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Paulo Freire ontem, hoje e amanhã

Professores e especialistas comentam a relevância da obra de Paulo Freire para a Educação brasileira e a herança que acreditam que ficará para as gerações futuras

POR:
Laís Semis

Colaboraram Caroline Monteiro e Raissa Pascoal


O trabalho do pernambucano Paulo Freire (1921-1997) rompeu com os padrões. Em 1963, época em que 40% da população adulta era analfabeta, ele realizou a famosa experiência em Angicos, no Rio Grande do Norte, em que se propôs a alfabetizar 300 adultos, cortadores de cana, em 40 horas de aula ao longo de 45 dias. O processo não utilizava cartilhas, mas partia do vocabulário e conhecimentos dos alunos.

Fundamentado na construção de aprendizagens a partir de referências do universo desses adultos, assumia também o papel de desenvolver a criticidade. “Ele ensinou trabalhadores analfabetos a partir da realidade e objetos do seu dia a dia, como ‘tijolo’, ‘terra’ ou ‘colheita’, para estabelecer um sentido com o que estavam aprendendo.  Parece algo simples, mas quando você pega sua própria bagagem para transformar em conhecimento – e não situações infantilizadas, como era o típico das cartilhas –, a assimilação é maior”, comenta Jayse Antonio, professor de Arte na EREM Frei Orlando, em Itambé, Pernambuco.

ONTEM
As experiências e ideias trazidas por Freire logo se expandiram pelo país. O método aplicado no Rio Grande do Norte auxiliou no desenvolvimento do Programa Nacional de Alfabetização, do qual Freire participava e tinha a meta de atingir cinco milhões de jovens e adultos no período de dois anos. Mas a Ditadura extinguiu o projeto. “Ele faz parte de uma geração de educadores que deu uma contribuição muito grande, mas a estrutura militar interditou”, lembra Luiz Araújo, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e professor de políticas públicas da Universidade de Brasília (UnB). “As produções continuaram no exterior, mas foram tardiamente reconhecidas por aqui. Paulo Freire era uma figura de expressão inovadora no momento do golpe e experimentou muito fora do país. Apesar disso, continuou pensando, em seus trabalhos, no Brasil”, pontua. Foram 16 anos de exílio e difusão de sua metodologia de ensino pelo mundo, entre os quais os países africanos de colonização portuguesa, como Guiné-Bissau e Cabo Verde.

HOJE
Para Felipe Bandoni, colunista da revista NOVA ESCOLA e professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, o título de Patrono da Educação brasileira - reconhecido em 2012 - é merecido pela relevância de suas ideias para o contexto nacional. “Além de serem aceitas mundialmente, elas são aplicáveis, especialmente no Brasil. Sua obra é abrangente e certeira ao diagnosticar as questões e realidade nacionais. Acho que não tem outro nome de educador brasileiro que se equipare ao dele”, diz. Em um levantamento realizado por Elliott Green, professor associado da London School of Economics, a obra “Pedagogia do Oprimido” é a terceira mais citada nos trabalhos de ciências humanas do Google Scholar, ferramenta de pesquisa acadêmica do buscador, sendo o autor o único brasileiro entre os 25 mais citados.

Além disso, o pensador se preocupava que o conhecimento fosse a chave de transformação e empoderamento daqueles adultos. “Ele se preocupava com a educação de todos, e com uma educação que fosse libertadora, que não deixasse as pessoas no mesmo lugar que elas estavam. E isso é pedagogia, é levar para outros lugares”, afirma Maria do Pilar Lacerda, educadora e ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). As discussões trazidas por ele também parecem que nunca estiveram tanto em pauta na Educação. “A posição humanística é, com certeza, o ponto mais transformador de sua obra”, completa.

Bandoni destaca que suas obras colocam a escola em um contexto social e como fruto de forças políticas. “O que é um tema muito relevante hoje até mesmo pensando em movimentos como o Escola Sem Partido. Muitos encaram a escola como neutra, à parte da sociedade, como se nada de fora respingasse dentro dela. É uma visão muito equivocada da escola. Ele questiona o neutro e esse posicionamento por parte do educador”, aponta o professor da EJA.

Jayse inclui na lista dos debates atuais a Educação baseada no protagonismo, com aprendizado conectado à vivência e com o aluno buscando seu próprio caminho. “Ele já dizia isso há muito tempo. Essa influência também se reverberou em muitos professores. Eu, por exemplo, no dia a dia da sala de aula, busco trazer o aluno para esse lugar de protagonismo dentro de tudo que é proposto”, afirma. Luiz Araújo relembra que até então, o pensamento era de que o aluno não tinha nenhuma contribuição para dar no processo de aprendizagem e Freire os coloca em foco. “Ele fez uma ruptura com a pedagogia tradicional, que vinha desde a época dos jesuítas. Mexeu não apenas com o campo teórico, mas experimentou sua inovação. Criou um novo método, uma nova postura, e mostrou como fazer”, considera. A própria conexão da aprendizagem com a vida real, como foi feito em Angicos, é uma necessidade trazida pela escola hoje.

AMANHÃ
Hoje, suas marcas aparecem como influência em projetos inovadores. Um exemplo disso é o Scratch, uma linguagem voltada para o ensino de programação para crianças. "Muitas pessoas, quando pensam em ensinar programação para crianças com Scratch, frequentemente pensam na parte técnica. Mas para nós, a programação é uma nova forma de organizar, expressar e compartilhar suas ideias”, conta Mitchel Resnick, pesquisador do departamento do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e criador do Scratch. “Paulo Freire não estava preocupada em ensinar as pessoas a ler só para elas conseguirem um emprego, mas ele entendia que a alfabetização faria com que as pessoas fossem capazes de entender o mundo ao redor delas e se sentir como parte dele. Nós sentimos a mesma coisa a respeito da programação. Nós pensamos que, para que você seja um cidadão completo na sociedade de hoje, você deve ser capaz de compartilhar suas ideias pelo computador", diz Mitchel. E para os educadores brasileiros, essa influência freiriana não tem perspectivas de acabar. “Eu acho que tudo o que ele falava é muito atual e nunca vai ficar ultrapassado porque ele valoriza o ser humano. Trabalhar o ser humano também favorece o lado pedagógico”, conclui o professor Jayse.

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