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31 de Julho de 2017 Imprimir
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Trabalho com projeto para criar atividades significativas para os alunos

Conheça os espaços e as experiências de duas escolas onde as crianças só aprendem se engajando em investigações e criando objetos e produtos para solucionar um problema

Por: Raissa Pascoal
Espaços das escolas NuVu Studio, em Cambridge, e Acera School, em Winchester, nos Estados Unidos

Escolas particulares nos Estados Unidos. Essa realidade é, sim, muito distante do que estamos acostumados a ver em escolas brasileiras, especialmente as públicas. Basicamente, uma instituição privada americana pode fazer o que quiser, desde pensar em diferentes formas de organizar o tempo e o espaço até redesenhar o currículo do jeito que seria mais adequado à sua proposta pedagógica. Algumas, inclusive, nem currículo têm. No entanto, nem tudo o que elas praticam está a milhares de quilômetros de distância do que professores brasileiros já fazem em sala de aula.

A NuVu Studio e a Acera School são escolas privadas na região metropolitana de Boston. Estudar na primeira custa caro e o investimento pode chegar a 30 mil dólares por ano (cerca de 95 mil reais). A segunda tem um compromisso de ser mais acessível e reduz o custo da operação utilizando material reciclável em parte das atividades e recebendo doações da comunidade -- a maior parcela do orçamento é destinada ao pagamento do salário dos professores.

O que as duas têm em comum é a orientação do processo de ensino e aprendizagem para projetos. Pelo Brasil, muitos docentes estão familiarizados com esse tipo de empreendimento:

  • O primeiro passo é definir um tema para investigar. A questão precisa ter significado para o grupo;
  • A próxima etapa é discutir sobre o assunto e encontrar caminhos para uma solução. Diferentes conhecimentos, às vezes de áreas diversas, são mobilizados nesse momento e os estudantes criam processos como a elaboração de estratégias e discussão de ideias para atingir um resultado;
  • O projeto requer a elaboração de um produto final. Tudo é feito de forma colaborativa;
  • O processo, que é o mais importante disso tudo, é bem documentado e pode gerar algo como um portfólio para a turma ou por cada aluno, além de trazer contribuições locais para aquela comunidade.

Um dos aspectos mais legais da NuVu e da Acera é como as pessoas, os conteúdos e os espaços se estruturam para dar conta de trabalhar exclusivamente com projetos. Conheça um pouco melhor o trabalho dessas duas instituições e o que é possível extrair para a realidade brasileira:

ACERA SCHOOL, em Winchester

Na escola, estudam 128 alunos em oito classes, compostas por crianças de diferentes idades. Cada turma tem um professor regente, com formação em Educação. O trabalho desse professor acontece sempre em colaboração com outros educadores, especialistas em diferentes áreas, como engenharia, arte, design e ciência da computação.

O objetivo principal da escola é manter as crianças autenticamente engajadas no que estão fazendo. Todas as atividades são definidas de acordo com os interesses delas. Para isso, os professores têm que adaptar o currículo o tempo inteiro às necessidades da turma. "Tentamos encontrar o que a criança precisa para ter sucesso", explica Stefanie Friedhoff, diretora de divulgação da instituição.

O trabalho é guiado por um tema central de pesquisa. Para uma das turmas, o deste ano é o estudo dos fungos de raízes de plantas. Para começar a investigação, as crianças receberam um estudantes de graduação do MIT e um professor de Ciências, que os ensinaram a cortar as raízes para observação. Para ver os fungos, os alunos construíram o próprio microscópio com uma webcam barata, que custou menos de 3 dólares (cerca de 10 reais), uma pequena lanterna e madeira. A classe também fez um jardim vertical e uma composteira. Conheça mais sobre a escola na galeria abaixo.

Essa realidade é muito diferente da minha, mas...

... pensar em trabalhar com habilidades e competências, em vez de apenas conteúdos, pode contribuir para a formação de estudantes preparados para lidar com diferentes desafios ao longo da vida.
... nem todo material necessário para realizar uma atividade precisa ser caro ou comprado. Recicláveis e produtos de baixo custo podem reduzir os custos de um projeto. Além disso, o que mais importa mesmo é a interação entre as crianças, que se mobilizam para encontrar soluções criativas para dar conta do problema que têm em mãos.

Conheça a Acera School, escola de Winchester, EUA Fachada da Acera School, em Winchester, nos Estados Unidos. Fachada da Acera School, em Winchester, nos Estados Unidos. Na imagem, vista da entrada da Acera School, com várias mesas grandes. Acera School (Winchester, EUA) O corredor entre as salas de aula da Acera School tem várias mesas grandes e trabalhos dos alunos expostos. Acera School. Na escola, os trabalhos ficam expostos na parede. Acera School (Winchester, EUA) Os trabalhos dos alunos da Acera School ficam expostos pelas paredes da escola Acera School. Na imagem, vemos uma sala de aula com mesas grandes e dispostas em formato de U. Acera School (Winchester, EUA) As salas de aulas são espaços abertos, com grandes mesas. Fotografia do espaço maker da Acera School. Vemos várias ferramentas Acera School (Winchester, EUA) Este é o espaço maker da escola, onde as crianças podem utilizar todo tipo de ferramenta, até furadeiras e serras. Lá, elas começam a desenvolver habilidades básicas num determinado equipamento e só partem para o outro quando dominarem o primeiro. Na Acera School, há uma sala com soldas e materiais como bateriais, LEDs, papeis. os equipamentos identificados com cartazes verdes são livres para o uso das crianças. Os que acompanham indicações amarelas precisam de supervisão de um professor para serem utilizados. Os vermelhos são restritos para uso de um adulto. Na Acera School, há uma sala com soldas e materiais como bateriais, LEDs, papeis. os equipamentos identificados com cartazes verdes são livres para o uso das crianças. Os que acompanham indicações amarelas precisam de supervisão de um professor para serem utilizados. Os vermelhos são restritos para uso de um adulto. Na foto, o cantinho da leitura da Acera School. Vemos uma estante cheia de livros e um pufe. Em cima, uma cama para que as crianças possam ler. Acera School (Winchester, EUA) Nas salas de aula, também há cantinhos de leitura, com diversos livros e assentos confortáveis para leitura

