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12 de Abril de 2017 Imprimir
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O que você não sabe e não ensina sobre HIV

Um surto de Aids entre jovens em idade escolar e a vinda de novos remédios ao Brasil são informações importantes para abordar

Por: Pedro Annunciato
1. Na prevenção com PrEP, quem ingere uma pílula ao dia fica quase imune ao vírus
2. A camisinha ainda é a forma mais segura de proteção contra HIV
3. O comprimido de PEP deve ser tomado por 28 dias após uma situação de risco (Fotos: Ricardo Toscani)

Desse assunto se fala de menos. Na escola e na mídia. Talvez por isso muitos até acreditem que a Aids foi derrotada. Desde a década de 1990, campanhas pelo uso do preservativo e a oferta de tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS), com medicamentos cada vez mais avançados, frearam a expansão da doença. Mas a erradicação ainda está longe de virar realidade. “Diminuímos a velocidade do avanço, mas continuamos tendo um número grande de novas infecções anualmente”, explica Ricardo Vasconcelos, infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. Nos últimos três anos, o país registrou, em média, 40 mil novos portadores da doença e cerca de 12 mil óbitos por ano.

Mas há outras informações relevantes que você talvez não saiba: o que mudou foi o perfil de quem manifesta a Aids. O surto não atinge mais os adultos, e sim jovens de 15 a 19 anos – gente com a idade dos seus alunos. Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, em 2005, a taxa de detecção de Aids (número de casos a cada 100 mil habitantes) nessa faixa etária era de 3,2. Em 2015, saltou para 5,8 – aumento de 55%. Existem algumas explicações para isso. A primeira é que os jovens estão começando a vida sexual mais cedo. A segunda é que o avanço nos tratamentos transmitiu a falsa sensação de que a Aids não é grave. Há, ainda, questões sociais que restringem o uso de serviços de saúde e prevenção. “Transexuais procuram menos os médicos porque se sentem intimidados pelo preconceito. Mulheres negras daperiferia também têm pouco acesso”, explica Ricardo. O paradoxo é que hoje há mais formas de prevenção e novas drogas, mas a informação não chega a quem corre mais riscos.

Será que a escola tem culpa nisso? Para Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora do Instituto Kaplan, em São Paulo, ela tem deixado a desejar. “Há poucos projetos e, em geral, a estratégia é equivocada. Trabalha-se na base do medo ou se limita ao ‘use camisinha’.” Maria Helena defende que se aprofunde as discussões sobre a doença e se motive os alunos a enxergar a prevenção como necessária.

Para ajudar você a planejar sequências didáticas, NOVA ESCOLA traz novidades das pesquisas, dados estatísticos e dicas para mostrar a essa nova geração que Aids é coisa séria.

MOSTRE O QUE HÁ DE NOVO

O preservativo ainda é a forma mais eficaz de proteção, mas já existem outras estratégias. Trazer as novidades abre o leque de possibilidades dos alunos e torna a discussão mais interessante


PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO (PEP)

A PEP é uma espécie de “pílula do dia seguinte” contra a contaminação por HIV, disponível no SUS desde 2010. Funciona assim: depois de uma relação sexual desprotegida, o paciente deve procurar o serviço de saúde em até 72 horas e contar ao médico como foi a exposição. Se o risco ficar claro, o paciente ingere antirretrovirais por 28 dias. O tratamento pode causar efeitos colaterais como diarreias, vômitos e icterícia, e não pode ser interrompido.


PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO (PrEP)

Se a PEP pode ser comparada à “pílula do dia seguinte”, a PrEP se assemelha aos anticoncepcionais femininos. O paciente toma um comprimido ao dia do Truvada,
um antirretroviral já utilizado no tratamento de soropositivos, tornando o organismo praticamente imune – testes mostraram eficácia acima de 90%. Esse tipo de prevenção é recente e chegará ao SUS em alguns meses. No entanto, a droga ainda não se mostra segura para menores de 18 anos.


PRESERVATIVO E TESTES

Ele ainda é o recurso mais seguro, não somente contra a Aids, mas contra as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) em geral. Outra questão básica, mas imprescindível, é reforçar a necessidade de fazer testes para identificar o vírus HIV. Boa parte das contaminações é feita por pessoas que desconhecem ser portadoras do vírus. Diversas unidades de saúde oferecem o teste rápido, feito pela saliva e que mostra o resultado em até 30 minutos.


NOVOS TRATAMENTOS

O cuidado com quem já tem o vírus também é uma forma de prevenção, uma vez que os antirretrovirais conseguem reduzir a carga viral no organismo a praticamente zero – o que anula qualquer risco de transmissão. A última novidade é a introdução do Dolutegravir na linha de medicamentos fornecidos pelo SUS. Essa droga elimina a necessidade de tomar muitos comprimidos e traz menos reações adversas, o que pode estimular a adesão ao tratamento.

Humanize a questão

Se, por um lado, investir no medo não é uma estratégia eficaz, por outro, é preciso deixar claro que a Aids é uma doença grave, que traz consequências negativas para a vida dos pacientes, com as quais eles terão que conviver por muito tempo e que afetam inclusive seus relacionamentos. Também é fundamental que a turma rompa com preconceitos e estigmas, especialmente em relação aos homossexuais.

Discuta casos reais e filmes que fujam dos estereótipos relacionados à doença. O filme E a Vida Continua (dirigido por Roger Spottiswoode), que retrata os primeiros anos da epidemia nos EUA, pode ser um bom ponto de partida. Outro longa-metragem importante é Filadélfia (dirigido por Jonathan Demme), em que o ator Tom Hanks encarna um advogado homossexual que sofre enorme discriminação.

Explore as estatísticas

Elas ajudam a ter uma ideia do impacto social da doença. Por exemplo: por que alguns países africanos têm mais casos do que outros? Os alunos podem pesquisar e tabelar indicadores. Veja ao lado o total de infectados no Brasil e o número de pessoas diagnosticadas, tratadas e com carga viral suprimida (quando o vírus é quase eliminado). Proponha uma comparação com a Meta 90-90-90, estipulada pela ONU: até 2020, 90% dos infectados devem saber que têm HIV, 90% dos diagnosticados, estar em tratamento contínuo, e 90% deles devem ter carga viral suprimida.

Fonte: Unaids/Ministério da Saúde

Explique a doença e os perigos

Se você optar por uma exposição oral detalhada sobre a ação do HIV no organismo e os sintomas de Aids, use materiais audiovisuais como apoio. Um vídeo do Instituto Butantan, com o Dr. Drauzio Varella, explica de forma simples o que acontece. O site aids.gov.br, do Ministério da Saúde, também é uma boa fonte. Outro ponto importante é explicar as formas de contágio. Como mostra a tabela abaixo, que você pode compartilhar com seus alunos, o risco depende especialmente da modalidade sexual praticada, mas outros fatores podem aumentar ou diminuir a chance de contrair o vírus. Já existe até um aplicativo para celular, o TáNaMão, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, que permite ao usuário saber quais riscos ele corre e encontrar o atendimento de saúde mais próximo.

Fonte:  Recomendação para terapia antirretroviral em adultos e adolescentes infectados pelo HIV - 2008, do Ministério da Saúde, e Ricardo Vasconcellos, infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo


Consultoria: Felipe Bandoni, professor de Ciências do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e colunista de NOVA ESCOLA

Fotos: Ricardo Toscani

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