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25 de Abril de 2017 Imprimir
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Contra represálias, uma greve de guerrilha

Sem comando central, militantes anônimos e grupos de WhatsApp alavancam paralisação das escolas particulares em São Paulo

Por: Rodrigo Ratier

Atualizado dia 26 de abril, às 18h41

Com colaboração de Pedro Annunciato

Paralisações são comuns no mundo da Educação. Mas há um setor que nunca para: as escolas particulares. Bem... não parava. Na greve geral prevista para esta sexta-feira, dia 28 de abril, as instituições privadas estão liderando o movimento. O foco é a cidade de São Paulo. Uma lista informal contabilizava mais de 60 escolas na terça-feira (25/4). O Sinpro-SP, Sindicato dos Professores da Rede Particular Paulistana, fala em mais de 100 colégios. Pode não parecer muito num universo de 4.500 instituições. Mas, se os números se confirmarem, será a maior greve da rede privada na história da cidade, com influência para puxar a parada nas redes municipal e estadual – que também aderiram – e gerar repercussão em todo o país.

Por que é tão difícil fazer greve numa escola particular? E por que, desta vez, a mobilização está dando certo? Em busca de respostas, NOVA ESCOLA ouviu quatro professores de instituições particulares de São Paulo. Eles concordaram em falar sob condição de anonimato, o que já revela a primeira dificuldade: o medo de represálias. “Se descobrem quem sou, nunca mais arrumo emprego”, afirma Anísio (nome fictício), professor do Ensino Médio.

Os quatro são sindicalizados, mas não trabalham na entidade nem são parte do comando de greve. O Sinpro não deixou de desempenhar seu papel: aprovou a parada em assembleia com mais de 200 professores – uma gota d’água num universo de 50 mil profissionais. A grande mudança é que a mobilização tem seguido uma outra estratégia: a do boca a boca e a do “zap zap”. Anísio, Delia, Emília e Paulo (novamente, nomes fictícios) são representantes dessa militância atomizada, “trabalho de formiguinha”, nas palavras de Anísio, mas unida digitalmente por mensagens instantâneas.

Não há manifesto conjunto, site ou fanpage. O próprio sindicato aderiu à tática de guerrilha. “Tenho conversado muito por inbox de Facebook e WhatsApp com educadores que não conheço”, diz Silvia Barbara, diretora de imprensa do Sinpro. Para ela, a tecnologia ajuda a unir uma categoria historicamente dispersa e diminuir o risco de punições. “Mas é a gravidade das reformas que está dando força ao movimento”, afirma.      

Por que parou

A justificativa mais direta é a oposição dos docentes às reformas trabalhista, da previdência e a recém-sancionada lei da terceirização. Se aprovadas, elas terão implicações na vida dos professores. Para quem trabalha em escolas particulares, porém, há um caldo de cultura ainda mais efervescente. A lei do piso não vale para a rede privada e isso tem causado desconforto. Em vez de um terço da carga reservada para a formação, há apenas um acréscimo de 5% para preparação de aulas. “Já era muito pouco. Piorou agora que temos de produzir materiais didáticos e gerenciar a Educação a distância em plataformas como o Moodle”, afirma Paulo. Outros motivos de revolta são a reforma do Ensino Médio, sancionada com base em medida provisória e quase sem debate, e o avanço do Escola Sem Partido. Mesmo sem estar implantado, o discurso favorável ao movimento já causa mudanças perceptíveis. Anísio se queixa do ataque à liberdade de cátedra. “Há instituições que não fazem mais visitas do meio a favelas ou a ocupações do MST”, exemplifica.

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Como o movimento cresceu

O epicentro político dos colégios particulares são as escolas do chamado “vale dourado” das Zona Oeste e Sul. Em geral, são instituições de mensalidades altas e projeto pedagógico progressista. Em algumas, uma espécie de ensaio geral já havia ocorrido nas manifestações de março. “Docentes dos colégios Santa Cruz, Oswald de Andrade, Equipe, Escola da Vila, Ofélia Fonseca, Escola Viva e Nossa Senhora das Graças, entre outros, deram aulas vestidos de preto, com números colados às suas roupas, indicando a idade com que poderiam se aposentar caso a reforma seja aprovada”, registrou o jornal Folha de S.Paulo.

Agora, nos preparativos da greve de sexta, as conversas começaram nas salas de professores. “Alguém se queixava das reformas, outro trazia um panfleto do sindicato, e a coisa foi crescendo”, afirma Delia. Em seguida, vieram os grupos de WhatsApp e as informações de discussões em outras escolas. “Muita gente -- conhecidos da faculdade e colegas que dobram carga -- começou a assuntar quando vieram as primeiras informações”, confirma Paulo.

As listas de confirmação, por sua vez, tiveram um efeito dominó. “Na Zona Oeste, entrou o Santa Cruz, o Vera Cruz e logo depois dois segmentos do Palmares. Na Sul, vem o Gracinha, a Escola Viva e a turma fica já perguntando sobre o Lourenço Castanho”, diz Anísio. No fim, as surpresas: escolas confessionais, cursinhos e diversos colégios de bairro também acabaram puxados pelo cordão de adesões.

