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12 de Abril de 2017 Imprimir
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Existe coisa de negro e coisa de branco?

O caso da garota branca que incomodou ao usar um turbante colocou no centro das atenções a apropriação cultural. Entenda o conceito

Por: Pedro Annunciato

"Vou contar o que houve para entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural.” Foi com indignação que a jovem paranaense Thauane Cordeiro começou a contar em sua página pessoal no Facebook o episódio que viveu em uma estação de transporte em São Paulo, e que gerou uma enorme polêmica na redes sociais no início de fevereiro.

Thauane tem leucemia e, por causa da quimioterapia, perdeu os cabelos. Ela, que é branca, adotou então um turbante para cobrir a cabeça. A peça que aparece na foto publicada com o texto é um tecido de estampa geométrica que lembra típicos padrões africanos, enrolado sobre as orelhas e amarrado no topo da cabeça. Segundo o relato, garotas negras começaram a repreendê-la, acusando-a de se apropriar de um símbolo cultural que não era de brancas.

A indignação se transformou em um protesto sintetizado na hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim, e o post viralizou. Até o fechamento desta reportagem, foram mais de 139 mil curtidas e quase 38 mil compartilhamentos, o que colocou o termo “apropriação cultural” no centro das atenções. Houve quem compreendesse a atitude das meninas negras, que sofrem com o preconceito diariamente. Houve quem condenasse a falta de sensibilidade diante de uma grave doença. E quem apenas questionou: que mal faz uma mulher branca usar um turbante?

É comum que discussões como essa entrem na escola, e é importante que haja espaço para elas nas aulas, seja de Língua Portuguesa (onde é possível debater e opinar sobre o tema), de História (gancho para descobrir o histórico da população negra no Brasil) ou Geografia (oportunidade para debater atualidades como as disparidades entre negros e brancos). Mas a aprendizagem se torna mais relevante quando supera a polêmica e procura compreender o que está por trás dela. NOVA ESCOLA pesquisou referências, ouviu pessoas ligadas à militância antirracista e especialistas para situar você nessa questão.


Turbante

A origem

Há várias hipóteses: pode ter sido adotado primeiro em possessões portuguesas na costa da África e chegado ao Brasil por volta do século 18 ou surgido no próprio território brasileiro. Outra possibilidade é que tenha vindo dos caraíbas, povos miscigenados das Antilhas, e só depois se difundido.

O que diz a militância

Independentemente da origem, o turbante sempre simbolizou tudo o que era “não ocidental”, e seu uso, apesar das disputas e preconceitos, se tornou um símbolo de resistência e identidade negra.


Um novo conceito

De modo geral, define-se apropriação cultural como o uso de objetos e expressões originárias de outras culturas fora do seu contexto. Isso ocorre quando um povo dominante ressignifica símbolos e práticas de outro, historicamente dominado por ele, que antes eram vistos com preconceito, tornando-os objetos de consumo. “A apropriação é um dos mecanismos do embranquecimento cultural. Em vez de eliminar as práticas vindas da cultura negra, elas são incorporadas à categoria de patrimônio nacional e suas origens e memórias são esquecidas”, explica Túlio Augusto Custódio, membro do Coletivo Sistema Negro, em São Paulo. É como se a cultura dominante (no caso brasileiro, de origem europeia) tentasse apagar as origens negras de um gênero musical, uma roupa, uma dança (veja exemplos ao longo da reportagem), para que ela se torne mais “aceitável” – o que configura uma atitude racista.

Esse sentido para o termo, no entanto, é relativamente recente e radicalmente distinto do que ele tinha originalmente. Segundo um levantamento realizado pelo pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) Thomas Conti, as primeiras menções a apropriação cultural aparecem em estudos sobre literatura e descrevem um fenômeno praticamente inverso: o uso que escritores de povos colonizados fazem de línguas europeias, como o inglês e o português, para produzir uma literatura com seus próprios valores. Em países africanos como Angola e Moçambique, que não tinham uma tradição escrita nas línguas nativas, os autores tinham como proposta tornar a língua estrangeira um instrumento de libertação e autoafirmação. “O que se tentou fazer foi algo próximo do que os artistas e escritores modernistas fizeram no Brasil, reelaborando as formas linguísticas para expressar a cultura brasileira”, compara Rita Chaves, professora de literaturas africanas de Língua Portuguesa da USP.