NuVu STUDIO, em Cambridge

A instituição nasceu do doutorado de arquitetura do sírio Saeed Arida, no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT, na sigla em inglês). Saeed pensou, e construiu, uma escola em que os estudantes aprendem a criar, desenvolver, testar ideias, apresentar resultados e (o mais difícil) receber críticas. A proposta é a seguinte: a cada duas ou três semanas, os próprios alunos escolhem um tema para investigar. Junto com os mentores (a escola não tem professores e os profissionais possuem diferentes formações), os estudantes discutem sobre a questão eleita, centrada num problema que eles precisam resolver. Por exemplo, como criar figurinos adaptados para atores com deficiência de uma peça teatral. Vale construir protótipos dessas roupas na oficina da escola, com diversas ferramentas disponíveis, como impressora 3D e furadeira. Ao final do período, todos apresentam o trabalho, focando no porquê fizeram o que fizeram e explicando todo o processo de elaboração.

Para dar conta de sustentar um trabalho tão aberto como esse, a escola não tem um currículo. "Nós ensinamos os estudantes a criar processos. Eles querem aprender conteúdos de diferentes áreas para construir coisas", diz o fundador. Saeed explica que a instituição é centrada em dois conceitos da arquitetutra: o entendimento das regras que controlam o mundo e a observação a partir de diferentes perspectivas. "A escola costuma focar muito nas regras, mas não nas diferentes perspectivas de olhar para um problema que você quer resolver. Para mim, é isso que falta no modelo educacional tradicional", diz.

Conheça a NuVu Studio, escola de Cambridge, EUA Espaço maker da NuVu Studio, com diversas ferramentas NuVu Studio (Cambridge, EUA) As duas únicas salas que existem na NuVu Studio são um espaço para reuniões em grupo e um espaço maker, um local com ferramentas, como impressoras 3D e impressora a laser, destinado a dar vida às ideias que surgem na cabeça dos alunos. O resto do espaço da NuVu Studio é aberto, com grandes mesas para trabalho e diversos materiais, de papelão a tecido, à disposição dos alunos. Nas primeiras semanas em que estão na escola, as crianças aprendem a usar as ferramentas. Elas usam tudo sozinhas. NuVu Studio (Cambridge, EUA) Nas primeiras semanas em que estão na escola, as crianças aprendem a usar as ferramentas. Elas usam tudo sozinhas. Um dos projetos em que os alunos estavam trabalhando, sempre em duplas, era a produção do figurino de uma peça de teatro com atores com deficiência. NuVu Studio (Cambridge, EUA) Um dos projetos em que os alunos estavam trabalhando, sempre em duplas, era a produção do figurino de uma peça de teatro com atores com deficiência. Uma grande preocupação da escola é a documentação. Não à toa, há um espaço reservado só para isso, com uma máquina para tirar fotos do que foi construído pelos alunos. O equipamento manda a imagem direto para um sistema online, construído pela própria instituição. As fotos irão compor o portfólio dos estudantes, que também reúne os relatórios que eles escrevem diariamente sobre os projetos desenvolvivos. NuVu Studio (Cambridge, EUA) Uma grande preocupação da escola é a documentação. Não à toa, há um espaço reservado só para isso, com uma máquina para tirar fotos do que foi construído pelos alunos. O equipamento manda a imagem direto para um sistema online, construído pela própria instituição. As fotos irão compor o portfólio dos estudantes, que também reúne os relatórios que eles escrevem diariamente sobre os projetos desenvolvivos.

Boa parte dos alunos que estuda lá está fazendo uma espécie de intercâmbio na NuVu. Eles estudam em outras escolas e passam seis meses nesse ambiente. Quando voltam para a instituição de origem, muitos não conseguem se readaptar.

Essa realidade é muito diferente da minha, mas...
... criar um portfólio, com o registro de todas as atividades desenvolvidas pelos estudantes, pode ser uma solução simples e muito eficiente para avaliar o trabalho e conseguir mostrar para a turma e para a família o quanto foi aprendido e feito naquele ano.
... ver que, mesmo num espaço com muita tecnologia, o que importa mesmo é o processo de aprendizagem pelo qual a criança passa durante a elaboração de um projeto. Ela ganhou autonomia? Ela conseguiu construir processo? A tecnologia entra como um meio para se chegar a um fim.

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Fotos: Raissa Pascoal

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