Secretário de SP explica corte de brinquedotecas: “É melhor tirar a criança da rua”

Secretário municipal de Educação afirma que tirar brinquedotecas e salas de informática e de leitura foi necessário para diminuir a fila das creches em São Paulo

POR:
Caroline Monteiro
Foto: Shutterstock

No começo de maio, o prefeito de São Paulo, João Doria, divulgou uma medida que gerou bastante discussão entre educadores, gestores e membros da comunidade escolar. Para gerar mais vagas na pré-escola, Doria transformou brinquedotecas de escolas públicas em salas de aula, criando 2.077 novas matrículas, segundo a secretaria de Educação da capital paulista. A rede mexeu em 33 EMEIs, de um total de 558 escolas.

A decisão não veio sem polêmica. A gestão municipal foi acusada de priorizar a quantidade de alunos inseridos nas escolas em vez de valorizar a qualidade da Educação. Especialistas afirmam que os espaços de leitura e as brinquedotecas são insubstituíveis e fundamentais para a aprendizagem e o desenvolvimento integral das crianças. Desativar espaços de lazer seria uma forma de tratar os alunos com descaso e também reduzir a importância das brincadeiras e das atividades de lazer.

Para entender os motivos da mudança e saber quais serão os próximos passos da secretaria, NOVA ESCOLA conversou com Alexandre Schneider, secretário municipal de Educação.

Como foi a readequação das salas de apoio pedagógico na rede municipal de São Paulo?

Foi uma mudança que a gestão anterior também fez. A gente trabalhou com 33 escolas, contra 71 na gestão anterior, que terminou no final do ano passado. Apenas sete dessas escolas ficaram sem nenhuma sala ambiente. Mexemos em 11 salas de informática, cinco salas de leitura e três brinquedotecas.

Como elas foram escolhidas?

Nós tínhamos mais de 10 mil crianças fora da pré-escola no começo do mandato. Escolhemos as regiões com maior demanda de vaga e criamos 2.077 novas matrículas com a readequação das salas de apoio. Ao todo, foram criadas 74 turmas em dois turnos diurnos de seis horas.

Educadores disseram que não houve diálogo. A comunidade escolar foi consultada?

Toda decisão foi tomada em conjunto com as diretorias regionais. Houve, sim, consulta e conversa com as escolas. Sempre é uma decisão muito difícil. A gente estava com 10 mil crianças fora da sala de aula e tem a obrigação de estar com todas matriculadas. A grande questão era: como fazer isso sem ter escolas novas ou novas salas e sem risco de algum problema na Justiça? Então a gente conversou com as escolas. As diretorias regionais foram orientadas a fazer uma discussão, e isso foi feito. Mas nem as escolas nem nós ficamos contentes com a readequação. É uma escolha: entre a criança estar fora da escola e entre poder estar com ela trabalhando pedagogicamente, é melhor ter ela na escola.

Alexandre Schneider, secretário municipal de Educação de São Paulo (Divulgação / Prefeitura SP)

Por que a secretaria não ficou satisfeita com a readequação?

Porque isso gera discussão. É natural que a escola onde a gente tinha a sala que era usada para um determinado ensino acabe não gostando. Isso traz estresse e críticas. Então eu não acho que a gente faz com tranquilidade, não é uma coisa que eu gostaria, mas a gente precisa fazer uma escolha. Ela vai ficar na rua? Eu não posso aumentar mais o número de crianças por sala. Mexemos em um número pequeno. A gente tem 4 mil salas na rede e a readequação foi em 20, 30 salas. Eu não gostaria de ter feito pelo estresse que tem gerado na rede, mas eu não acho que a questão da qualidade passa por você ter um espaço específico para ter livros, computadores e brinquedos. Se não, a rede não teria qualidade.

Mas os especialistas em Educação apontam que diminuir os espaços faz a qualidade da Educação cair.

A gente já tem 50% das escolas com nenhum tipo de sala de recurso; 76% não têm sala de leitura e 60% não têm brinquedoteca. O próprio projeto pedagógico diz que as tecnologias, os livros, os brinquedos estejam na sala de aula. A criança aprende a usar a tecnologia, a câmera, o tablet e o celular dentro da sala de aula, mais do que usando um computador antigo grande que fica inviável para crianças com 4 ou 5 anos de idade. Muitas das nossas escolas já trabalham dessa forma. Ou seja, metade das crianças nunca tiveram nenhuma sala desse tipo.

A gestão não está priorizando a quantidade em vez da qualidade?

