Apesar das incertezas, rede privada sai na frente na reforma do Ensino Médio

As escolas já se preparam para oferecer todos os itinerários formativos previstos na proposta e aumentar a carga horária. Mudanças podem elevar o valor das mensalidades

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Laís Semis
No Colégio Santa Maria, em São Paulo, a equipe tem estudado a proposta do novo modelo e o impacto dela na instituição. Crédito: Eli K. Hayasaka

O Novo Ensino Médio ainda é uma grande interrogação para muitas pessoas. A verdade é que parte das incertezas vem do próprio texto, aprovado no Congresso e sancionado pelo presidente Michel Temer em fevereiro. Há lacunas sobre o que de fato vai acontecer com as séries finais da Educação Básica, o que deixa espaço para muitas possibilidades, principalmente em relação aos cinco itinerários formativos que poderão ser oferecidos aos estudantes (leia as respostas para as principais dúvidas aqui).

Porém, mesmo em meio a tantas dúvidas, algumas escolas particulares já estão avaliando o que é possível colocar em prática agora com as informações disponíveis. “Não dá para ficar esperando. Temos que começar a nos articular, mesmo que seja em linhas gerais”, afirma Silvio Freire, diretor do Ensino Médio do Colégio Santa Maria, em São Paulo. O assunto tem sido discutido nas reuniões quinzenais da equipe. “Os professores leram item por item do texto da reforma para entender não apenas do que se trata, mas também para discutir quais serão os impactos para nosso colégio”, explica o gestor. Para Antônio Marchesan, diretor da escola Singular São Caetano, em São Caetano, na grande São Paulo, está difícil obter informações certeiras sobre o que de fato acontecerá. “No momento, ninguém tem certeza de nada. Tenho participado de eventos e escutado entrevistas com especialistas sobre o assunto. Mas, quando eles são questionados sobre determinados pontos da reforma, não sabem afirmar como será na prática”, conta.

Em linhas gerais, a proposta do novo Ensino Médio prevê o aumento gradual da carga horária e a flexibilidade do currículo. Os alunos poderão escolher entre cinco itinerários formativos (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação Técnica e Profissional) – as escolas não serão obrigadas a oferecer todos os itinerários. O texto também estabelece que 60% do currículo dos três anos da etapa será definido pela Base Nacional Comum Curricular, que ainda não está pronta, e os outros 40% serão flexíveis, de acordo com o contexto e as necessidades locais.

Por onde começar
Na Escola Viva, localizada na capital paulista, a primeira ação para colocar as mudanças do Ensino Médio em prática foi traçar comparativos entre o que está sendo proposto e o que já é feito pela instituição hoje. “A reforma prevê mil horas anuais, incentivando chegar a 1400 para contemplar um ensino em tempo integral. Atualmente, nossa escola já oferece 1300 horas para os alunos do 1º e 2º ano do Ensino Médio e 1105 horas para os do 3º”, conta Thaís Milano, coordenadora geral de Ensino Médio.

Antônio, da Singular São Caetano, conta que a equipe está estudando possibilidades, como por exemplo, oferecer tanto a modalidade de 5 horas diárias (tempo mínimo exigido pela reforma) quanto a de tempo integral. “Existem pais e alunos interessados em uma modalidade e em outra”, diz. Além disso, a escola pretende ofertar os cinco itinerários formativos previstos. Ainda não há nada definido, mas uma coisa é certa: qualquer mudança impactará a infraestrutura e os recursos humanos e, consequentemente, o valor da mensalidade, que deve aumentar.

Juliano Costa, diretor pedagógico da Pearson Brasil, empresa responsável pelos sistemas de ensino COC e Dom Bosco, prevê que a implementação da reforma nas unidades se dará de forma gradual. “Estamos acompanhando de perto o desenvolvimento da legislação ao mesmo tempo em que pensamos em planos para atendermos as demandas assim que elas surgirem, sejam de materiais didáticos e tecnologias educacionais ou de serviços pedagógicos”, diz.

Para o MEC, antecipação da rede privada não é problema
O Ministério da Educação (MEC) não se mostrou preocupado com o fato de que as escolas particulares estão iniciando as mudanças no Ensino Médio antes do que está previsto para as instituições da rede pública. “Nós queremos começar um processo com qualidade nas escolas públicas. No entanto, se a rede privada se sentir com autonomia e condições de iniciar a reforma antes, tudo bem”, diz Wisley João Pereira, coordenador geral do Ensino Médio no órgão.

Rossieli Soares, secretário da Educação Básica do MEC, aposta que o novo modelo diminuirá as desigualdades entre os estudantes da rede pública e privada. Hoje, segundo ele, as escolas privadas estão inseridas em contextos que, por si só, impactam a qualidade do serviço que oferecem. “O indicador socioeconômico das famílias que estudam nessas escolas é mais alto. Não precisamos nem falar de reforma, só essa diferença já cria uma realidade diferente. O aluno da escola pública tem menos capital cultural e nós temos que corrigir isso”, diz o secretário, sem dar indicativos de como o MEC lidará com a situação.

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