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Uma noite com o Escola Sem Partido

Ofensas, ódios e memes no debate sobre doutrinação na Educação

POR:
Rodrigo Ratier

São confortáveis as cadeiras de couro azul do plenário Primeiro de Maio. Acolchoadas e parcialmente reclináveis, acolhem os 55 vereadores da Câmara Municipal de São Paulo. O local é palco de votações, de CPIs e das principais reuniões do parlamento paulistano. Na noite amena de outono em 22 de maio, o espaço tem outros ocupantes. Uma audiência modesta se reúne para o encontro aberto do movimento Escola Sem Partido (ESP).

A atividade é liderada pelo vereador Fernando Holiday (DEM-SP). A mesa de convidados é 100% masculina. Além do próprio Holiday, alternam-se cinco vereadores simpáticos ao projeto; um filósofo; o coordenador nacional do MBL, Kim Kataguiri; e o advogado Miguel Nagib, coordenador do ESP. Ao microfone, Holiday repetiria que críticos do projeto, “inclusive vereadores e deputados do PSOL”, foram “convocados”, mas declinaram. Como ocorre na maioria das discussões puxadas pelo ESP Brasil afora.

ENTENDA: 14 perguntas e respostas sobre o Escola Sem Partido

Na plateia também há muito mais homens que mulheres: 37 a 10 no início das atividades, 42 a 12 uma hora depois. A maioria é jovem, na casa dos 20 aos 30 anos. Há pelo menos dois secundaristas e duas pessoas mais velhas que, mais adiante, se apresentam como educadores. Eles fazem parte de um grupo de cerca de dez pessoas, de maioria negra, contrárias ao projeto. O resto do plenário é dos simpatizantes.

“Eles devem odiar vocês”

O Primeiro de Maio tem quatro fileiras semicirculares. Me esparramo na última. Meu vizinho de cadeira se apresenta como pós-doutorando da USP. Seu objeto de estudo é o discurso do Escola Sem Partido. “Jornalista?”, ele pergunta. Confirmo e falo de NOVA ESCOLA. “Nossa, eles devem odiar vocês.” É provável, respondo. Me vem à mente um comentário de Nagib sobre nossa reportagem do Escola Sem Partido (“É tanta impostura, desinformação e má-fé que meu estômago travou”). Digo que estamos ali para conhecer melhor o pensamento dos militantes. Ele concorda, e voltamos a atenção para a mesa diretora.

No púlpito está o vereador Eduardo Tuma (PSDB-SP). Ele é coautor do projeto que tenta instituir o ESP na rede pública paulistana (o outro propositor é Holiday). Minutos antes, ele se divertia disparando a campainha do plenário e fazendo photobomb numa entrevista de Holiday. Pós-doutorando em Direito na Universidade Sorbonne, em Paris, Tuma diz que o ESP visa apenas obedecer a “Lei de Diretrizes Básicas” de “cada município”, legislação que não existe. A necessidade do projeto ganha um exemplo narrado de memória. Um material didático “editado pelo governo petista” em que Fidel e Che surgem como “exemplos de estadistas e oradores, com toda a questão do comunismo e socialismo”.

“Quem nega a doutrinação deve ser excluído do debate”

Tuma não ficou para a exposição de Miguel Nagib. Pai do ESP, Nagib é o principal responsável pelo conteúdo do projeto e pelas estratégias de defesa. Seu discurso em tom indignado traz expressões que seriam repetidas, ao longo da audiência, por outros simpatizantes. O sistema educacional é instrumento de “engenharia social e propaganda política e ideológica”. Alunos são “audiência cativa vulnerável”. Educadores são “militantes travestidos de professores”. A teoria de gênero é “ideologia”, “lavagem cerebral”, “uma violência”. A doutrinação, enfim, é “evidente”, “círculo vicioso” que precisa ser interrompido.

Debate sobre o Escola sem Partido na Câmara Municipal de São Paulo (Foto: André Bueno / CMSP)

Na ausência de pesquisas científicas que comprovem a existência da doutrinação nas escolas, a apresentação recorre a relatos individuais – “flagrantes”, no vocabulário do movimento. “São toneladas”, segundo Nagib. Seu Powerpoint traz quatro casos. Três são de alunos pedindo “fora, Temer”. O quarto é um áudio de um professor que opõe o projeto de poder da Globo ao do PT. O episódio é da rede privada – não coberta pelo projeto do ESP, como o próprio Nagib admitiria mais adiante. No momento em que o exemplo é apresentado, no entanto, o professor é chamado de “molestador” e “predador de crianças”.

