenção. O poder da ostentação se esvai quando ele não serve para mais nada.

Tem alguma experiência para compartilhar? Algo para dizer? Comente ai ou me escreva no leandro@novaescola.org.br Afinal, língua é liberdade.

* As opiniões do autor deste artigo não refletem necessariamente o ponto de vista de NOVA ESCOLA

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