No campo científico, a mudança de sentido acontece lentamente. Em 1985, na própria África do Sul, o dramaturgo Ian Steadman usa “apropriação cultural” para descrever a censura ao teatro. Peças consideradas subversivas eram proibidas nos bairros periféricos de maioria negra, mas liberadas em locais frequentados por brancos, onde seu sentido de protesto era enfraquecido.

Ao final da década de 1980, o termo aparece no sentido mais próximo do atual, mas num contexto do debate sobre o papel e os limites dos museus, na França. A polêmica era a seguinte: um museu tem direito de expor qualquer item de uma cultura, mesmo que ele tenha sido obtido como espólio de guerra, por exemplo? E mais: o museu pode expor esse item da maneira que quiser? A questão surgiu por causa de acervos de cultura camponesa do país expostos de modo que criasse uma narrativa agradável ao público e omitisse os reais significados dos objetos.

Em 1990, finalmente aparece o sentido atual, mas ainda não aplicado à cultura negra. O estudioso de cultura Hartmut Lutz, professor da Universidade de Estetino, na Polônia, ao analisar a situação dos povos nativos do Canadá, explica um tipo de intercâmbio no qual “aspectos da cultura colonizada são apropriados pela cultura dominante, enquanto ao mesmo tempo todos os traços da sua origem são negligenciados ou deslocados”.

Aos poucos, a questão entra nos movimentos ligados à luta antirracista, especialmente nos Estados Unidos. Lá, as discussões sobre apropriação cultural se concentram em questões parecidas com a do turbante – o uso de dreadlocks (tranças de cabelo) pela cantora Miley Cyrus, a “higienização” do rock, do jazz e principalmente do hip hop em produtos culturais etc. Há até um termo próprio para designar isso: whitewashing, que em inglês se refere também à lavagem com alvejante, para tornar uma superfície ou um tecido brancos.

Ao apropriar-se de um elemento de outro contexto, a cultura dominante invisibiliza as origens e a história de práticas que eram marginalizadas.

O conceito de apropriação cultural, portanto, não nasce nos movimentos negros, mas passa a ser usado por eles para reivindicar a afirmação das identidades raciais, algo que está na pauta desde as primeiras lutas abolicionistas.

No Brasil, desde o século 19, os primeiros movimentos sociais negros se articulavam com negros americanos ou de países de colonização francesa para lutar por essa causa. Mais adiante, em 1944, a fundação do Teatro Experimental do Negro pelo ator, economista e ativista Abdias do Nascimento (1914-2011) é um marco dessa tentativa de valorização. A partir dos anos 1970, o discurso ganha o reforço de grupos de esquerda que acrescentam o elemento anticapitalista à análise. Nesse momento, o consumo de elementos de uma cultura se torna o xis da questão. Assim, o terreno estava preparado para acomodar a apropriação cultural de forma quase natural.


Capoeira

A origem

A luta teria nascido entre os negros que viviam no sul de Angola e, no Brasil, se tornou uma arma de resistência contra a violência praticada pelos senhores nas senzalas. Chegou a ser proibida no final do século 19.

O que diz a militância

A capoeira deixoude ser proibida nos anos 1940, mas isso não significou a valorização da identidade negra. O nacionalismo da época a incorporou como um símbolo brasileiro, apagando a história de resistência e tornando-a “palatável” a uma sociedade racista.


Quem tem razão?

