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19 de Março de 2017 Imprimir
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Wemerson Nogueira é um dos dez melhores professores do mundo. E agora?

Essa é a conquista do docente capixaba no Global Teacher Prize, o Nobel da Educação

Por: Leandro Beguoci

Peço licença para começar este texto falando de tênis - o esporte, não o calçado. No final dos anos 90, Gustavo Kuerten, o Guga, surgiu como um raio num dia de céu azul no esporte mundial. Aquele magricela brasileiro venceu Roland Garros e, pouco tempo depois, conquistaria o primeiro lugar no ranking mundial. Havia uma “gugamania” no Brasil e, por algum tempo, todos nos transformamos em especialistas e torcedores de tênis.

Aqui e ali, contudo, alguém fazia uma pergunta incômoda, na contramão da euforia: A conquista de Guga era uma exceção ou tinha potencial para virar regra? Duas décadas depois, é difícil cravar uma resposta simples para essa questão. Surgiram outros atletas, mas nunca mais tivemos um campeão do tamanho de Gustavo Kuerten.

Com as devidas diferenças, é possível fazer um paralelo com Wemerson Nogueira. Num espaço de seis meses, ele conquistou Prêmio Educador Nota 10, uma das maiores honrarias que um educador pode receber no Brasil, e ficou entre os finalistas do Global Teacher Prize, um dos maiores prêmios para professores no planeta. O capixaba saiu do interior do Estado para se transformar em referência mundial - e pouco importa, neste contexto, que ele não tenha recebido o título de melhor professor do mundo (conheça a vencedora aqui). Wemerson já colocou a Educação brasileira em destaque positivo no mundo, algo mais raro e improvável do que conquistar um torneio esportivo.

Por isso, já é possível antever as mesmas ponderações do tênis. Tal como Guga, Wemerson seria a exceção da exceção, não a regra.

Concordo com os críticos de que é preciso ter cuidado numa hora como essa. A conquista de Wemerson não pode mascarar nossos problemas nem servir para pintar de cores alegres um cenário que, em muitas escolas, é desolador. Longe disso. Manter o espírito crítico é fundamental para avançar.

Porém, diferente do tênis, na Educação há muitos professores como Wemerson no Brasil. São pessoas que têm prazer em ensinar e despertam, em seus alunos, o prazer em aprender. São profissionais que colocam os estudantes no centro e pesquisam profundamente novas formas de construir conhecimento junto com seus alunos. São pessoas que olham para um problema e não são paralisados por ele. Essas pessoas buscam soluções. Elas sabem que há muitas coisas que independem delas, como salário e infraestrutura. Mas elas também sabem que há muitos, inúmeros fatores, que estão, sim, ao alcance delas.

Além disso, Wemerson não tem uma trajetória isolada. Seu caminho só foi possível porque ele teve mentores que o ajudaram pelo caminho, uma prática que vem ganhando força em escolas e secretarias país afora. Ele também é fruto da disseminação da tecnologia. Wemerson vem de uma família de agricultores pobres e se formou em ciências biológicas por ensino a distância. A graduação se encaixou no seu orçamento e se adaptou às suas dificuldades. E, como acontece nesses casos, ele teve incentivos dentro do Estado para sonhar grande - ele já tinha conquistado outras honrarias no Espírito Santo antes de voar ainda mais alto.

Esses três fatores, e outros tantos, positivos, que Wemerson não teve, estão presentes no caminho de muitos outros professores brasileiros. São notórios os casos de Sobral, no Ceará, e de Novo Horizonte, em São Paulo. Como mostra o estudo "Excelência com Equidade”, fruto de uma parceria entre a Fundação Lemann (mantenedora de NOVA ESCOLA), Itaú BBA e Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo, há redes conquistando resultados excelentes em regiões muito pobres. Começam a nascer e a se consolidar métodos de trabalho capazes de melhorar substancialmente a Educação no país.

Por fim, o passo de Wemerson tem um impacto gigantesco na percepção da carreira docente. Infelizmente, muitos professores são vistos e se veem apenas como pessoas desvalorizadas e castigadas pelo Estado, pelas escolas, pelos alunos e pelas famílias. É claro que os educadores têm muitos motivos para se sentir assim. Mas o caso de Wemerson tem o potencial de mostrar que o professor brasileiro é muito mais do que uma vítima. Ele pode ser o protagonista das mudanças que deseja ver na Educação brasileira. Professores e professoras podem assumir a dianteira da própria vida e transformar profundamente a situação em que vivem hoje. Com a Base Nacional Comum Curricular, por exemplo haverá uma oportunidade gigantesca para reformar os currículos e melhorar a formação de professores no país. Isso só acontecerá com os professores tomando a dianteira desse processo. Não existe mudança real sem professores comprometidos e confiantes de que, sim, eles podem fazer o que quiserem.

Wemerson encarou a maior tragédia ambiental da história brasileira, o vazamento em Mariana, e transformou a dor em aula e a aula em reconhecimento mundial. O próximo passo dele é transformar o prêmio em inspiração para outros educadores. Porém, o passo mais importante não depende de Wemerson, mas de você: pegar essa inspiração e concretizá-la em mudança real na sua escola, na sua cidade, no seu Estado. E não se preocupe. Você não fará isso sozinho. O Brasil pode ter tido apenas um tenista como Guga, mas pode ter milhões de professores como Wemerson. O espaço está ai, aberto para ser ocupado por pessoas comprometidas com Educação de qualidade, para todos, todos os dias.

 

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