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O ESP existe desde 2004. Treze anos de estrada levaram o movimento a ampliar o arsenal argumentativo. Na parte em que rebate críticas ao projeto, Nagib apresenta outras armas:

- A desqualificação dos opositores: “Quem quer que negue a evidência da doutrinação deve ser imediatamente excluído da discussão. Essa pessoa não é honesta, está agindo de má fé”;
- O apelo ao juízo moral: “Negar que uma criança seja vulnerável é tentativa de minimizar a feiúra moral da doutrinação. Não podemos aceitar esse argumento safado, canalha”;
- Ainda na questão da vulnerabilidade infantil, a comparação da suposta doutrinação com o universo criminal: “Negar a vulnerabilidade é fazer como fazem os estupradores. Para minimizar a culpa, eles dizem que a garota estuprada não é tão inocente como parece”;
- A criação de paradoxos: “Como alguém pode se opor ao Escola Sem Partido e ao mesmo tempo dizer ‘não’ à redução da maioridade penal?”;
- O determinismo: “Esses professores que gritam o ‘Fora, Temer’ em sua formatura irão ensinar seus alunos a gritar o ‘Fora Temer’ da vez”;
- A premissa supostamente constitucional: “Como alguém pode ser contra se o projeto apenas expõe diretos que já existem na Constituição Federal e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos?” (em 22 de março, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional uma lei alagoana inspirada no Escola Sem Partido).

“Fascistas vermelhos que não aceitam o contraditório”

A apresentação do advogado é a primeira a mexer com a plateia. Seu discurso recebe aplausos dos simpatizantes e provoca mal-estar entre os críticos. “Meu Deus”, repete uma professora, levando as mãos à cabeça e comentando em voz alta detalhes da exposição.

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A fala de Kim Kataguiri é mais provocativa. Repetindo Nagib no apelo à moral – “Quem diz que o projeto é inquisição na prática ou não o leu, ou leu e não entendeu ou é mau caráter” –, menciona a “falta de respeito” dos professores que se manifestaram na “exposição didática nada agressiva” do coordenador do ESP. Partidariza a discussão (“Se vocês quiserem falar, chamem representantes do PSOL e do PT que se recusaram a vir por covardia”) e eleva o tom: “Vocês não conseguem ouvir o doutor Miguel Nagib porque são intolerantes. São fascistas vermelhos que não aceitam o contraditório”.

Fernando Holiday (à esquerda) , Miguel Nagib (segundo a partir da esquerda) e  Kim Kataguiri (de gravata)  com outros simpatizantes do Escola sem Partido logo após debate na Câmara de São Paulo (Foto: Kim Kataguiri / Facebook)

A fala gerou dois vídeos editados na página do MBL. Títulos: “Mau-caratismo!” e “Kim Kataguiri da [sic] aula de democracia aos fascistas vermelhos que são contra o projeto Escola sem Partido”.

Os opositores mordem a isca. Gritam para que Kim discuta o projeto e aplaudem ironicamente. Interrompem o coordenador do MBL, que responde a uma professora: “Está vendo como você é intolerante, como você é fascista?”.

“Já fui democrático o suficiente”

O bate-boca se instaura, Holiday dispara a campainha e pede para parar a briga. A guarda municipal se aproxima e Kim completa sua fala. Já é hora de a audiência se manifestar. A impressão é de um diálogo de surdos. Oito expositores contrários enfatizam que a escola tem outros problemas, reais e mais graves (infraestrutura, falta de merenda, baixos salários) e de que o ESP demoniza o professor. Sete simpatizantes dão testemunhos pessoais do que consideram doutrinação. Dois deles, autodeclarados moradores da periferia e ex-alunos de escolas públicas, parecem seguir o script desenhado pelo vereador Holiday – negro, pobre, homossexual... e conservador. Os exemplos questionam o monopólio da esquerda nos discursos das classes populares.

Quando Holiday anuncia o fim das falas, os opositores chiam. Dizem que os dois últimos expositores – ambos simpatizantes do ESP – não estavam inscritos. Novo bate-boca. “Podem reclamar à vontade”, diz Holiday. “Já fui democrático o suficiente ouvindo a todos os senhores. Se continuarem insistindo, vou ser obrigado a chamar a GCM para manter a ordem.”

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A confusão aumenta. Um professor se aproxima da mesa aos berros. Pede para falar. Militantes do MBL e do Escola sem Partido filmam a cena. “Chora mais!”, grita um deles. Holiday grita: “Por que não se inscreveu quando eu abri a inscrição? Se são incompetentes até para se inscrever, agora respeitem quem está na tribuna! Vou abrir a inscrição para mais um!”. Já mais calmo, completa: “Vou pedir que respeitem a fala, isso daqui não é o diretório do PC do B”.

“Can't Touch This”

A sessão já passa das 2h30 de duração quando Kim Kataguiri parte para as considerações finais. Em seis minutos de fala, dedica-se a rebater opositores, citando-os pelo nome. A impressão é que o coordenador do MBL não participa do debate para debater. Participa para ganhar – ou, ao menos, mostrar nas redes sociais que ganhou.

Fiel ao hábito, o MBL postou no dia seguinte uma versão editada da fala de encerramento: “Professor pró-doutrinação é desmascarado por Kim Kataguiri”. Tudo termina com um avatar do coordenador do movimento e simpatizante do ESP dançando ao som de “U Can't Touch This”, de MC Hammer. Àquela altura, o plenário já esvaziava. No Primeiro de Maio, no dia 22, ninguém ganhou.

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