O Brasil fez uma lei que obriga as crianças a estarem na escola até 2016. A gestão anterior descumpriu essa lei. Deveria ter cumprido, mas não deixou prédios suficientes. Agora vamos ver como vamos cumprir. Esse argumento quantidade x qualidade é frágil do ponto de vista pedagógico. Uma visão ultrapassada de que a criança passa cinco horas na sua sala e uma hora na sala de computador ou brinquedos. A escola pode ser organizada na linha do tempo e garantir acesso a equipamentos públicos fora da escola, por exemplo. É melhor do que uma sala que a criança usa uma hora por dia. Esse é o ponto fundamental. Alguém dizer isso é dizer que metade da rede não tem qualidade. E isso não é verdade. A rede municipal de São Paulo é uma das que tem mais qualidade no Brasil. Na cidade, as EMEIs são tão boas quanto uma escola particular. Todas as escolas têm livros, todas têm brinquedos, todas têm uma série de projetos que fazem com que a criança não fique cinco horas dentro de uma sala. É óbvio que espaços são importantes, mas a qualidade não se dá necessariamente em momentos assim.

Especialistas dizem o contrário.

Uma escola com seis salas, das quais uma é brinquedoteca e uma sala de informática. Se as crianças ficam seis horas na escola, quanto tempo elas conseguem ficar nessas salas de apoio? Menos de uma hora e nem todas vão poder ficar nessa sala. Essa é a reflexão que precisa ser feita. Mesmo com essas salas, a gente não tinha a garantia de que ela passava muito tempo na área de leitura ou na brinquedoteca. Então eu acho que você não tem que transformar todas as salas em salas de informática, porque os cantinhos existem dentro da sala de aula. Não precisam ser uma sala específica. Se a escola puder trabalhar com esses recursos dentro da sala, com áreas de leitura, uso de tecnologia, ela pode fazer isso, não tem problema algum. A criança aprende a ter um livro à mão, indo buscar, experimentando. É diferente de uma criança mais velha, com uma carteira atrás da outra, que em alguns momentos saem para ler, para poder usar o computador ou para ler um livro.

Se poucas escolas tinham essas salas de apoio, a gestão não deveria aumentar, em vez de diminuir o número?

Aumentar em que nível? É impossível ter metade da escola com esses espaços. Muitas escolas privadas não têm essa biblioteca, sala de leitura etc. Você pode ir numa escola da Vila Madalena [bairro de classe média-alta da Zona Oeste de São Paulo], em que os pais pagam uma fortuna, e ela não vai ter necessariamente esses espaços. A nossa readequação traz um ganho extraordinário. As crianças estão na escola, não estão na rua. Isso é mais prioritário do que colocar esses recursos nas escolas. Na rede, a gente tem casos de escolas que já trabalham assim, em que a criança não fica o tempo inteiro na mesma sala, não há uma sala própria onde a criança vai estar. São várias possibilidades pedagógicas na faixa etária. Isso significa que ter uma sala de arte é ruim? Não. Mas isso não quer dizer que é imprescindível. É um paradigma que precisa ser enfrentado.

Foto: Shutterstock

Outras escolas terão seus espaços readequados?

Não. Hoje a gente está trabalhando para não mexer mais. A princípio, a readequação está encerrada. Os próximos passos é continuar levando materiais de todo tipo, como brinquedos e livros, e enriquecer esse acervo com materiais de uso de tecnologia que tenham sentido para crianças de quatro anos.

Qual o tamanho da fila atualmente?

Temos 400 crianças na fila e estamos trabalhando para matricular o restante o mais rápido possível.

Quando ela será zerada?

Ainda não tem prazo para zerar essa fila.

Quais foram as outras medidas para criar mais vagas?

Nosso maior trabalho foi de organizar a demanda. Conseguimos 2.077 vagas na readequação das salas, mas conquistamos 7 mil vagas fazendo um trabalho de endereçamento mais próximo de casa, com transporte escolar, isso fez a gente gerar um número de matrículas grandes.

Quais são as metas da secretaria para a gestão?

Nossas prioridades para os quatro anos de mandato são zerar a fila, diminuir o número de alunos por sala e ampliar o tempo do aluno na escola. Em algumas regiões da cidade, a gente precisa diminuir o número de alunos por sala. É um próximo ponto que a gente vai fazer com um novo plano de obras.

A criação de mais salas de apoio não está, então, nas prioridades desta gestão?

Estamos desenhando plano de obras para criar mais vagas em pré-escola, não só para que a gente tenha melhor atendimento da demanda, mas também para diminuir o número de alunos por sala. Com mais obras, a gente consegue mais espaço. Agora, uma coisa não exclui a outra. O primeiro movimento é aproveitar essas experiências que existem – de uso de tecnologias, brinquedos e livros dentro da sala de aula – como modelo. O próximo objetivo da secretaria é construir novas unidades, diminuir o número de alunos por sala. Mas isso não significa ser contra ou a favor desses espaços. Não é preto ou branco. Não é dizer que as salas não servem para nada. É dizer que é possível ter trabalho de qualidade mesmo sem elas.

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