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“Cara Gente Branca”, e por que não gostamos de falar sobre racismo

Apesar de levantar um tema urgente, nova série da Netflix teve pouca repercussão

POR:
Monise Cardoso

A série "Cara Gente Branca" (“Dear White People”, em português) causou alvoroço já em seu primeiro trailer, muito antes de ir ao ar seu primeiro episódio.  Aos 34 segundos do vídeo de divulgação, uma locutora negra fala ao microfone uma lista de fantasias para o Dia das Bruxas possíveis para uma pessoa branca: “enfermeira, qualquer um dos primeiros 43 presidentes americanos…”. E o que estaria no topo da lista de fantasias inaceitáveis? “Eu“.

Sam (personagem interpretada por Tessa Thompson) está atacando colegas de universidade brancos que pintaram o rosto para, supostamente, parecerem negros. A prática tem nome, “blackface”, muito usado no século 19 por atores brancos que pretendiam representar afro-americanos de maneira caricata para reforçar estereótipos. A prévia deixava claro o que viria a seguir: críticas sobre esta e outras atitudes de cunho racista (e muito mais discussões, na verdade…).

Esse é o ponto de partida da série do Netflix, inspirada em um longa-metragem de mesmo nome produzido em 2014. Ambas produções retratam a história do cotidiano de cinco jovens negros dentro da universidade de Winchester, no Reino Unido, espaço majoritariamente frequentado por alunos brancos.

O incômodo com o conteúdo do vídeo gerou críticas por parte de pessoas que diziam ser uma apologia a violência contra brancos e de reduzi-los a estereótipos racistas. Como resultado, a Netflix perdeu assinaturas e até a publicação desta matéria teve o vídeo negativado no YouTube 420.850 vezes, contra apenas 57.465 avaliações positivas.

As cenas compiladas no trailer se desdobram na série mostrando que o “blackface” foi praticado durante uma festa dos universitários brancos intitulada “Dear Black People” (“Cara Pessoa Negra", em português), em resposta ao programa de rádio “Dear White People”, comandado por Sam, aluna e militante do movimento negro na faculdade, e utilizado como ferramenta de provocação e conscientização sobre racismo. Violência policial, empoderamento estético, apropriação cultural e diferentes formas de militar dentro do movimento negro são alguns dos temas explorados no seriado. E o mais interessante é a maneira como os personagens são humanizados e entendidos como seres diversos com histórias diferentes, vivências distintas e dilemas individuais.

Aqui no Brasil, pouco se falou sobre a trama desde a sua chegada à plataforma, na semana passada. Nas redes sociais, o boom de comentários e “textões de Facebook” sobre a série nem se compara ao registrado nos dias que prosseguiram o lançamento de "Os Treze Porquês" (“13 Reasons Why”), produção da Netflix que fala sobre suicídio e bullying. Será que o racismo não é um tema tão urgente ou não causa danos emocionais perigosos aos que sofrem com as suas práticas?

Segundo Juarez Xavier, jornalista e  professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação e Coordenador do Núcleo Negro da Unesp, a omissão da sociedade em discussões desse tipo se explica pela maneira como a estrutura racista  se constrói. “No Brasil, o racismo é um crime perfeito porque você sabe quem o executa, como se dão as ações, altos índices de mortalidade e segregação são registrados, mas ninguém é punido e nada disso fratura a consciência social”, diz.

Em uma das cenas, Sam, a única aluna negra da sala, se depara com os olhares ansiosos do professor e do resto da turma esperando que ela responda uma questão que foi levantada sobre escravidão. É visível aí uma séria crítica sobre o pensamento de que falar sobre racismo e encontrar formas para combatê-lo é obrigação apenas de quem sofre diretamente com ele. “Não é um problema de grupo minoritário, os afro-brasileiros são maioria aqui. Por isso, essa conversa é responsabilidade de toda a sociedade”, defende Juarez.

Diferente da maior parte das narrativas que abordam o racismo e a vivência de pessoas negras, “Cara Gente Branca” não é uma produção pesada, angustiante e cheia de sofrimento. Ela cumpre o papel de provocar reflexões sérias com boas doses de humor e ironia, além de ser um prato cheio para alimentar a discussão sobre a problemática na sala de aula. “Esse tipo de conteúdo tem se mostrado uma ferramenta informal de formação extremamente agregadora por facilitar o envolvimentos dos jovens em assuntos difíceis e fornecer, muitas vezes, uma visão mais crítica do que a mostrada na escola”, defende Juarez.

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