O que pensam os professores que não aderiram à greve

Houve grande adesão à paralisação de hoje, mas fomos ouvir também os docentes que foram contra a mobilização

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Karina Padial
Crédito: Shutterstock

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) estimava que 4 milhões de profissionais do setor adeririam à greve desta sexta. Ainda não há números sobre quantos trabalhadores em Educação participaram da mobilização, mas houve casos de professores que se apresentaram nas escolas e deram aula aos estudantes que compareceram. Por diversos motivos, eles decidiram ignorar a manifestação organizada para protestar contra as reformas trabalhista e previdenciária.

NOVA ESCOLA conversou com vários deles, além de ter recebido comentários de outros nas redes sociais. Veja abaixo os principais depoimentos de docentes que preferiam trabalhar neste dia 28.

Heloísa*, 24 anos, professora do Ensino Fundamental de escola municipal em Sumaré (SP)
“O prefeito do município onde trabalho decretou suspensão dos serviços por medida de segurança. Se não fosse isso, eu iria trabalhar. Eu não concordo com as ações de tomarem as rodovias, queimarem pneu. Na minha opinião, isso interfere no direito do outro. Acho que o povo deve, sim, reivindicar direitos e lutar pelo que acredita, mas não acredito que essa é a maneira correta de lutar por uma causa. O dia está errado, a forma está errada e as pessoas estão pelo motivo errado. Muitos professores da escola em que eu trabalho nem leram o texto da Reforma Trabalhista, não sabem do que se trata e estão paralisados porque viram uma oportunidade de descansar e emendar o feriado. Eu li o texto da Reforma e acredito que ela é necessária, embora eu não concorde com todos os pontos. A Reforma da Previdência também é necessária pois ela já não consegue se sustentar. Não é a mais confortável, nem a ideal, mas ficar como está não é sensato. Tudo bem as manifestações contrárias, mas exponham uma solução, então, porque o rombo é real.”

Miriam Fiore, comentário postado no Facebook de NOVA ESCOLA
"Greve não atrapalha de forma alguma, precisamos de greve. Mas ainda não vi uma verdadeira greve! Participei de várias manifestações, dos vermelhos e dos amarelos, ambas lamentáveis. Me parece que a parada gay, além de reunir milhões de adeptos a mais, é muito mais organizada! Precisamos de União. Enquanto isso não acontecer, o país não vai crescer! Muita violência e pouca atitude!"

Marcela Antonio do Carmo, 35 anos, professora do Ensino Fundamental de escola municipal em São Paulo
“Eu acho legítima todas as paralisações e importante a luta pelos direitos que estão sendo retirados. Já participei de diversas greves, inclusive a do dia 15 de março. Mas eu não paralisei agora porque, normalmente, temos que repor a falta. E as reposições costumam acontecer no contraturno ou no fim de semana. Como eu acumulo cargo, dou aula nos dois turnos, então não conseguiria compensar em dia de semana. E sábado eu tenho outros compromissos. Quando não repõe, perde o dia de trabalho. E o desconto costuma ser maior do que um dia de trabalho normal. É um prejuízo.”

Andréa Barreto, professora de Ciências de escola municipal no Rio de Janeiro
“Sou democrática, cresci em uma ditadura. Na casa dos meus pais, o telefone era grampeado. Então, acho que qualquer um pode fazer greve, é um direito individual. Mas eu não me reconheço nessa greve. Para mim, ela é partidária e tem o objetivo de fazer prevalecer os direitos adquiridos, como o imposto sindical. Assim como elas têm o direito de parar, eu tenho o direito de não parar. As reformas têm de ser feitas porque a conta não vai fechar. E Previdência não é só aposentadoria, as licenças também. Então, tem que haver reforma. O que acho engraçado é que os sindicatos são contra, mas não propõem nada no lugar. Agora, é preciso saber que greve é uma questão de cidadania, que tem consequências, que podem ou não acontecer. A pessoa que faz greve, não está tirando folga.”

Lourdes Feitosa, comentário postado no Facebook de NOVA ESCOLA
"Se fosse greve geral em benefício de todos... Mas não é! É mais um comício do PT e dos sindicatos, que se tornaram verdadeiras quadrilhas querendo usar os ignorantes e desinformados como massa de manobra em defesa do bandido cínico do Lula."

Fabrícia Estevão, 37 anos, diretora de escola pública em Brasília
“Minha escola está funcionando normalmente, inclusive, com reunião de pais – que estão presentes em maior número que o normal, justamente porque muitos não foram trabalhar. Ontem tivemos um momento com os professores e eles não entraram em consenso sobre parar ou não. A maioria acabou votando pelo não. Essa decisão é explicada, em boa parte, porque dos 30 professores que temos na escola, 21 são temporários. E os temporários não têm estabilidade. Então se eles têm falta, correm o risco de perder o emprego – mais de 15 dias perdidos, o contrato é rescindido. E o governo do Distrito Federal anunciou que quem aderisse à paralisação ia ter o ponto cortado, ou seja, ia ser lançado falta para quem não viesse trabalhar. Enquanto gestora, eu entendo que preciso aceitar a posição de todos. Não vou decidir fechar se a saída que os professores encontraram não foi essa. O que eu fiz foi falar, na assembleia de ontem, qual era o momento de hoje e porque ele estava acontecendo.”

Roberto*, 59 anos, professor de Língua Estrangeira de escola estadual em São Paulo (SP)
“Na escola em que atuo, são vários professores que não pararam. E os motivos são vários. Um deles é que não acreditamos que a greve possa provocar alguma mudança em algo que já está sendo aprovado, como a Reforma Trabalhista. Outro é que próprios sindicatos dos professores – Apeoesp, Simpro, CPP e outros – não se entendem e não se unem. Há representantes da própria Apeoesp que têm críticas, queixas e reclamações contra a diretoria da entidade. Além disso, ainda não se falou nada sobre as reposições relativas às outras paralisações. Como elas costumam ser aos sábados ou nas férias, elas podem prejudicar nossa vida. Isso sem contar que essas reposições não costumam ser levadas a sério. Mais uma razão é o fato de que há professores se aposentando, como é o meu caso, e entrando em contagem de tempo. Uma falta injustificada, como pode ser o caso, vai nos prejudicar. Por fim, tem a questão de que já participamos de outras greves e vimos pouco resultado. Os governadores não têm quase diálogo, não ouvem os professores e são coniventes com a situação precárias das escolas”.

Vanda Freitas, comentário postado no Facebook de NOVA ESCOLA
"Naquela época o povo lutava por seus direitos, hoje só querem fazer baderna e depredações. Portanto, a diferença é extremamente grande. Exemplo: antigamente homens de bem lutando pelo povo e para o povo, hoje baderneiros preguiçosos que não estão nem aí para o povo, mas somente depredar o que é do povo. Eis aí a grande difrença."

*Os nomes com asterisco foram substituídos a pedido dos entrevistados

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