Apesar de parecer claro, o conceito de apropriação cultural levanta questões que alimentam a polêmica, sobretudo entre antropólogos. A que mais sobressai é se é possível estabelecer uma identidade africana ou afrobrasileira a partir das origens de certos elementos – e, mais do que isso, regular comportamentos pessoais. O que conhecemos como cultura afrobrasileira, na realidade, é a mistura de culturas de diversos povos africanos como andongos, congos, hauçás e outros povos da chamada África Ocidental, originais demais ou menos onde hoje ficam países como Nigéria e Guiné. A eles, somaram-se elementos de outras tradições, inclusive europeias.

O próprio turbante é um exemplo disso. No livro Um Rio Chamado Atlântico, o historiador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas em história africana, explica que o uso da peça “talvez tenha começado com as luso-africanas da Senegâmbia e das Guinés [territórios africanos sob domínio português]” ou entre negras que estavam no Brasil. O trecho lembra que o icônico traje da baiana, do qual o turbante e o pano da costa fazem parte, é fruto das mais variadas influências. “O traje não estaria completo sem três heranças portuguesas: a saia rodada, a blusa de renda e os tamanquinhos.”

Outro exemplo é o candomblé. Os símbolos dessa religião são oriundos, em grande parte, da etnia iorubá ou nagô, uma das maiores da África Ocidental, mas são carregados de influências católicas e regionais. Tanto que há diferenças entre as expressões do candomblé pernambucano, baiano, maranhense e outros. “As práticas culturais diversas estão sempre em intercâmbio, o que torna difícil dizer que qualquer coisa é genuinamente africana, asiática ou europeia. Todo símbolo cultural é fruto de várias influências e, no limite, é hibrido”, afirma Petrônio José Domingues, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Sergipe (UFS) e especialista em diáspora africana e nos movimentos negros.

Pelo lado de quem é ligado à militância, o que se argumenta é que isso tem pouca importância. A pesquisadora de representação do negro na mídia Suzane Jardim, que atua em diversas instituições e escolas públicas, explica: “Debater sobre de onde veio tal coisa é totalmente irrelevante nesse caso. O que se denuncia é um sistema de relações que envolve preconceito, poder e capitalismo”. Para Túlio, “num contexto de pleno reconhecimento da cultura de cada indivíduo, faria sentido criticar a suposta busca por ‘purismo cultural’. Mas a realidade é que a herança de muitos povos foi apagada numa estrutura de racismo globalizado. Sem igualdade de reconhecimento, não pode haver discussão”.

Não se trata de definir o que alguém pode ou não fazer, mas de se manifestar contra um fenômeno que apaga a negritude de manifestações culturais.

Talvez aí esteja a chave de compreensão do que está por trás do debate. Petrônio considera importante fazer uma distinção entre o discurso político e os estudos científicos, e entender o papel que cada um desempenha. “Do ponto de vista acadêmico, os discursos militantes trazem invenções, associações feitas após os fenômenos acontecerem”, diz ele. “Mas do ponto de vista político, são totalmente legítimos. Vejo com naturalidade o papel do movimento negro de denunciar o que julga como descaracterização ou ultraje. A construção desses discursos, ainda que esquemáticos e até maniqueístas, tem função fundamental como bandeira de luta, ajuda a formar consciênciase a sensibilizar as pessoas”, diz o especialista.

Por tudo isso, o debate sobre apropriação vai muito além do “pode ou não pode usar turbante”. Ele pode ser, na sua aula, o ponto de partida para discutir as complicadas relações entre as diversas culturas e entender o papel da luta antirracista no Brasil e no mundo.


Rock

A origem

O gênero nasceu junto com outros ritmos ainda hoje muito identificados com os afroamericanos, como o blues e o jazz. No início dos anos 1950, negros do subúrbio em cidades no sul dos Estados Unidos reuniram diversas influências, da música rural ao gospel.

O que diz a militância

O rock seria um exemplo extremo de apropriação, em que todas as referências africanas foram eliminadas e os negros praticamente desapareceram. Nomes como Chuck Berry e Skip James ficaram em segundo plano e Elvis Presley, um branco, se tornou o rei do rock.


Ilustrações: William Santiago

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