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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita

20 de Março de 2017 Imprimir
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4 grandes lições que aprendi na maior conferência de Educação do mundo

Por: Mara Mansani
A convite de NOVA ESCOLA e Fundação Lemann, 11 professores brasileirosparticiparam do SXSWedu, em Austin, no Texas. (Foto: Arquivo pessoal/Mara Mansani)

Este março de 2017 ficará marcado para sempre em minha memória. Há pouco mais de uma semana, vivi uma das mais impactantes experiências da minha vida como professora. Como vocês devem ter acompanhado aqui no site, NOVA ESCOLA e Fundação Lemann, mantenedora da Associação Nova Escola, levaram um grupo de 11 professores e gestores para participar da sétima edição do South by Southwest (SXSWedu), a maior conferência de inovação e Educação do mundo, realizada em Austin, no Texas (EUA). E eu fiz parte desse grupo (para entender melhor o que é o SXSWedu, clique aqui).

Foram quatro dias de estudo intenso, muito aprendizado e reflexão. Isso sem contar a oportunidade de visitar uma escola americana, um centro de artes e conhecer mais o país, na companhia de um grupo maravilhoso de colegas de diferentes locais do Brasil.

Foram muitos painéis, debates e palestras, que reuniram educadores e empreendedores para abordar assuntos atuais e – acredite – muito significativos para a nossa realidade brasileira. Às vezes a gente acha que cada país é um país, e que não há muito o que comparar com nações estrangeiras, especialmente as mais desenvolvidas. Mas fiquei surpresa ao ver o quanto temos em comum, inclusive em problemas e desafios a resolver.

É tanta coisa bacana que contar tudo o que eu gostaria neste texto é tarefa quase impossível. Mas quero compartilhar com vocês as quatro lições mais fortes que tirei de tudo o que vi lá.

  1. Precisamos respeitar nossos alunos

Logo na abertura, a palestra do professor Christopher Emdin, da Universidade de Columbia, causou uma forte impressão. Com o tema “A desvalorização da cultura dos jovens e a ausência de suas vozes nas escolas”, Christopher nos causou aquele necessário desconforto de admitir o quanto fechamos os olhos para os alunos no nosso dia a dia. Ao citar como referência –  para nossa surpresa e emoção! – Paulo Freire, o americano disse que, nas escolas de lá, falta aquele ideal que o educador brasileiro defendeu em sua obra: um ensino cheio de significado, que valorize a cultura de cada um e gere espaços de escuta, o que causa sofrimento para os alunos, que se sentem desajustados, frustrados e desvalorizados.

Uma das falas mais impactantes de Christopher, que é negro, foi em relação à discriminação racial. “Tentam enterrar pessoas negras, mas não sabem que somos sementes. Então, viramos árvores, e aí nos cortam e fazem carvão. Carvão que aparentemente não tem valor, mas se transforma em diamantes.” E concluiu dizendo: “Vocês não podem apagar nosso brilho!”.

Aqui no Brasil, ainda damos pouco espaço para os alunos falarem, e quando eles falam, não se tratam as reivindicações e anseios com a devida seriedade. Agora, depois de voltar do SXSWedu, aqui na EE Laila Galep Sacker, em Sorocaba, começamos a construir uma experiência mais efetiva de escuta, bem nesse espírito do Christopher. Fizemos, pela primeira vez, uma grande assembleia com todas as turmas de alunos e ouvimos tudo o que eles tinham a dizer sobre o que não está bom na escola. E a ideia é aplicar mesmo as soluções sugeridas. Além disso, estou pensando em como dar mais espaço para que os estudantes tragam a sua cultura para dentro da escola. Quem sabe não criamos uma atividade ao estilo “boca no trombone”, em que eles possam dizer do que gostam, o que assistem, sucedida de aulas baseadas nessas preferências, sem medo nem preconceito.

  1. Precisamos compreender as cobranças e desenvolver autocrítica

Carmen Fariña é chanceler do Departamento de Educação de Nova York, um cargo equivalente ao de secretária municipal de Educação aqui no Brasil, e fez uma brilhante apresentação do trabalho que realiza na cidade. Ela nos levou a refletir sobre nossa atuação: “Quem vai ter você como referência se não tiver credibilidade? Você faz o melhor para atender as necessidades dos seus alunos?”, questionou. Mesmo sendo gestora de uma rede tão grande, Carmen faz questão de acompanhar tudo pessoalmente, visitando as escolas e escrevendo relatórios e feedbacks que envia a diretores e professores – sim, um por um. Ela chama os professores à responsabilidade e dá orientações a eles.Mas não são apenas cobranças. Carmen também procura elogiar e valorizar o que é bom, além de garantir os recursos necessários para o trabalho.

  1. Precisamos abrir um diálogo positivo com as famílias

Na mesma palestra, Carmen Fariña enfatizou o esforço de seu departamento em promover nas escolas maior sintonia entre as instituições e as famílias (outro desafio que nós, brasileiros, conhecemos bem, mas que não é exclusividade nossa).

Uma das medidas mais interessantes que Nova York adotou foi pedir que as escolas não falassem só de coisas ruins, mas celebrassem com os pais as conquistas e avanços dos alunos. Há até o “dia das boas notícias”, uma reunião realizada periodicamente só para falar de coisa boa. Outra iniciativa é um programa de engajamento familiar que traz a comunidade para dentro da escola, pelo menos um sábado por mês, para conversar, confraternizar e oferecer atividades de alfabetização, dança, entre outras.

  1. Precisamos cuidar da saúde mental das crianças

Em outra palestra, Ross Szabo, um estudioso pioneiro na área de saúde mental e Educação, abordou um tema delicado, que raramente aparece em nossas conversas, mas que, segundo ele, devia fazer parte dos projetos pedagógicos: o cuidado com a saúde mental dos nossos alunos desde bem pequenos.

Ross fala por experiência própria. Ele nos contou que começou a ter os primeiros sintomas de transtorno bipolar aos 11 anos, mas só procurou tratamento aos 23. As suspeitas, no entanto, surgiram antes, e graças à observação atenta de um professor. Ross lembra que um dia, depois de sofrer bullying dos colegas, o docente observou que ele não estava bem, que seu estado ia além do nervosismo natural diante da situação.

A partir dessa experiência pessoal e de muitos anos de estudo, o especialista defende que os professores devem ser treinados para reconhecer sinais de problemas de saúde mental nos alunos e encaminhá-los a profissionais rapidamente. O objetivo é evitar anos de sofrimento, que, às vezes, culminam em mutilações e até suicídios. Um dos programas criados por Ross, chamado “Por trás de rostos Felizes” (em tradução livre), treina e apoia docentes nos Estados Unidos, além de sugerir práticas de meditação nas escolas, como yoga, e o uso da música. Ele ainda mantém um site (em inglês) com textos, vídeos e alguns materiais.

Bem, esse é só um pedacinho de tantas coisas incríveis que aprendi no SXSWedu. Mais uma vez, quero agradecer imensamente a NOVA ESCOLA e a Fundação Lemann pela maravilhosa oportunidade de renovar minhas práticas e minhas esperanças e energias para a construção da escola pública de qualidade! E a todos professores companheiros de viagem Gina, Marlúcia, Greiton, João Paulo, Jocemar, Willimann, Ademir, Débora, Fábio e Máximo  muito obrigada por contribuírem para que essa jornada de estudo fosse tão especial!

E vocês, queridos professores, o que acham que podem tirar dessas lições para as nossas escolas no Brasil? Deixe suas ideias aqui nos comentários!

Um grande abraço e até a próxima segunda feira,

Mara Mansani

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