Jogo de cintura para aprovar a paralisação

Parar um colégio privado não é tarefa simples. De um lado, o Sinpro, sindicato dos professores, convoca a paralisação. De outro, Sieeesp, o sindicato patronal, emite nota às mantenedoras dizendo que “não é favorável, não autoriza e nem apoia o movimento”, que classifica como “manifestação da CUT e seus sindicatos afiliados”. A Abepar, Associação Brasileira de Escolas Particulares, vai além: “as manifestações envolvem temas que nada têm a ver com as escolas e com a relação entre as escolas e os professores, o que torna ainda mais incompreensível a hipótese de paralisação”.

No meio, os professores. “Você é ameaçado de demissão, de ser substituído por um assistente, de ficar marcado”, diz Anísio. A aprovação da greve dentro das escolas exigiu jogo de cintura. De maneira geral, a decisão foi tomada em reuniões ou assembleias e materializada numa carta, entregue à gestão das escolas. Na maior parte dos casos, a assinatura foi coletiva, para preservar o anonimato dos participantes.

O trabalho de costura seguiu estratégias diferentes. “Procuramos uma coordenadora com quem tínhamos mais afinidade. Mesmo assim, a greve não passou”, diz Paulo. “Aqui, o ‘sim’ ganhou, mas não foi unanimidade. Deixamos isso claro em nossa carta à gestão”, afirma Delia. Na Escola da Vila, que vive um momento conturbado após a compra pelo fundo de investimentos Bahema, os professores protocolaram uma carta coletiva, sem assinaturas, na secretaria da instituição.

Nas escolas em que a direção, além de tocar o dia a dia da escola, é também composta pelos proprietários, a situação é ainda mais complicada. Em uma escola da zona Sul, os donos pediram para ficar na reunião dos professores que deliberaria sobre a greve. “Venceu o não, pois muitos educadores ficaram constrangidos”, diz Emilia.

Como serão as paralisações

Para quem conseguiu parar, os arranjos também foram os mais variados possíveis. No Colégio Madre Cabrini, a própria mantenedora tomou a decisão de fechar as portas, citando os “valores cabrinianos da justiça e da solidariedade”. No caso dos colégios católicos – como o tradicional São Luís –, pesou a convocação para a paralisação realizada pela Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB). No Equipe, um comunicado assinado pelos trabalhadores também declara apoio formal e convida a comunidade para aulas abertas no Largo Santa Cecília. O Rainha da Paz cancelou o dia letivo e disse que a escola “não incitou, nem coibiu” a manifestação. Já no Santa Cruz, a carta aos pais informa que a direção não apoia a decisão, mas resguarda o “direito constitucional à greve”. A Escola Viva, por sua vez, diz que “respeita o direito de cada pessoa expressar suas opiniões”, mas manterá, “na medida do possível”, o funcionamento. Na maior parte das escolas, o dia parado será descontado e reposto mais adiante.

E os pais e alunos?

A atmosfera geral é de apoio ao movimento, na opinião de nossos entrevistados. “Participo de três grupos de WhatsApp de pais. Só em um tivemos algumas contestações à greve”, afirma Delia. “Aqui no Madre, de 900 alunos, tivemos a manifestação de apenas dois pais: um a favor e outro pedindo esclarecimentos”, diz a diretora pedagógica Neusa Rosa. Anísio é o que ouviu mais reclamações. Diz, porém, não se importar. “Trabalhamos com uma clientela que não se constrange em faltar para viajar à Disney. No ano passado, soube de uma escola que abonou ausências de alunos que tinham ingressos para as Olimpíadas. Me parece justo parar em defesa de diretos, inclusive dos pais”, afirma. Nesta quinta-feira (26/4), um grupo de alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Santa Cruz divulgou uma carta aberta contrária à greve, defendendo que o posicionamento contra a reforma da previdência é "profundamente equivocado".

A lista de escolas particulares que podem parar*

- Ágora
- Anglo 21 (Santo Amaro)
- Anglo (Cursinho - Tamandaré)
- Anglo (Cursinho - Sergipe)
- Anglo (Cursinho - João Dias)
- Arraial das Cores
- Be.living
- Carandá Vivavida
- Carlitos
- Castanheiras
- Colégio Equipe
- Colégio Friburgo
- Colégio Invenções
- Colégio Madre Iva (Cotia)
- Colégio Marupiara
- Colégio Notre Dame
- Colégio Ressurreição
- Colégio Sion
- Colégio Viver (Cotia)
- Cursinho Maximize
- Escola Alecrim
- Escola Primeira
- Escola Fazendo Arte
- Escola Recreio
- Escola da Vila
- Escola Viva
- Espaço Brincar
- Estilo de Aprender
- Giordano Bruno
- Gracinha
- Grão de Chão
- Hugo Sarmento
- Humboldt
- Instituto Acaia
- Ítaca
- Jacarandá
- Leonardo Da Vinci (Anglo Osasco)
- Lourenço Castanho
- Lumiar
- Madre Cabrini
- Maple Bear (Granja Julieta)
- Miguilim
- Nova Escola
- Ofélia Fonseca
- Oswald de Andrade
- Palmares (FII e Médio)
- Pentágono (as três unidades)
- Politeia
- Ponto de Partida
- Projeto Vida
- Rainha da Paz
- Santa Clara
- Santa Cruz
- Santi
- São Domingos
- São Luis
- Stance Dual
- SESI Vila Leopoldina (Médio)
- Vera Cruz  

*lista extraoficial obtida por NOVA ESCOLA junto a grupos de professores de escolas particulares. Em alguns casos, pode não haver confirmação por parte das instituições.

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