Opinião: quatro fatos e duas apostas sobre a greve na Educação

O significado da paralisação dos professores e seus possíveis desdobramentos

POR:
Rodrigo Ratier
Manifestação de professores na Praça dos Arcos, em São Paulo ( Paula Takada)

O significado da greve geral do dia 28 de abril ainda vai levar tempo para ser construído. Já dá, porém, para descrever o que ele foi – na Educação, as ações encabeçadas por professores tiveram uma personalidade própria e causas específicas. Sobre o futuro, baseado nas evidências do que ocorreu, pode-se projetar tendências – e elas apontam para o aprofundamento dos conflitos não-resolvidos com o protesto. É o que tento fazer com os quatro fatos e as duas apostas a seguir. Deixe sua opinião nos comentários e ajude a construir essa análise.

QUATRO FATOS

1- A greve na Educação não foi pelas reformas. Foi pelo “conjunto da obra”

“Não dá mais”. Eis uma frase bastante repetida nas entrevistas que fizemos com educadores. A sensação é de que as reformas são uma espécie de gota d’água num caldeirão que já estava prestes a transbordar. Fazem parte da mistura o inconformismo com o impeachment – ao menos de uma parcela dos educadores –, o avanço do Escola sem Partido, tido como uma ameaça à liberdade de cátedra, e a implantação de reformas educacionais sem debate com o professorado. A reformulação do Ensino Médio, proposta por medida provisória e aprovada a toque de caixa pelo Congresso, era o exemplo mais citado.

2- A greve não foi “petista”. Nem pró-Lula

Participamos de três aulas abertas organizadas por educadores em São Paulo. Não havia presença de pessoas com camisetas ou bandeiras de partidos políticos. De outras partes do país vieram relatos semelhantes de professores e gestores. Na manifestação no Largo da Batata, os partidos eram minoria. A julgar pelas faixas, cartazes e camisetas, a maior parte do público era composta por educadores ou integrantes de movimentos de moradia. Havia bandeiras de agremiações de esquerda e extrema-esquerda (PCO, PC do B e Psol). Percorremos toda a passeata e encontramos apenas duas bandeiras do PT. Já a defesa de Lula, apontado por sites conservadores como o motor da greve, sequer apareceu nas falas dos professores.

3- Os grandes atores foram os professores

A influência de sindicatos na convocação da greve foi inegável. Mas a paralisação só encorpou pelo trabalho de formiguinha dos educadores. Sobretudo na rede particular, a adesão foi crescendo a partir de grupos informais de Whatsapp e de assembleias isoladas em escolas. A decisão de uma escola parar, e a publicação da informação nas redes, puxava a escola seguinte. A frase “cada escola é uma trincheira”, retratada na imagem que acompanha este texto, parece representativa do espírito da greve.

4- A identidade docente sai fortalecida

Aulas abertas, discussão sobre a pertinência da idade diferenciada para aposentadoria, defesa da liberdade de cátedra, debates sobre financiamento da Educação. As reivindicações, discussões e ações ultrapassaram as pautas tradicionais, restritas ao aumento salarial. Levaram a uma reflexão, talvez inédita em seu alcance, sobre o que significa ser professor no Brasil hoje.   

DUAS APOSTAS

1- Vai aprofundar a polarização

A decisão de fazer greve na Educação é sempre arriscada. Em raras escolas houve consenso na equipe docente quanto à paralisação. Pais e alunos também se dividiram entre apoiadores e opositores – muitas vezes num confronto verbal em tom agressivo por meio de cartas, cartazes e manifestos. Educadores nos relatam que a greve deixou feridas abertas nas escolas. E que elas vão demorar a cicatrizar.

2- Não vai parar por aí

O governo Temer não deu sinais de que foi sensível aos pedidos dos grevistas. O presidente minimizou o movimento – falou de “pequenos grupos que bloquearam rodovias e avenidas” – e manteve a tramitação acelerada das reformas no Congresso. Os manifestantes, por sua vez, não parecem dispostos a ceder. No 1º de maio, as centrais sindicais sinalizaram mais greves. Nas escolas, espelhos da sociedade, as questões tampouco foram resolvidas. Difícil saber quais os próximos desdobramentos. Mas é possível cravar que o 28 de abril é um dia que ainda não terminou.

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