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Opinião: Educação contra o bullying do MBL

Para o editor Rodrigo Ratier, o combate escolar às agressões ensina a enfrentar a violência dos valentões da política

POR:
Rodrigo Ratier

Bullying, você sabe, são agressões intencionais contra um determinado alvo. Pode ser verbal ou físico, gera medo, vergonha e depende do silêncio de quem assiste ou aplaude a selvageria (tem 21 respostas para o assunto aqui). Conceitualmente, o bullying só existe entre pares. De aluno para aluno, por exemplo. Mas, numa definição mais generosa, dá para estender a noção de bullying para diversas formas de violência orquestrada. É, por exemplo, o que o MBL está fazendo contra o secretário municipal de Educação de São Paulo, Alexandre Schneider.

Para quem não conhece, Schneider, ex-PSDB e atual PSD, comandou a Educação paulistana entre 2006 e 2011. Voltou ao cargo no início do ano, na gestão do prefeito João Doria. E MBL é o Movimento Brasil Livre, entidade de ativistas liberais que se destacou nos protestos pró-impeachment. Defende o governo Temer, mas é contra a corrupção – e o desarmamento, os sindicatos, os programas de transferência de renda, as cotas e o feminismo.

Não se trata de defender a gestão de Schneider. Seu trabalho mal começou e, a rigor, ainda não é possível avaliá-lo. Não pretendo, também, questionar as opiniões do MBL, apesar de discordar delas. A liberdade de expressão assegura o direito de professá-las. É do jogo. O que não é do jogo – ou, por outra, é jogo baixo – é a forma que o movimento escolheu para participar do debate. É bullying. E aí, a Educação tem muito a ensinar.

O rebuliço mais recente gira em torno das visitas do vereador Fernando Holiday (DEM-SP, integrante do MBL) a escolas para, entre outras coisas, “coibir qualquer tentativa de doutrinação que nossas crianças e jovens possam vir a sofrer”. Ao comentar o fato, Alexandre Schneider, secretário municipal de Educação de São Paulo disse que o vereador havia extrapolado suas funções. Schneider está certo, como mostramos aqui.

Por que a reação é bullying

Para o MBL, foi uma afronta. Doria “vai ter de se posicionar ou vai se estrepar”, anunciaram os militantes em sua página no Facebook, pedindo a cabeça do secretário. Ao mesmo tempo, passaram a rodar na web montagens do secretário segurando um livro com a imagem da foice e do martelo e reportagens dizendo que o secretário era ligado ao PSOL. À Folha de S. Paulo, Renan Santos, coordenador do MBL, comentou assim o ataque:

– Se não sabe brincar, não desce para o playground.

A expressão é reveladora. O playground ou play, o parquinho coletivo, pode ser um lugar de diversão e descoberta para os pequenos. O ditado, porém, ilumina o lado escuro do play: o da covardia e da crueldade – sabemos que as crianças podem ser cruéis –, onde impera a lei do mais forte. Quem é frágil... bem, não se meta com os valentões. É melhor mesmo não descer.

É como valentões de parquinho que os coordenadores do MBL se comportam no debate político. E, como costuma ocorrer no bullying, a agressão simbólica tende a destampar o bueiro da violência física. Em outubro do ano passado, integrantes do movimento tentaram desocupar – à força – uma escola no Paraná. Há também suspeitas, que ainda precisam ser investigadas, de que membros teriam vazado os contatos pessoais de duas vereadoras do PSOL, estimulando a militância a assediá-las.

Nada de bom pode surgir daí. E não precisamos ir longe para entender como as coisas chegaram a esse ponto. Está tudo ao alcance de um clique, na página de Facebook do movimento. Uma rápida navegada por postagens publicadas entre 6 e 9 de abril (mas você pode avaliar qualquer outro intervalo) evidencia as maneiras que o MBL selecionou para argumentar:

Os militantes comemoram a “derrota humilhante” do jornalista Gilberto Dimenstein; fazem “fuen” para as feministas; dizem que “refugiado sírio humilha âncora”; afirmam que convergência entre PT e PSDB causa “nojo”; defendem que “politicamente correto” é bizarro; sobre os corruptos, que é preciso “chutar esses caras para fora”; quanto a Schneider, trata-se de “secretário pró-doutrinação”; sobre a retirada das menções à orientação sexual na BNCC, “chola mais, esquerda”; a mídia mainstream é “perversão, cinismo, arrogância e sadismo”; “PT despiroca” e “está surtado”; Jean Willys é lhama; Maria do Rosário é “hipócrita”; FHC partiu para a “avacalhação”; “sempre bom ver o PSOL ser ridicularizado”; Lula “arrega” para Moro; Joice Hasselman “detona doutrinadores”; “canalhas” e “cretinos” defendem o Fora, Temer; Congresso é “esmagado” por Gentili; Ivan Valente “vomita dejetos ideológicos”. E por aí vai.

Não sei você, mas eu não quero viver num mundo onde as pessoas detonam, humilham, esmagam umas às outras. Ou onde, em vez de combater ideias, encerram a discussão dizendo que os adversários são canalhas, cretinos. Ou em que os vencedores tripudiam sobre os vencidos.

Participar assim do debate é uma opção. Mas, novamente: nada de bom pode surgir daí. Há duas reações possíveis: ou você detesta quem escreve ou detesta as pessoas sobre quem eles escrevem. O MBL fala ao fígado, nunca ao cérebro ou ao coração. Não apela à razão e à empatia, mas ao medo e ao ódio. Como fazem os valentões.

E nós, o que podemos fazer?

Penso que poderíamos nos inspirar nas ações de combate ao bullying nas escolas.

Antes de tudo, não dá para encarar agressões intencionais, verbais ou físicas como coisa normal. O bullying também nasce e cresce na omissão. Espectadores passivos (que só assistem) ou ativos (que incentivam) também participam da selvageria.

Um exemplo da vida prática nas redes sociais. Quando a argumentação descamba para a agressão, é preciso denunciar. Textos excessivamente adjetivados, uso de verbos fortes, exclamações e caixa alta costumam ser um bom indicativo desse tipo de coisa.

Outra atitude é acolher quem sofre bullying. Se na escola os agredidos podem até se suicidar, na vida pública o temor e a vergonha também estão presentes. Acolher o agredido é um exercício de empatia e de respeito às regras do debate. No caso de Schneider, um grupo de centenas de educadores dos mais diversos matizes ideológicos, alguns dos quais adversários políticos do secretário, saíram em sua defesa com um manifesto e uma hashtag #ApoioAlexandreSchneider.

Para terminar, lembro que a Educação moral nos ensina que um valentão é uma pessoa que não aprendeu a transformar sua raiva em diálogo. A eles, não respondemos na mesma moeda, alimentando a espiral de ódio e dando visibilidade ao bullying (eles dependem desse holofote da violência para cultivar seu poder). Baixamos o tom, convidamos ao diálogo e oferecemos Paulo Freire. No livro Pedagogia da Esperança, por ocasião de um simpósio com o educador americano Chester Bowers, Freire nos mostra como o adversário não precisa ser um inimigo:     

“Discordamos quase totalmente durante uma hora e meia sem que, porém, precisássemos nos ofender, nos destratar. Simplesmente defendíamos nossas posições que se contradiziam, mas não tínhamos por que distorcer um ao pensamento do outro”.

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