É lindo ver uma criança errar
Por trás dos equívocos da fala, há uma mente que trabalha para entender como funciona a língua
13/06/2017
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Jornalismo
13/06/2017
“Qué peteta [chupeta]”, dizia Luiza, cerca de um ano atrás, ao completar seu primeiro aniversário. “Eu fazi cocô na pivada”, celebra hoje, aos 2 anos e 4 meses, cada vez que cumpre com sucesso esse importante desafio. “Olha ali o 4 e o 2”, afirma, empolgada, ao identificar as letras A e S no texto de um livro.
Eu e Marina sempre nos divertimos com esses erros. Não por escárnio, mas com encantamento. É lindo ver nossa filha refletindo tão intensamente para entender como funciona a língua. Seus equívocos – os de qualquer criança, evidentemente –, são hipóteses acerca das regras e regularidades de como se fala e escreve.
A psicolinguísta Bénédicte de Boysson-Bardies, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, em Paris, dá a medida desse maravilhamento. “Mesmos os estetas mais blasés deveriam ficar estupefatos diante da extraordinária engenhosidade e da eficácia do sistema que, nos bebês, preside a aquisição da linguagem.” O trecho está no original em francês do artigo Como a Fala Surge na Criança. A versão em português é mais formal e menos poética. Ambas, porém, contêm a mensagem principal: “A criança é um pesquisador nato”.
Uma interação entre genética e ambiente
Difícil discordar. O que nos deixa de boca aberta, segundo Bénédicte, é o resultado de uma interação. De um lado, as características inatas do bebê, que tem no cérebro um mecanismo de precisão para apreender línguas. De outro, o meio que o circunda, com tudo o que os adultos falam entre si e aos pequenos.
A percepção desses estímulos externos pelo kit genético da criança permite que ela compreenda características fundamentais sobre a língua. Destaco duas. A primeira é sua estrutura fonética e prosódica, que diz respeito à emissão de sons, entonação e pronúncia. A segunda é a constatação de que existem palavras. Para dizer de outra forma, o bebê percebe que há uma ligação entre sons e sentidos.
O “Qué peteta” contempla essas duas características. Com 1 ano, Luiza sabia que, ao dizer "peteta", estava se referindo a um objeto concreto, que ela desejava (“qué”) para si naquele momento.
Já a sequência silábica que ela escolheu representa a imitação possível, com as sílabas que ela conseguia pronunciar, do objeto que os adultos chamam de chupeta. Por volta de 1 ano e meio, ela chegou à pronúncia padrão. Confesso que ficamos um pouco nostálgicos...
Se “fazer” fosse regular, ela estaria certa
O “Eu fazi cocô”, por sua vez, é um exercício de outra ordem. No caso, o da busca pelas regularidades da língua. A maioria dos verbos terminados em “er” se conjuga de maneira semelhante. Para o pretérito perfeito, a regra, na primeira pessoa, é “Eu + radical + -i”. Luiza se apoiou na semelhança com outros verbos que ela domina bem: comi, bebi, corri, bati.
O diabo é que “fazer” é irregular. Aliás, extremamente irregular. Dependendo do tempo verbal, o radical "faz-" se transforma em “fiz-”, “faç-” ou “far-”. “Eu fiz” ainda não veio para Luiza. Mas ela já entendeu que alguma coisa não encaixou direito em seu “fazi”. Já a escutamos falar “Eu fazeu” e “Eu fez” – nesse último caso, respondendo à nossa pergunta: “Você já fez cocô?”
(A propósito: nós não a corrigimos. Quando há contexto, falamos a forma adequada e observamos o que acontece. Outro dia, ela comentou: “Eu adoro coraçãos”. Marina completou: “Eu também adoro corações”. Luiza, em seguida, repetiu o que a mãe disse.)
Por fim, “Olha ali o 4 e o 2” exemplifica a entrada no mundo da escrita. Há alguns meses, Luiza entendeu que números e letras são diferentes das figuras. Quando pega um livro nas mãos, às vezes reconhece símbolos que, para ela, são familiares.
O 4 é o andar em que moramos. É o número que ela aperta o tempo todo na botoeira do elevador. O 2 é a idade que ela enfatiza com orgulho ao afirmar que já é uma menina grande. Às vezes, ela confunde os sinais. Novamente, há lógica na confusão. O A é o 4 com uma perninha a mais. E o S é o 2 espelhado.
Numa de suas pesquisas iniciais, Piaget afirma que toda reflexão é produto de uma discussão interior. E de uma discussão que leva a uma conclusão. Poucas coisas demonstram tanto essa constatação quanto os avanços de uma criança na compreensão da língua. Essa evolução, hoje sabemos, não cessa até o fim da vida.
Mas chega um certo momento em que paramos de ver graça nesse exercício mental maravilhoso. Com os adultos, o que era gracioso passa a ser rotulado como erro. A paciência é substituída pela ironia. Ou pela rudez. Não há nada de natural nessa mudança, que faz vítimas sobretudo entre pessoas de classes populares. Não à toa, são as que tiveram menos oportunidades de contato com a norma culta ao longo de suas vidas.
Isso tem um nome bem claro. Chama-se preconceito linguístico. Será assunto para nossa conversa na semana que vem.
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