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Saúde mental: qual meu papel enquanto professora?

Ao longo da carreira, muitas situações e vivências me fizeram refletir e chegar à conclusão que precisamos cuidar da saúde mental

POR:
Mara Mansani
Crédito: Mariana Pekin

Nu
nca se falou tanto da saúde mental e inteligência emocional das nossas crianças e adolescentes. Muito antes de “Baleia Azul” ou “13 Reasons Why”eu - como muitos outros professores - venho me preocupando com isso porque nos deparamos, em sala de aula, com diversos casos e situações difíceis que revelam problemas emocionais e sofrimento de nossos alunos. Eles exigiram de mim um preparo que não tive em minha formação como professora.

dez anos, havia em minha turma uma menininha de sete anos que não falava, apesar de não ter nenhum problema físico que justificasse o fato. No primeiro momento pensei que era timidez, já que era a primeira vez que ela frequentava a escola e morava em zona rural, mais afastada do convívio social. Mas  ao conversar com a mãe, descobrimos que ela presenciava violência doméstica e, por isso, tinha medo de tudo. Como fiquei mal e triste com tudo aquilo! Apesar de fazermos o pedido de encaminhamento psicológico, a mudança daquela situação dependia de muitos outros fatores que não estavam em nossas mãos. Ao que cabia a mim, em sala de aula, me desdobrei em atenção a ela ( que foi alfabetizada e era excelente aluna ) , mas nunca ouvi sua voz, apesar de vê-la sorrindo ao participar de nossas cantorias, sem mesmo abrir a boca. Lembrei disso o utro dia, quando ouvi um psiquiatra falar que muitas vezes é na escola, nas aulas, que a criança encontra refúgio e segurança contra o sofrimento que a cerca.
 
Ao longo da carreira, muitas situações e vivências me fizeram refletir e chegar à conclusão que precisamos cuidar da saúde mental. Mas qual o meu papel enquanto professora, no sentido de ajudar os alunos, já que não sou profissional da área médica?

Registro da nossa viagem ao SXSWEdu, em Austin, nos Estados Unidos
Quando participei da SXSWEdu, em Austin (no Texas, Estados Unidos), tive a oportunidade de ouvir e aprender com o palestrante Ross Szabo , criador de um i nstituto de saúde mental que apoiou e tratou de mais de mil alunos. 15 anos depois , ele conseguiu contribuir e implantar o tema no currículo escolar e criou um programa que treina e ap o ia os docentes n os diagnósticos dos estudantes para que sejam encaminhados a os profissionais adequados . Penso que esse é o caminho! Que o assunto possa fazer parte da formação inicial e continuada dos professores, além d a E ducação emocional poder integrar os currículos escolares desde muito cedo na Educação I nfantil.
 
Ainda na SXSWEdu, encontrei a brasileira Tonia Casarin, mestre em Educação e autora deTenho Monstros na Barriga”. Esse livro explora as emoções de forma clara, falando diretamente com as crianças, por meio do personagem domenino Daniel. As crianças se identificam e é uma ótima maneira de introduzir o tema emoções e dar voz aos pequenos.

Levei o livro para sala de aula, li para meus alunos, explorei suas propostas e fiz descobertas incríveis sobre como estão emocionalmente e como se sentem em determinadas situações. Foi uma ótima prática de explorar a emoção em sala. As crianças agora pedem para ler sempre, pois a necessidade de se falar sobre as emoções é toda hora. Complementei com rodas de conversa e conversei com pais sobre esses resultados. Valeu demais!
 
Aliás, falando em pais, recomendo a eles e a todos os professores um episódio do programa Café Filosófico, do Instituto CPFL, “Melancolia na infância”, com Julieta Jerusalinsky (que você pode acessar aqui). Como primeira reflexão, ele traz o questionamento: há lugar para a tristeza na infância?” e diz: geralmente tendemos a idealizar como uma época cheia de vivacidade em que um estado de permanente criatividade impediria qualquer manifestação de tristeza. No entanto, encontramos crianças que se sentem profundamente entediadas, sem curiosidade ou tempo para inventar diante de suas agendas cheias ao submeter às crianças a um pragmático princípio de super equipá-las para o futuro. Em uma permanente produção maníaca de ofertas de informação e de consumo, pode-se estar tirando delas algo fundamental: o encontro com um certo vazio e uma certa tristeza que fazem parte da vida e que são necessários para poder desejar e inventar. Ao querer poupá-las de toda e qualquer tristeza podemos deixá-las assoladas pela melancolia”. Esse programa foi esclarecedor e valeu como estudo, formação e reflexão sobre a infância. Recomendo!
 


Atualmente, e
stou vivendo em minha escola uma experiência bem diferente, nova e diria até, de certa forma, desconfortável, mas que com certeza me auxiliará enquanto professora: as terças, nossa instituição é tomada por 20 estagiários do último semestre de psicologia da Universidade de Sorocaba (UNISO) com orientação presencial da professora mestre em Educação, Walquiria Regina Ramires Miguel. Eles estão presentes em todos os ambientes, observando e fazendo anotações em sala de aula, na sala dos professores, no pátio durante os intervalos escolares, nas reuniões, na secretaria... Confesso que, inicialmente, me senti desconfortável com a presença deles, mas em nossas reuniões pedagógicas conversamos sobre isso. Pude, então, compreender que isso resultará em uma parceria única, entre escola e universidade, com a proposta de melhorar nossa convivência, auxiliar nossos alunos, fortalecê-los emocionalmente e, se preciso, encaminhá-los a uma ajuda médica.
 
Nessa primeira etapa foram feitas as observações gerais, coletado nossas opiniões e sugestões de soluções de alunos e funcionários para um bom convívio. Também haverá o momento de conversas com os pais. Nas reuniões pedagógicas com a presença da equipe da UNISO, já venho aprendendo sobre como lidar com o tema emoções em sala de aula. O próximo passo será a apresentação e implantação de um projeto de Educação emocional em nossa unidade. Estou ansiosa por esse momento. Já passou da hora de encaramos esse tema de frente! Em 31 anos como professora é a primeira vez que vejo e participo de um projeto desse em uma escola.
 
E nas escolas de vocês, queridos professores? O que anda acontecendo em relação à Educação emocional? Conte-nos aqui nos comentários!
 
Um grande abraço,
Mara Mansani

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